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No extremo da metrópole, o Jardim Ângela convive com a violência


Os índices de criminalidade no bairro ainda são alarmantes, mas grandes redes, como a Caedu, começam a chegar à região. Leia a segunda reportagem da série "São Paulo em Contraste"


  Por Wladimir Miranda 08 de Janeiro de 2018 às 08:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O Jardim Ângela, distrito da Zona Sul paulistana, é sinônimo de violência. O bairro foi considerado pela ONU em 1996 o mais perigoso do mundo. De lá para cá, algumas ações dos órgãos públicos conseguiram melhorar um pouco o cenário. Ruas foram pavimentadas, passou a fazer parte da Subprefeitura de M’Boi Mirim. Essas iniciativas contribuíram para reduzir um pouco o índice de criminalidade na região.

Ali vivem 317 mil paulistanos e cerca de cem mil domicílios. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, até julho passado foram registrados 17 homicídios e 11 tentativas de homicídios na região. É uma taxa bem acima da média da cidade. No mesmo período, 30 estupros e 1,4 mil roubos foram registrados pelas autoridades policiais.

A população ainda tem de conviver com outras mazelas, tais como ocupações irregulares, tráfico de drogas e o crime organizado. Outro dado triste são as mortes de jovens em abordagens policiais. Seus moradores ainda sofrem com a falta de saneamento básico.

A energia elétrica também é um problema. Como a fiação elétrica não é subterrânea -  o que acontece também em outras regiões da cidade -, postes se incendeiam, para desespero da vizinhança. O Hospital Municipal do M’Boi Mirim, o único do bairro, não dá conta das necessidades, o que faz com que o atendimento médico seja precário.

A demora para marcar consultas é enorme. E coloca vidas em risco.

A principal via da região é a Estrada do M’Boi Mirim, que dá acesso ao município de Itapecerica da Serra. É estreita e não comporta o fluxo de carros, ônibus e motos. A chegada de uma estação de metrô ao Jardim Ângela é um sonho, muito distante de ser concretizado. Tudo isso transforma a vida dos habitantes num suplício diário.

O Jardim Ângela é perfeito antípoda do Jardim Paulista, tema da primeira reportagem de nossa série São Paulo em contraste [clique aqui para ler]. "Trata-se de um bairro dormitório, o que implica enorme custo de deslocamento para seus habitantes", afirma Tadeu Masano, da consultoria Geografia de Mercado que, a pedido do Diário do Comércio, reuniu indicadores comparativos das duas regiões.

Em oposição ao Jardim Paulista, repleto de grifes, fast food, mais de uma centena de bancos e grandes redes varejistas, no Jardim Ângela operam apenas três agências bancárias, lojas da Casas Bahia e da Pernambucanas. São, no total, 1,4 mil estabelecimentos, entre serviços e pequeno comércio. "O emprego é escasso", observa Masano.

Em meio a tantas dificuldades, o bairro consegue ter um comércio local, que se esforça para atender as necessidades de seus habitantes. A maioria das lojas fica entre os números quatro mil e seis mil da Estrada do M’Boi Mirim. É o centro comercial do bairro.

Como a via é estreita, carros, ônibus e pessoas formam um cenário caótico. Nas calçadas, esburacadas, pedestres e camelôs dividem o espaço, nem sempre de forma pacífica. E é no meio desta confusão toda que, segundo relatos de comerciantes e moradores, ocorrem assaltos.

Bolsas e celulares são levados em muitos casos à luz do dia.

O grande movimento comercial do bairro se resume à Estrada do M’boi Mirim. As ruas paralelas e transversais só servem de apoio à artéria principal. Nelas, só existem pequenos bares e salões de barbeiros.

Os pontos fortes do centro comercial são as lojas de roupas e sapatos masculinos e femininos, de materiais de construção, casas lotéricas, floriculturas, padarias e açougues.

 

 A Rede Caedu, com 49 unidades na Grande São Paulo e interior, chegou ao bairro há cinco anos.No ramo de moda feminina e masculina, oferece produtos com preços que variam de R$ 11,99 a R$ 89,99.

Jéssica Vidica, gerente da loja, conhece muito bem a fama de bairro violento do Jardim Ângela. E admite que a rede vai precisar de tempo para conseguir uma boa clientela.

“Pelo que converso com os clientes e funcionários, a violência já foi maior aqui. Mas ainda ouço pessoas reclamando de que foram assaltadas. É comum a cliente entrar na loja e falar que precisa de uma nova bolsa, pois a que tinha foi levada por ladrões nas proximidades da loja”, disse ela.

Raquel de Almeida, 34 anos, é gerente da Glamour, Acessórios Femininos, Utilidades e Bijuterias.

Na Glamour, o cliente encontra produtos com preços que variam de R$ 1,00 até R$ 20,00. A loja tem duas funcionárias. Raquel não precisa pensar muito para relatar casos de assaltos na loja.

“Estou aqui há quatro anos. Neste período, a loja já foi assaltada algumas vezes. Tenho muito medo de trabalhar aqui. Mas não tenho outra opção”, afirma ela, que em um dos assaltos do qual foi vítima teve um revólver apontado para o peito.

Perto da Glamour, há uma Base da Polícia Militar. Mas a presença dos policiais não amedronta os assaltantes. Raquel conta: “Dia destes, a loja foi assaltada. Os assaltantes chegam de motos, levam o que querem. Eles sabem que quando os policiais forem avisados, já estarão longe”, diz Raquel.

Willian Vitorino é dono da WR Utilidades. Ele mesmo identifica sua loja como especialista em “bugigangas e miudezas”.

Nas vésperas do Natal, a loja exibia decoração temática. Quem entra no estabelecimento do Willian, costuma gastar de R$ 2,99 a R$ 150,00, que é o preço das piscinas para crianças.

A entrada da loja do Willian chama a atenção. Tem um declive forte, como se fosse entrada de garagem. Lá embaixo, o cliente vira à esquerda e dá de cara com mais artigos, como acessórios para celulares, pendurados na parede. Por ali, não existe saída. A única maneira de alcançar a rua é pela rampa.

Pergunto se os clientes não reclamam de subir a rampa. “Não reclamam. Os preços baixos compensam o esforço”, afirma Willian.

Daniela Silva é a garota simpática e falante que aparece no vídeo que compõe esta reportagem. Ela é gerente da Floricultura Gestos de Carinhos. “É a loja do amor”, diz ela, sempre sorridente. Ela trabalha na Gestos e Carinhos há onze anos. Diante da pergunta se acha o Jardim Ângela violento, diz que sim.

“Já fui assaltada várias vezes”, conta.

No Mapa da Desigualdade, feito pela Rede Nossa São Paulo e divulgado em outubro passado, foi constatado que os habitantes do bairro vivem 23,7 anos menos do que quem mora, por exemplo, no Jardim Paulista, área nobre dos Jardins.

Diego Rodrigues dos Santos é o dono da loja de artigos infantis e femininos e sex shop Menininha Fashion Baby. O estabelecimento está no local há dez anos. Lingeries e roupas de bebê são os produtos que mais vendem.

Mulheres e casais são os maiores clientes da casa. O movimento aumenta nos finais de semana.

“Damos desconto de 10% para quem paga à vista”, diz Diego. Mas a loja também parcela em três vezes no cartão de crédito. O espaço físico é alugado, mas Diego não quis dizer quanto paga de aluguel. Alegou que tem um acordo com o proprietário do imóvel para não revelar quando paga por mês. O gasto médio na loja é de R$ 80,00.

A média de idade dos moradores do Jardim Paulista é de 79,4 anos. Dos habitantes do Jardim Ângela, de 55,7 anos. Os dois bairros ficam na Zona Sul de São Paulo. Apenas 19 quilômetros separam os dois extremos. A ONG Rede Nossa São Paulo levou em consideração informações econômicas e sociais fornecidas pela Prefeitura de São Paulo e demais órgãos oficiais, como o IBGE.

“O objetivo do estudo é estimular, pressionar o governo a formular políticas públicas. Os números da pesquisa mostram que há uma estagnação da desigualdade. É uma desigualdade estrutural. Há uma distância entre o centro e a periferia que não muda. Trocam-se governos e tudo continua do mesmo jeito”, afirma Américo Sampaio, sociólogo coordenador do estudo.

Em 2016, a pesquisa revelou que o distrito de Alto de Pinheiros, tinha um tempo médio de vida de 80 anos. E Cidade Tiradentes, na Zona Leste da cidade, um tempo médio de vida de 54 anos.

Mudou o ano e agora não é mais o Alto de Pinheiros e sim o Jardim Paulista, que tem uma longevidade maior, com quase 80 anos. Do outro lado, não é mais a Cidade Tiradentes e sim o Jardim Ângela. A distância de 25 anos do tempo médio de vida da população entre centro e periferia é igual.

Só muda o distrito.

“A desigualdade é estrutural. O ideal seria a gente ver que teve uma diminuição. Sair de 25 anos de diferença e passar para 20. Aí, ano que vem passa para 15. Mas a gente vê que a distância continua igual. O que nos leva a crer que tem uma desigualdade congelada”, afirma Américo.

VÍDEO: William Chaussê/Diário do Comércio