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“Não me importo que copiem o Eataly. Também copio o tempo todo”


Como Oscar Farinetti (na foto), fundador da rede italiana, transformou uma ideia simples em um fenômeno internacional, com 32 lojas em cinco países


  Por Mariana Missiaggia 24 de Agosto de 2016 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Quem vê o bom humor com que o italiano Oscar Farinetti, 60 anos, fala sobre a rede Eataly, que fundou há 12 anos, percebe imediatamente, que as coisas vão bem para o negócio. 

Com 32 lojas em cinco países, Farinetti é um poço de inspiração para quem se sente ameaçado pela crise. 

Nessa terça-feira (23/08), Farinetti abriu a Latam Retail Show 2016, em São Paulo, e contou como chegou a fórmula final do complexo gastronômico, que chegou ao Itaim Bibi, em São Paulo, no ano passado. 

Assim como todas as outras unidades do mundo, a loja de São Paulo reúne sete mil produtos divididos em 22 departamentos, em três andares. Ali, produtos artesanais italianos, como massas e molhos, são vendidos juntamente com itens de pequenos produtores brasileiros.   

Além de restaurantes e sorveteria, o complexo conta com padaria, rotisseria, uma fábrica de muçarela, hortifruti, açougue, peixaria, carnes curadas, laticínios e todas as categorias essenciais de uma mercearia, como doces, geleias, conservas, azeites, molhos, temperos, condimentos, massas frescas, arroz, e bebidas. 

PRIMEIRA LOJA EATALY EM SÃO PAULO

Antes de estar a frente da Eataly, Farinetti administrava uma pequena loja de eletrônicos, que fundou em 1978, a UniEuro. Em 26 anos, ele a transformou em uma das maiores varejistas especializadas da Itália com 150 lojas. 

Com um império construído, Farinelli decidiu que era hora de investir em seu maior sonho: garantir que os pequenos produtores da Itália tivessem uma maneira de fazer com que seus produtos chegassem ao consumidor, além de conquistar o merecido reconhecimento.

Na primeira oportunidade, vendeu sua cadeia de lojas de eletroeletrônicos para um grupo inglês por 400 milhões de euros.

Em seguida, passou três anos estudando e pesquisando sobre como funcionam as grandes redes de supermercados, além de viajar para conhecer o Grand Bazar, em Istambul – considerado o maior e mais antigo mercado do mundo. “Reuni todas essas experiências e lancei o Eataly”.

O local escolhido foi uma antiga indústria abandonada, no centro de Turim, na Itália. Apaixonado por tudo o que era produzido nas pequenas plantações e fábricas familiares de massa de sua região, a ideia do italiano era montar uma espécie de supermercado, com barracas, onde os clientes comprariam direto das mãos de quem produzia.

O espaço era enorme: 11 mil metros quadrados que permitiram ao empresário sonhar alto. Do encontro entre fornecedores e compradores, ele acreditava que poderiam sair experiências ainda mais enriquecedores.

Desenvolveu então, outra zona onde instalou restaurantes tematizados. Carnes, peixes, legumes, pizzas, massas, queijos e sorvetes preparados na frente do cliente, segundo as melhores técnicas culinárias locais.

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Ainda não satisfeito, Farinetti ambicionava que, ao comprar produtos tão diferenciados, seu público soubesse como prepará-los. Instalou também um centro de treinamento com uma cozinha experimental com uma grade permanente de cursos.

Assim, a fábrica, que era enorme, ficou pequena para tantas ideias. Até o subsolo foi utilizado para a construção de uma superadega. 

Um ano após a abertura da primeira unidade, choveram pedidos de diferentes partes do mundo interessados em replicar o modelo. Em pouco tempo, o Eataly chegava a países, como Japão e Estados Unidos. 

CONCEITO PÊSSEGO 

ILUSTRAÇÃO DO CONCEITO PÊSSEGO APRESENTADO POR FARINETTI

Farinetti conta que começou o Eataly com base no conceito de um pêssego. “O caroço representa o coração, onde estão seus sonhos e objetivos”, diz.

A polpa são as experiências que o seu negócio gera nas pessoas (clientes, funcionários e fornecedores) e a casca são as ações de marketing que atraem quem irá fazer parte do seu negócio.

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As metas de Farinetti estavam baseadas no que chama de bem-estar da sociedade. Seu propósito era gerar emprego, difundir a biodiversidade da Itália e oferecer comida de qualidade.

 Para Farinetti, o sucesso empresarial deve colocar em primeiro lugar as pessoas, e só depois os projetos, produtos, e lucro.

Considerado dono de uma ideia muito original, ele discorda. "Não há nada de inédito, é apenas a coletânea de modelos que funcionam", diz. “Não me importo que copiem o Eataly, porque eu também copio o tempo todo”.

O sucesso do Eataly, de acordo com o empresário, se deve, principalmente, ao fato de a rede não ser uma cadeia, e sim uma empresa que se considera "uma família".

“Respeito nomes como McDonald’s ou Starbucks, mas não gosto da ideia de ter os mesmos preços e mesmo padrão de loja. Cada loja é uma família com personalidades diferentes”, diz.

FOTO: Divulgação