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O libanês Pierre Sfeir fugiu da guerra para vencer no Brasil


A fuga foi arquitetada pela mãe de Pierre, para que o filho não servisse ao exército do Líbano, envolvido em uma sangrenta guerra com os muçulmanos, em 1975. Hoje ele é dono de três lojas, fábrica e confecção


  Por Wladimir Miranda 31 de Março de 2017 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


“Sigo um ditado árabe que diz: "Devemos guardar o dinheiro branco para os dias negros”.

A frase é do libanês Pierre Sfeir, dono de três lojas de fantasias na Ladeira Porto Geral, no centro, uma confecção em Bragança Paulista (SP) e uma fábrica, no Ipiranga, na Zona Sul. Ele emprega, no total, 200 pessoas. A crise econômica não o obrigou a demitir funcionários.

Nos períodos de ótimas vendas, Carnaval, Festas Juninas, Dia das bruxas, o Hallowen, em 31 de outubro, tradição que os brasileiros importaram dos Estados Unidos, e Natal, as vendas disparam.

Então, o dinheiro entra com facilidade. E é preciso guardar o que entra fácil para os intervalos entre estas datas, quando o faturamento escasseia.

Pierre não abre o faturamento mensal nos três estabelecimentos, batizados de Festas e Fantasias.

São máscaras, chapéus de bruxas, maquiagens, para consumidores em geral, para grupos de teatro, emissoras de televisão e creches, cujos preços variam de R$ 15,00 a R$ 250,00.

O Carnaval foi ótimo. Diz que obteve crescimento nas vendas de 15% em relação a 2016. A torcida é grande para que o otimismo com a vendas no período de folia se repitam nas festas Juninas, no Hallowen e no Natal.

Seria uma maneira de recuperar um pouco o prejuízo acumulado nos últimos dois anos, quando a crise econômica fez com que as vendas recuassem 30%.

Quem entra nas três lojas da Festas e Fantasias depara com vários avisos informando que ali os cartões de débito e de crédito não são aceitos.

“Só trabalho com dinheiro e cheques. Nunca trabalhei com cartão. As taxas, em torno de 3.7%, são muito altas. Não compensam”, diz Pierre.

A FUGA

Aos 60 anos, ele conta que a sua mãe teve de colocar em prática uma estratégia de guerra para mandá-lo para o Brasil. Era junho de 1975. Pierre fazia faculdade de arquitetura no Líbano.

O país estava na iminência de iniciar uma guerra civil. Era um sábado quando começaram os conflitos.

Assim que soube que o filho, com 19 anos, havia sido recrutado pelo exército libanês, a mãe de Pierre, Laudy Fegali, ficou apavorada. Decidiu que faria o possível para impedir que Pierre fosse para o campo de batalhas.

Falou com todas as autoridades que conhecia. Aquele sábado, 8 de dezembro de 1975, que entrou para a história do Líbano como o sábado negro, devido a 250 mortes nos conflitos pelas ruas de Beirute, nunca mais saiu da memória de Pierre.

“Eu me lembro que cheguei ao aeroporto de Beirute no final da tarde daquele sábado, escondido dentro de um tanque de guerra”, conta ele.

A confusão era tão grande em Beirute, que os oficiais que foram levar Pierre ao aeroporto, só conseguiram retornar às suas bases uma semana depois. Após o sábado negro, o aeroporto ficou quase dois anos fechado.

Os conflitos armados que motivaram a fuga mirabolante de Pierre começaram exatamente dia 10 de abril de 1975. O estopim dos combates foram as mudanças na Constituição do Líbano, que colocaram frente a frente cristãos e muçulmanos.

A guerra só terminou em setembro de 1976, com um saldo de 30 mil mortos, pelo menos 60 mil feridos e mais de meio milhão de desterrados, ou seja, pessoas que foram obrigadas a deixar o Líbano.

A CHEGADA

Pierre chegou à São Paulo e foi morar na casa de uma avó, na rua Topázio, no bairro da Aclimação, na região central da cidade. O plano era fazer com que o rapaz ficasse no Brasil até a guerra civil terminar no Líbano. O problema é que os conflitos duraram quase dois anos.

Com 20 anos, Pierre foi trabalhar na loja de um tio, também na Ladeira Porto Geral, que vendia bolsas e bijuterias. Em 1995, ele resolveu abrir um negócio próprio, no primeiro andar do número 68 da ladeira.

O MUNDO MÁGICO

Com tino comercial, Pierre percebeu que o Brasil era carente de produtos para festas como casamentos, aniversários, batizados. Em seguida, teve a ideia de pegar um navio com a esposa, brasileira, e ir visitar a Disney.

Achou interessante e, por que não, com boas perspectivas de lucros, as fantasias usadas pelo Mickey, Minnie, a Bela e a Fera, o Capitão Gancho e outros personagens que faziam e fazem parte do mundo mágico criado por Walt Disney.

Visionário, Pierre trouxe uma peça de cada um dos personagens de Disney para o Brasil e pediu para que as costureiras tupiniquins confeccionassem fantasias similares.

Pronto, estava construído o alicerce de um império com três grandes lojas, uma fábrica de decorações e uma confecção de roupas e fantasias. Pierre é um pioneiro no setor. Depois dele, vieram outros, que abriram suas lojas comerciais para venderem fantasias na região da Rua 25 de março.

Bem adaptado à vida no Brasil, Pierre só tem a agradecer à mãe, Laudy Fegali, hoje com 85 anos.

“Ela fez um grande esforço para eu vir para o Brasil. E eu sou grato pelo que ela fez. Nove de 14 amigos que eu tinha na faculdade morreram na guerra civil. Também não me arrependo de não ter concluído a faculdade de arquitetura. Sou feliz fazendo o que faço”, avisa ele.

A mudança para um país distante não foi nada fácil para Pierre. Reconhece que foi difícil superar as inúmeras crises econômicas que o Brasil atravessou. No momento, está enfrentando mais uma, que fez com que as festas de casamentos, aniversários que os brasileiros faziam até o período difícil da economia começar, há três anos, diminuíssem sensivelmente.

“Dificilmente hoje os brasileiros fazem festas de casamentos, aniversários, batizados”, afirma.

Este é um aspecto que faz com as três lojas da Festas e Fantasias sobreviverem do Carnaval, Festas Juninas, Hallowen e Natal.

“Estamos vivendo os dias negros, Por isto, foi importante guardar o dinheiro branco. Assim, não somos obrigados a demitir ninguém”, festeja.

FOTOS: Wladimir Miranda/Diário do Comércio