Negócios

No Mercadão, os irmãos Gomes se unem para empreender


Inspirados no pai, o ex-feirante Sérgio, Alexandre, Caio e Paulo montam banca de frutas exóticas e lanchonete que chega a faturar R$ 400 mil por mês


  Por Fátima Fernandes 18 de Julho de 2017 às 13:00

  | Editora do site Varejo em Dia


Todos os dias, Alexandre Flávio Gomes, 25 anos, o caçula de três irmãos, chega pontualmente às cinco horas da manhã em um dos pontos turístico e comercial mais populares de São Paulo: o Mercado Municipal de São Paulo, o Mercadão.

Toma café e já começa a preparar as pequenas torres de frutas exóticas, como pitaya, chirimoya e mangostin, que serão exibidas para os clientes a partir das 9h30.

Duas horas depois, é a vez dos irmãos Caio Rafael, 30 anos, e Paulo Cesar, 34 anos, chegarem aos boxes 5 e 7 da rua K do mercado.

Ali estão a barraca de frutas dos irmãos Gomes e a pracinha de alimentação que eles montaram para atender os clientes que gostam de sanduíches encorpados e pastel feito na hora.

Há oito anos, os irmãos Gomes já davam pistas que herdaram do pai, Sérgio Gomes, um ex-feirante e ex-dono de pizzaria, a vontade de empreender.

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Por volta das 10h30, já fica difícil falar com eles. Os três estão o tempo todo atentos à qualidade do atendimento e aos pedidos dos clientes, que não param de chegar à lanchonete e à banca.

Não há um caixa. Os funcionários que atendem a lanchonete correm de lá para cá até eles para que fechem a conta dos clientes, passem os cartões nas maquininhas, e deem o troco para quem pagou em dinheiro.

“Nós somos os caixas da banca e da lanchonete e cuidamos de tudo: compra, venda e parte financeira. Sabemos fazer de tudo, sanduíche, suco, limpar chão”, diz Alexandre.

"Você não está vendo que estou ocupado?", diz ele para uma funcionária que pede para ele fechar uma conta, enquanto dá a entrevista para o Diário do Comércio.

ALEXANDRE GOMES, O CAÇULA DOS IRMÃOS: É PRECISO SABER FAZER PARA PODER ENSINAR

Os irmãos Gomes contam com a ajuda de 12 a 15 funcionários. Quando um falta, são eles mesmos que assumem o serviço, até que seja feita a recolocação do empregado.

Na semana em que se comemora o Dia do Comerciante, Alexandre diz:  “Tem que ser assim, se não o negócio não dá certo. Você tem de saber fazer tudo no negócio para poder ensinar.”

A vida no mundo do comércio dos três irmãos começou há cerca de dez anos. Os três trabalhavam lá mesmo no Mercadão para os donos da banca Gonzalez, especializada em hortifrútis, que hoje tem outro nome - Império das Frutas – e outro dono.

Paulo Cesar foi demitiido e, para não ficar sem renda, decidiu alugar um box minúsculo, bem na entrada do portão 1 do mercado, para vender salada de frutas.

“O pessoal achava uma loucura meu irmão fazer aquilo, pois naquela rua só havia bancas de peixes e carnes, não de frutas”, conta Alexandre.

Mas o negócio deu tão certo que, menos de dois anos depois, Paulo Cesar já tinha a sua banca de frutas em um espaço maior, no meio do mercado.

AS FRUTAS VENDIDAS NA BANCA DOS IRMÃOS GOMES

Não demorou muito para que Alexandre e Caio se juntassem ao irmão. O negócio fermentou e, há três anos, os irmãos Gomes, além da barraca de frutas passaram também a operar uma lanchonete.

Uma conta rápida feita por Alexandre revela que eles gastam cerca de R$ 30 mil por mês para ocupar os espaços e pagar água, luz, dedetização. Nesse valor não estão incluídos os salários dos funcionários.

“Aqui no centro é tudo muito caro, mas nós conseguimos tocar bem o negócio porque meu pai ensinou a não esbanjar dinheiro. A gente tira o necessário, temos um fundo para emergência.”

A trinca tem uma conta só. Quando cada um precisa de dinheiro para comprar uma roupa, um tênis, conta Alexandre, avisa os outros que vai gastar.

O caçula dos Gomes diz que a banca e a lanchonete faturam cerca de R$ 400 mil por mês.

Às vezes mais, às vezes menos, e que o lucro do negócio é da ordem de R$ 15 mil, divididos entre eles, o pai, que é chapeiro, e a mãe Maria, que ajuda os filhos em tudo.

“Tem mês que a gente perde e, quando isso acontece, precisa ter uma reserva. O Mercadão é bom para vender, mas há épocas em que não se vende nada aqui, principalmente quando acabam as férias, chove, e pouco antes do mês de dezembro.”

Alexandre admite que, como acontece com todos os irmãos, há conflitos, de vez em quando, mas que tudo é resolvido na base da conversa.

“Quando a gente não se entende, tem o pai e a mãe que falam por último”, diz ele, sorrindo.

Alguns dos conflitos que já surgiram, conta ele, se referiram a casos com funcionários.

 “Um acha que determinado empregado deve ser mandado embora. Outro, não. O que a gente faz é ouvir todos os argumentos, os prós e os contras, para tomar uma decisão.”

Os problemas de família e do negócio são discutidos ali mesmo durante a corrida entre a banca e a lanchonete e o atendimento aos clientes.

 “Entendemos, depois de todos esses anos, que se a gente não se unir, a família perde o negócio.”

A família só se reúne em casa nos dias 1 e 2 de janeiro, quando o Mercadão fecha e ainda assim, diz Alexandre, só fala do negócio.

Por enquanto, eles nem pensam em dividir a conta no banco ou cada um ter a sua própria banca. “Não existe essa ambição entre nós”, diz.

Naturalmente, de acordo com Alexandre, cada um deles acabou indo para a área que tem mais afinidade. Caio, casado, cuida das finanças, juntamente com a esposa, que é formada em administração.

Paulo, que também é casado, está mais focado com a compra de mercadorias para a banca de frutas e para a lanchonete.  Alexandre cuida mais da loja e do contato com os funcionários. “Mas cada um de nós sabe fazer o trabalho dos outros dois.”

Ao falar de planos para o futuro, Alexandre confessã: “Eu gostaria de ser professor de educação física. Já falei isso em casa, mas meu pai acha que devo estudar gastronomia, pois tem mais a ver com o nosso negócio.”

Alexandre diz que, ao mesmo tempo, tem medo de arriscar, sair do negócio em que é um dos donos, e acabar não achando um emprego como professor.

“Minha mãe diz que nós temos de dar valor ao que já temos e que nós estamos na fase de trabalhar, não de viajar, nem descansar.” Por enquanto, os três concordam plenamente com a dona Maria.

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FOTOSE VÍDEO: Fátima Fernandes/ Diário do Comércio