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'Nessa crise, efeito batom da economia não apareceu'


Para Artur Grynbaum, presidente do Grupo Boticário, setor de cosméticos, privilegiado em cenários de retração pelo custo baixo dos produtos, agora foi prejudicado pelas restrições de convívio social


  Por Estadão Conteúdo 27 de Maio de 2020 às 10:01

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O setor de cosméticos, em tempos de crise, é visto como um privilegiado porque é beneficiado pelo que os economistas chamam de "efeito batom". Como o custo dos produtos é baixo, mesmo em cenários de retração, os cosméticos costumam ter bom desempenho.

Mas não é o que tem ocorrido durante a pandemia de covid-19, afirmou o presidente do Grupo Boticário, Artur Grynbaum. "O efeito batom não apareceu pois o convívio social ficou prejudicado", disse o executivo, que participou na terça-feira (26/5), da série de entrevistas ao vivo Economia na Quarentena, do jornal O Estado de S. Paulo.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como será a retomada das lojas O Boticário?

O plano já está em marcha. Hoje, temos 4 mil lojas, sendo que cerca de 2,5 mil já abertas em diversas regiões. Obviamente, são cidades menores. Estamos orquestrando com nossos franqueados e distribuidores para retomarmos de maneira segura. Para isso, temos de ter as nossas fábricas em funcionamento e nossa distribuição. Os nossos escritórios estão em home office.

O setor de cosméticos é de experimentação. Vocês estão revendo alguns desses processos?

Estamos revisitando tudo. É muito importante a segurança dos consumidores que iremos voltar a receber. Teremos padrões de distanciamento dentro e fora das lojas. Retiramos todos os testes, que foram colocados todos atrás do caixa. A consultora pegará uma fita ou um produto de forma altamente higienizada. Na maquiagem, estamos colocando instrumentos digitais no ponto de venda para que se possa fazer maquiagem virtual.

O grupo tem a maior rede de franqueados do País. Eles estão recebendo auxílio?

Num primeiro momento, tratamos da questão financeira. Fizemos prorrogações dos títulos de março e abril para que eles tivessem mais tempo para olhar operações e times, além de contratos de locação. Fizemos um longo parcelamento de produtos.

Os setores vão se recuperar de forma desigual. Como o setor de cosméticos deve se comportar?

Num primeiro momento da pandemia, as pessoas se voltaram para as necessidades essenciais. A busca foi para álcool em gel, sabonetes. Na sequência, itens de uso rotineiro, como xampus, desodorantes - coisas que as pessoas continuaram a consumir. Nesse período, surgiu a figura do faça você mesmo. Então, as pessoas estão buscando produtos para aplicar em casa.

Como está o movimento das lojas?

A volta é bastante lenta. Nos primeiros dias, tem um certo consumo represado. Fora isso, o movimento é lento. As lojas de shoppings ainda estão com movimento bastante baixo, assim como as das regiões centrais da cidade. Nas lojas de bairro e de hipermercados, o movimento está melhor. As pessoas associam a questão os cosméticos como um setor resiliente à crise. As pessoas associam ao 'feito batom' Só que, nesta crise, o efeito batom não apareceu porque o convívio social está prejudicado. Esperamos que retorne na sequência.

O cenário econômico está muito difícil de prever?

Está bastante turvo o cenário, está difícil entender a dimensão da crise. A crise não é só de saúde, é econômica e aqui no Brasil ainda tem o componente político. Isso dificulta números mais assertivos de retomada. A gente entende que não vai ser uma questão de três ou quatro meses. Vai demorar para voltar ao ponto em que estávamos em março de 2020. É um ledo engano pensar que vai ser rápido. Quanto mais volatilidade, mais fica difícil de prever. Temos nossas curvas de demanda, e temos de estar preparados para acelerações ou recuos. Mas está turvo, porque hoje estamos dependendo de humores. E precisamos olhar para fundamentos para tomar melhores decisões.

A empresa lançou mão de medidas do governo de suspensão de contratos ou corte de salários por causa da pandemia?

Estamos tentando preservar o máximo possível de empregos. Lançamos mão da MP 936 e colocamos contratos em suspensão. Depois disso, a gente espera ter uma visão melhor e mais condições de tomar decisões lá na frente.

Como o Grupo Boticário decide a reabertura de lojas? Há um acompanhamento próprio da situação em diferentes regiões?

Fazemos um acompanhamento próprio, com cuidado na reabertura das lojas. O pilar essencial é a segurança das pessoas. Temos acompanhando decretos municipais e estaduais, mas fazemos acompanhamento separado de número de casos, mortes e leitos disponíveis. Em posse disso, conversamos com os franqueados de cada região. Em Belém, fechamos as lojas em 22 de março. A autoridade pública só determinou o fechamento em 25 de abril, mais de um mês depois. 

FOTO: Felipe Rau/Estadão Conteúdo