Negócios

O empreendedor que batalha pela melhoria do centro


Carlos Beutel (foto) é dono de um dos restaurantes vegetarianos mais conhecidos do centro. O Apfel serve, em média, cem refeições por dia.


  Por Wladimir Miranda 29 de Janeiro de 2019 às 16:10

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Carlos Beutel, filho de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial, é um dos comerciantes mais atuantes na batalha para tornar o centro de São Paulo mais seguro e, portanto, mais atraente para os paulistanos e turistas de outros estados e estrangeiros que querem desfrutar de tudo que a região oferece.

Desde 1992, é dono do Apfel – maçã, em alemão -, restaurante vegetariano, que funciona de segunda a sábado, na Rua Dom José de Barros, 99, esquina com a Barão de Itapetininga. A casa é uma das mais frequentadas do centro.

É claro que o fato de ser um líder das reivindicações dos comerciantes o ajuda a aumentar o número de clientes.

“Sou um agregador”, diz, sem perder de vista o cliente que chega e vai ao seu encontro querendo saber sobre “aquela reunião” com o prefeito regional da Sé, Francisco Roberto Arantes, para falar a respeito das várias questões que preocupam empresários e moradores.

O Apfel serve, em média, 100 refeições por dia. O cliente pode comer à vontade a variedade de comidas vegetarianas. Ao preço de R$ 34, 00 por pessoa, são servidos arroz integral, cereais, tortas, quiches, lasanhas, massas, feijão, lentilha, grãos em geral. De sobremesa, doces e frutas, que também podem ser servidas sem restrições de quantidade.

O local, com 90 metros quadrados, passará em breve por uma ampla reforma. “Vou mexer na parte arquitetônica”, avisa.

Carlos Beutel veio criança para o Brasil. Ele, os pais e três irmãos foram morar no Bom Retiro, tradicional bairro próximo ao centro, que recebeu centenas de poloneses que desembarcaram no país aos primeiros sinais da guerra na Europa.

O pai foi trabalhar como operário na Loja A Exposição Clíper, como empacotador. A mãe, além de fazer os trabalhos domésticos, costurava para fora.

“Não tenho mais meus pais. Morreram cedo, aos 58 anos. Hoje a expectativa de vida aumentou bastante. Aliás, a vida melhorou muito. Temos uma situação bem melhor, graças à luta de nossos antepassados. Temos liberdade. Mas não podemos esmorecer. Ainda é preciso lutar por ela”, discursa ele, de 65 anos.

O pensamento libertário é resultado dos ensinamentos que teve em uma escola judaica do Bom Retiro. “Os professores eram judeus, com visão social do mundo”, lembra ele, que já rapaz, foi estudar nos Estados Unidos.

O ensino público norte-americano –High School -, também colaborou para mudar a visão de mundo de Carlos.

“O nível de ensino da escola pública dos Estados Unidos impressiona. É muito melhor do que muitas das nossas faculdades”, afirma.

Mas a visão social dos professores da escola do Bom Retiro não foi suficiente para afastar Carlos de seu objetivo. “Desde cedo eu queria dar certo na vida. Sempre quis ter uma renda. Queria ter um negócio”, recorda ele.

Antes de ser empreendedor, Carlos foi office-boy e auxiliar em uma empresa de exportação. Também trabalhou como corretor de imóveis. É formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco.

Mas não chegou a trabalhar como advogado. Um dia, conheceu o dono de dois restaurantes vegetarianos, um no Pacaembu e o outro em Pinheiros.

Vendeu um imóvel que tinha na Penha, na Zona Leste de São Paulo, e um sítio, em Ibiúna, e com o dinheiro fez uma proposta para comprar o restaurante vegetariano do Pacaembu.

“O nome do restaurante do Pacaembu também era Apfel. Tinha doze funcionários. Trabalhei muito. Peguei gosto pelo comércio. Deu certo”, conta ele.

Mas o sonho de Carlos era ter um restaurante no centro de São Paulo. “É no centro onde tudo acontece”, prega.

“Comprei este restaurante aqui em 1992. Na época, o centro estava degradado. Melhorou um pouco. Mas ainda precisa melhorar muito”, afirma.

O Apfel Restaurante Vegetariano tem seis funcionários. Percebe-se que Carlos os trata como amigos. “Todos os meus funcionários estão comigo há muito tempo, no mínimo há 15 anos. Um deles, trabalha há 35 anos, desde que eu tinha a casa do Pacaembu. São todos registrados no regime das Consolidações das Leis do Trabalho – CLT. Gosto de tudo certo. Fica mais barato pagar os direitos do trabalhador. E também não quero problemas”, afirma.

O movimento do Apfel é grande, mas Carlos diz que já foi muito maior. “Eu ainda não fiz a contabilidade do movimento de 2018. Mas o que posso dizer é que, em 2017, caiu quase 70% em relação a 2016. Os custos de água, luz e água aumentaram bastante. Não está fácil, mas não vou desanimar”, avisa.

As verduras que serve no restaurante são do sítio que Carlos tem em Cotia, na Grande São Paulo. “São verduras orgânicas”, diz. As frutas são compradas no Ceagesp.

A clientela é formada por bancários e trabalhadores do comércio da região. “Muita gente vem fazer compras na Rua 25 de março e vem aqui almoçar. Tenho clientes antigos, que querem bom preço e comida gostosa”.

Carlos fala sobre os problemas do centro com conhecimento de causa. “Falta zeladoria de qualidade, as calçadas estão esburacadas, a poluição sonora incomoda os comerciantes, a iluminação é deficiente, faltam banheiros públicos. Sem falar no número enorme de moradores em situação de rua. No meio deles, muitos consumidores de drogas. O usuário de drogas tem de ser internado, tratado. Enfim, há muito o que conquistar”, afirma ele.

Sócio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que não tem do que se queixar do apoio da Distrital Centro para as suas reivindicações. Ao contrário.

“O Luiz Alberto Pereira da Silva (diretor superintendente da Distrital Centro) está sempre presente nas reuniões e faz um trabalho muito bom. A ACSP caminha ao nosso lado”, afirma.

Críticas ele faz às obras de revitalização da Rua 7 de Abril. Foi na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT).

“Foi um desastre. Nós dos movimentos pela melhoria do centro avisamos antes que a obra era desnecessária. Alertamos o Ministério Público sobre a inviabilidade das reformas. Mas o alerta não foi ouvido. Um centro bem cuidado pode gerar dezenas, milhares de empregos”, afirma.

FOTOS: Divulgação