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'O comércio deve chegar ao fundo do poço no 3º trimestre'


Para Fábio Silveira (foto), diretor da consultoria GO Associados, a reação do varejo deve vir em 2017, com crescimento entre 0,5% e 1%, na comparação com 2016


  Por Fátima Fernandes 07 de Abril de 2016 às 09:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Lojista, prepare-se: se as vendas já estão ruins, vão ficar ainda piores. O pico da queda no faturamento do comércio deve ocorrer no terceiro trimestre deste ano.

Em 2016, o faturamento real do varejo deve cair 4,8% ante o ano passado, que já registrou retração de 4,3% sobre 2014, de acordo com o IBGE.

A queda de quase 10% na receita do comércio em dois anos fará com que o setor recue quatro anos, voltando ao patamar de vendas entre o período de 2011 e 2012.

Quem faz a análise é Fábio Silveira, diretor de Pesquisa Econômica da GO Associados.

“A economia está em frangalhos. O comércio vai chegar ao fundo do poço em meados do terceiro trimestre”, diz ele.

A boa notícia é que, a partir daí, é provável, na avaliação de Silveira, que o setor comece a ter algum respiro, independentemente do que possa vir a ocorrer na política no país.

Para ele, com ou sem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o comércio deve voltar a crescer em 2017, algo próximo entre 0,5% e 1%.

É pouco, diz ele, considerando que, de 2010 a 2014, o setor cresceu 37%. “Mas é crescimento.”

Até lá, o comércio vai passar por maus bocados. A taxa de desemprego medida pela Pnad Contínua, que hoje ainda é de um dígito, deve bater em 11%.

O comércio ainda vai estar, neste ano, sob o efeito da alta dos juros que ocorreu no ano passado - a taxa Selic subiu para 14,25% em julho de 2015.

A massa real de salários deve cair ainda mais neste ano -algo próximo de 6,7%, diz ele, após ter diminuído 4,9% em 2015.

A expectativa é que, diante deste cenário, deve se intensificar o fechamento de lojas em todo o país e em todos os setores, inclusive no de alimentação, que, tradicionalmente, sente menos a recessão.

O segmento que mais deve sofrer neste ano é o varejo de eletroeletrônicos. A queda de 14% registrada em 2015 pelo IBGE deve se repetir neste ano, na avaliação de Silveira.

As lojas de tecidos, roupas e calçados já deverão registar queda de vendas de 8% neste ano, depois de terem enfrentado recuo de 8,6% no receita em 2015, de acordo com o IBGE.

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As vendas de postos de gasolina deverão cair 8% neste ano, dois pontos percentuais a mais do que no ano passado.

"As famílias estão economizando com combustível e estão utilizando mais o transporte público", diz.

Os supermercados também vão vender menos. O economista prevê queda de 3,5% no faturamento dos supermercados, que registraram retração de vendas de 2,6% em 2015 (dado do IBGE).

DE OLHO NO CAPITAL DE GIRO 

Para enfrentar este período de ‘vacas magras’, Silveira diz que o comerciante terá de ter um controle ainda maior com as operações da loja e, em especial, com o capital de giro.

Também devem ser evitados erros na gestão de estoques. O estoque mal gerido tem custo elevadíssimo, de quase 1,5% ao mês, considerando uma empresa que consegue obter dinheiro com juros de 18% ao ano.

O que o lojista deveria ter como missão nesta fase de vendas retraídas, diz ele, é tentar esticar o prazo de pagamento para o fornecedor e encurtar o prazo de recebimento do cliente. “O comerciante terá de ser criativo.”

O comércio precisa também ficar atento em relação à inadimplência dos consumidores, que está em alta.

Os atrasos (acima de 90 dias) no pagamento do crédito pessoal, que representavam 3,6% da carteira de empréstimo dos bancos em junho do ano passado, passaram para 4,4% em fevereiro deste ano, de acordo com o Banco Central.

A inadimplência nos empréstimos para compra de veículos passou de 7% para 7,5% e, para aquisição de outros bens, de 8,9% para 10,4% em um ano.

“E a tendência é de continuar subindo com o aumento do desemprego”, diz o economista.

E a taxa de juros da economia, na sua avaliação, deve cair somente a partir do segundo semestre do ano que vem, até porque o consumo está e deve continuar bastante retraído.

Se a presidente Dilma Rousseff sair, diz ele, pode ser que o mercado tenha uma avaliação mais positiva da economia brasileira.

“Em qualquer situação, porém, não deve haver uma melhora rápida do cenário econômico. A taxa de desemprego não vai cair da noite para o dia mesmo que medidas econômicas tenham maior respaldo no Congresso”.

Por 12 meses, portanto, os lojistas vão ter que conviver com um cenário parecido com este.

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