Negócios

O caminho de saída da recessão existe, mas será longo para as empresas


As expectativas em relação ao futuro melhoraram, o caminho contra a crise começou a ser trilhado, mas o efeito sobre a economia real levará tempo


  Por Rejane Tamoto 01 de Junho de 2016 às 08:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


O governo mudou e a confiança, pelo menos a que capta a percepção sobre o futuro, está melhor. No entanto, a recessão econômica, com mais uma contração do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país) neste ano, deixou um rastro sobre os números das empresas de diversos setores, que parece difícil de ser apagado.

Esta é, ao menos, a realidade deste ano. Uma recuperação mais clara é esperada somente em 2017, quando se estima uma alta de 0,55% do PIB, de acordo com projeção do relatório Focus, do Banco Central.  

A avaliação de empresários de diferentes setores -da indústria, do varejo, e do mercado imobiliário-, é que levará tempo para que seus números de faturamento, vendas, contratações e produção retornem ao campo positivo. A expectativa foi constatada em uma reunião na Associação Comercial de São Paulo (ACSP)

Alguns sinais mostram que a saída do fundo do poço pode estar próxima. Um deles vem do lado externo, com o interesse de estrangeiros em operações de fusão e aquisição com empresas brasileiras, com o intuito de produzir no país insumos até então importados, segundo uma fonte que intermedia esses contatos presente ao encontro.

Um dado mais concreto, porém, é o Índice Nacional de Confiança do Consumidor (INC), que ficou estável no patamar de 66 pontos em maio.

A avaliação é que o consumidor pressente mais otimismo em relação ao futuro, embora ainda tenha medo de perder o emprego no momento atual. Ou seja, enquanto as demissões não estancarem, o consumo não volta. 

A melhora da expectativa futura também revela uma outra boa notícia (que não chega a ser ótima): a de que o varejo encerrará este ano com uma redução de queda nas vendas, que atingiria -3%.

É o que mostra o indicador antecedente elaborado pelos economistas da ACSP, a partir de dados da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz), e divulgado no boletim ACVarejo

Um declínio de 3% já é um respiro diante do recuo de 5,8% observado em março. Ou seja, mostra que o fundo do poço foia afinal atingido dando início a um ciclo de recuperação do varejo, que se estende para 2017. 

Mas o ritmo é incerto. Um varejista lembrou que os shoppings continuam sendo inaugurados, já que os empreendimentos foram iniciados em uma época de ouro para o setor, entre 2012 e 2013, quando as vendas cresciam  no patamar de dois dígitos. 

"Mas muitos inauguram meios shoppings, ou seja, com tapumes cobrindo uma parte e com apenas 30% dos espaços ocupados por lojas satélites.Vejo uma recuperação apenas quando a economia melhorar, em 2021 ou 2022", disse.

Ao mesmo tempo, nesta crise, também disse notar muitos conflitos entre franqueados e redes. A solução para os empreendimentos, segundo o representante do varejo, passa pela oferta maior de serviços do que de lojas. 

Com a inflação elevada e perda de poder aquisitivo do consumidor, os supermercados registraram uma queda real de 1,9% no quadrimestre encerrado em abril, na comparação com igual período do ano passado.

A expectativa é de redução dessa queda para algo em torno de 1,5% até dezembro. O representante do setor diz que o Natal deve amortecer o recuo, que será inevitável por causa da elevação dos preços dos alimentos, que subiram 11,53% no acumulado de 12 meses. 

"A segunda marca ganhou relevância na preferência dos consumidores, em detrimento da marca líder. Produtos em embalagens promocionais também se destacaram", afirmou. O consumidor também está concentrando as compras nos primeiros dez dias do mês e fazendo menos visitas aos estabelecimentos. 

No varejo de medicamentos, que tem apresenta maior resiliência, a alta de preços autorizada pelo governo em abril também causou um impacto negativo nas vendas.

Enquanto as farmácias tiveram um incremento de 22,5% no faturamento em março, a queda chegou a 9,8% em abril -embora no acumulado de 12 meses o setor ainda registre crescimento de 10,4%. 

O que não é item de primeira necessidade acaba tendo um impacto negativo maior nas vendas, como é o caso dos materiais de construção.

O recuo no primeiro quadrimestre do ano, segundo dados parciais, foi de 4%. "O pior é observar o fechamento de distribuidores de cimento. Dois grandes fecharam e dois estão para fechar. Isso mostra o quão grave é a crise nesse setor, para o qual não vejo recuperação". 

Não só na construção de imóveis novos, mas na venda dos já existentes há uma crise forte de demanda.

Muitos dos que compraram residências na planta estão pedindo o distrato e levando a uma judicialização entre compradores e incorporadoras, que tem sido pressionadas na outra ponta, pelos bancos, com a falta de crédito. 

INDÚSTRIA

Para a indústria, os números ainda são negativos e a recuperação tende a ser mais lenta, com uma projeção de queda na produção de 8% no fim deste ano.

O resultado negativo tende a ser puxado pelos bens de capital e bens de consumo duráveis. O setor ainda sofre com a inadimplência na cadeia produtiva e passa por um ajuste de emprego. 

Um dos setores que registrou queda expressiva foi o de eletroeletrônicos, que reúne linha branca, marrom, ar condicionado e eletroportáteis, com um recuo anualizado na produção de 33% no primeiro trimestre.

Um representante do setor disse que neste ano foram registrados 132 pedidos de falência e 162 de recuperação judicial. 

O câmbio estável, em patamar elevado, ajudou o setor têxtil a reduzir as importações em 39,7%, mas as exportações também caíram 6,4% no primeiro quadrimestre. Houve o fechamento de 995 vagas no período, ante uma redução de 821 em 2015. 

FOTO: Thinkstock





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