Negócios

“Não temos cultura exportadora”


A afirmação é de Rita Campagnoli, presidente do Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (CECIEx). Aqui, ela enumera caminhos para ajudar as empresas brasileiras a operar no comércio exterior


  Por Wladimir Miranda 23 de Agosto de 2018 às 19:02

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Estudo realizado pela Rede de Centros Internacionais de Negócios (Rede CIN) mostra que, nos últimos 20 anos, o número de empresas brasileiras que fazem negócios com o mercado internacional passou de 15.807, em 1998, para 25,4 mil em 2017, um crescimento de 60%.

É entre as empresas que venderam entre US$ 10 milhões e US$ 50 milhões que foi observado o maior avanço. Em 1998, eram 611 empresas. No ano passado, chegaram a 1.373, um aumento de 124%.

Trata-se de uma evolução importante, mas o país precisa evoluir muito mais nos quesitos exportação e importação. A avaliação é de Rita Campagnoli, presidente do Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais, Importadoras e exportadoras (CECIEx).

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O CECIEx aproxima quem compra de quem vende, quem exporta de quem importa. Tem como objetivos primordiais reunir e representar as empresas comerciais importadoras e exportadoras em suas demandas e necessidades e ampliar e disseminar a cultura exportadora junto às pequenas e médias companhias, promovendo, por intermédio das empresas comerciais importadoras e exportadoras, a inserção contínua de produtos e serviços no mercado internacional.

“A experiência adquirida no CECIEx mostra que precisamos disseminar cada vez mais a cultura exportadora em nossas empresas. O Brasil ainda está muito mal colocado no ranking mundial de exportação. De 100% do que é exportado no mundo, o Brasil participa com apenas 1,2%. Para o potencial que temos aqui isso é nada. É ínfimo", afirma Rita, que ressalta o trabalho de fomento realizado pelo órgão no comércio exterior.

"Na verdade, o CECIEx é um colaborador interessado na melhoria do ambiente de negócios internacionais para as empresas brasileiras”, afirma ela.

O fato de manter, desde 2008, um convênio com a Apex Brasil – Agência Brasileira de promoção de Exportações e Investimentos -, com os programas Brasil Trade e Brazilian Suppliers, facilita a promoção dos produtos e marcas brasileiras em feiras internacionais, rodadas de negócios e missões comerciais.

Ela diz que falta no país políticas públicas que estimulem o empresário a operar no mercado externo.

"Não temos cultura exportadora. É o medo, o desconhecido que nos paralisa. Necessitamos urgentemente de políticas públicas para a exportação e importação. O governo não incentiva. É um problema antigo, secular”, diz ela.

As comerciais exportadoras e importadoras podem ser vistas como um meio para que outras empresas entrem no comércio internacional. O problema é que essas comerciais também enfrentam uma série de entraves, muitos deles ligados à burocracia.

Rita Compagnoli aponta dificuldades enfrentadas pelas empresas comerciais importadoras e exportadoras. Elas não têm, por exemplo, Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) e legislação própria.

“Por isso, a categoria precisa usar o CNAE de atacadista. Assim, não é possível medir o desempenho das empresas comerciais”, lembra ela.

A questão é que as trading companies são similares às comerciais, ou seja, fazem o mesmo trabalho, mas têm legislação própria e trabalham com grandes volumes de mercadorias.

“É urgente facilitar a introdução das pequenas empresas no mercado externo, por meio da exportação indireta, pela comercial exportadora. E a comercial não só leva o produto, mas também tem o olhar da inovação, trazendo atualidade e tendências para as pequenas indústrias brasileiras. Ela tem de ser reconhecida e valorizada, pois tem potencial enorme de incrementar a exportação brasileira”, afirma Rita.

Mesmo assim, com tantas dificuldades, o Brasil exporta mais do que importa. O problema é que exporta produtos primários, como soja, minério, matéria prima. Exportamos produtos de baixo valor agregado, quando deveríamos exportar produtos industrializados. Mandamos para o exterior o produto in natura, depois compramos o produto pronto.

O trabalho do CECIEx inclui a participação em feiras no exterior. Em uma delas, na Alemanha, Rita percebeu que um concorrente de uma empresa brasileira que ela representava tinha um diferencial interessante. “Fotografei o produto e mostrei para o fabricante brasileiro. A adaptação foi feita e a nova tecnologia foi acoplada ao nosso equipamento”, conta.

A ideia de criar o CECIEx foi de Alfredo Cotait Neto, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

“O CECIEx nasceu na ACSP, há 15 anos. Não havia, na época, nenhuma outra entidade com este perfil. Era uma espécie de comitê, com o objetivo de congregar as pequenas e médias empresas. Estamos conseguindo”, lembra Rita.

PARCERIA

O CECIEx fechou parceria com a SP Negócios, órgão da Prefeitura de São Paulo que, por intermédio do programa São Paulo Exporta, “contempla a capacitação das empresas para a exportação”, afirma Silvana Gomes, gerente executiva da SP Negócios.

Com um núcleo de atendimento, que inclui a ida de técnicos às empresas para capacitá-las para a exportação, a SP Negócios, com base em estudos realizados no mercado externo, orienta os fabricantes brasileiros sobre preços, embalagens, enfim, dá as informações necessárias para que o produto nacional consiga disputar em boas condições o mercado internacional.

“Começamos a operar em 2017. Até 2020, queremos atender e capacitar mais de 200 empresas”, diz Silvana Gomes.

ENCONTRO

Nos dias 28, 29 e 30 de agosto acontecerá o 10º Encontro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras, com a realização de palestras, a presença de autoridades governamentais, rodadas de negócios nacionais e internacionais com compradores da América Latina, Europa, África e do Oriente Médio.

O evento é uma realização do CECIEx, em conjunto com a Apex-Brasil; a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit); Associação Brasileira de Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (Abba); Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (Ibrac); Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac); Sindicato das Indústrias do Setor Mobiliário Indústrias (Sindmóveis); Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças); Agência de Promoção de Investimentos e Exportações do Município de São Paulo (SP Negócios); e Prefeitura do Município de São Paulo.

O encontro, com inscrições já encerradas, será realizado no Hotel Intercontinental, localizado na Alameda Santos, 1123 – Jardim Paulista, São Paulo.

 

FOTO: Thinkstock