Negócios

O ex-boia-fria fez da cachaça um negócio milionário


Delfino Golfeto transformou um boteco especializado, aberto na garagem de sua casa, em uma lucrativa rede de franquias


  Por Mariana Missiaggia 29 de Dezembro de 2016 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Tem gente que bebe para esquecer. Outros bebem para comemorar. O empresário Delfino Golfeto (na foto de abertura), 65 anos, fundador da Cachaçaria Água Doce, bebe para degustar.

Há 30 anos, o ex-boia-fria natural de Tupã, distante 500 quilômetros de São Paulo, se dedica a conhecer pequenos produtores, novas técnicas e diferentes sabores de cachaças.

Sempre em busca dos melhores rótulos para estrelar o cardápio de seu negócio, que nasceu justamente, por causa da bebida.

Filho de um funcionário público cujo orçamento era bastante apertado, Golfeto tinha outros quatro irmãos e a desculpa perfeita para não esperar muito da vida. Mesmo assim, preferia não reclamar.

Acostumado a trabalhar na roça desde a infância, foi cortador de cana-de-açúcar dos oito aos 17 anos. Foi trabalhando na rotina pesada de um canavial, que ele viu sua paixão pela cadeia canavieira despertar.

SILVIA E DELFINO GOLFETO, NA PRIMEIRA UNIDADE DA CACHAÇARIA

Com o objetivo de se tornar técnico em açúcar e álcool, Golfeto se dividiu entre dois empregos para ajudar os pais, e também sustentar os estudos na faculdade, numa cidade perto de Tupã.

Além de ter uma profissão, acalentava o desejo de frequentar bons restaurantes. A realização não demorou a acontecer. A conquista do diploma lhe rendeu um emprego como gerente de usina -função que ele exerceu por 18 anos.

Com os primeiros salários, conseguiu chegar onde queria - à mesa de um restaurante estrelado de Araçatuba, a 100 quilômetros de Tupã, onde deixou o equivalente a R$ 2 mil pelo jantar. "Um sonho não tem preço", diz.

Ao perceber a qualidade do serviço oferecido, Golfeto concluiu que, no futuro, poderia tentar o mesmo utilizando todo o conhecimento que guardava sobre a cachaça.

Os anos se passaram e Golfeto ficava cada vez mais envolvido com a ideia de abrir uma espécie de boteco familiar para harmonizar o destilado com deliciosos petiscos que sua mulher, Silvia, preparava.

Nascia então, mais um sonho. O primeiro passo foi aproveitar as dicas e contatos que acumulou ao longo de quase duas décadas em usinas para abrir uma pequena fábrica de aguardente. 

UMA DAS UNIDADES DA REDE, EM RIBEIRÃO PRETO

Com produção própria, o apoio da esposa e tino para escolher boas bebidas, Golfeto abriu o próprio bar com 13 mesas, em 1990, na garagem de casa, em Tupã, com o nome de Água Doce Aguardenteria.

À medida que o bar ia ganhando fama na cidade –chegou a ter 70 mesas-, novas ideias surgiam. Muita gente queria replicar o modelo ou a ajuda de Golfeto para abrir um negócio semelhante. “Até que um amigo me alertou. Ele disse que eu tinha um negócio franqueável”.

Durante três anos, o empresário estudou o conceito de franquias, e em 1993, inaugurou a primeira unidade franqueada, a Cachaçaria Água Doce, que existe até hoje, em Ourinhos, a 380 quilômetros de São Paulo.

Embora seja o motivo real para tudo ter acontecido e tenha muito destaque nas lojas, com doses que variam de R$ 2 a R$ 55, Golfeto diz que as cachaças correspondem a apenas 4% do faturamento. O carro-chefe são porções e outras bebidas, como cervejas. 

Hoje, a rede possui 96 unidades além de outra em fase de implantação. O investimento inicial parte de R$ 500 mil, aí incluídos custos de instalação, taxa de franquia e capital de giro. O faturamento médio mensal de uma unidade é de R$ 95 mil, com lucratividade de 15%, ou seja, R$ 14,2 mil. 

FOTO: Evelson de Freitas/ Estadão Conteúdo