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Mudança de clima e Dia das Mães salvam o varejo em maio


As vendas subiram 32,9% na comparação com abril. Mas no confronto com igual mês de 2015, o movimento do comércio paulistano acumulou queda de 13,9%, segundo o Balanço de Vendas da ACSP


  Por Karina Lignelli 01 de Junho de 2016 às 17:03

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Se não fosse o Dia das Mães e, finalmente, a chegada do frio, o mês de maio teria sido perdido. Esses foram os dois fatores que mais influenciaram o movimento de vendas à vista do comércio paulistano, que cresceu 32,9% na comparação com abril, segundo dados do Balanço de Vendas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

Embora o volume tenha ficado abaixo da média sazonal dos anos anteriores (de alta de 35%), a mudança na temperatura estimulou as vendas de roupas e calçados da coleção Outono-Inverno, assim como de cobertores e edredons, de acordo com Emílio Alfieri, economista da ACSP. 

Por outro lado, as vendas a prazo praticamente não cresceram, registrando ligeira alta de 0,8% ante abril. Também abaixo da média sazonal, de 7%, as vendas de eletroeletrônicos e itens de maior valor se mantiveram estáveis e ainda influenciadas pela falta de confiança do consumidor, que, com a renda reduzida, ainda está inseguro em relação ao emprego. 

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Na comparação anual, porém, o resultado confirmou a continuidade da trajetória de queda nas vendas do varejo. Assim, sobre maio de 2015 o recuo médio foi de 13,9% nas vendas a prazo e à vista.    

“A forte queda decorre principalmente de quatro fatores: a piora dos elementos macroeconômicos, a alta do dólar, o fato de o auge da incerteza político-institucional ter ocorrido em maio e, por fim, o feriado de Corpus Christi”, afirma Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp). 

Neste ano, o feriado ocorreu em maio, que teve menor quantidade de dias úteis, provocando o efeito-calendário negativo, diz o economista Alfieri. 

Os resultados também reforçam a piora da queda nas vendas de um ano para outro, influenciada em maio pela incerteza política, afirma Burti.

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“Esperamos que a mudança de governo melhore a confiança do consumidor e do empresariado, criando um ponto de partida para a retomada gradual da atividade econômica”, completa.  

E JUNHO?  

Com o pré-balanço do semestre registrando quedas de 8,6% nas vendas a prazo e 17,3% nas vendas à vista, a perspectiva do comércio paulistano para o Dia dos Namorados deve se apresentar menos negativa em função do efeito-calendário, segundo o economista Emílio Alfieri. 

A ausência do feriado (de Corpus Christi) fará o mês fechar com um dia útil a mais. E por ser uma data de presentes de menor valor, não deve sofrer com os impactos da restrição do crédito, afirma. 

Uma pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio) divulgada nesta quarta-feira (01/06), confirma: o gasto médio do consumidor com a data será 16,84% menor em relação a 2015. 

“Mesmo com o varejo mantendo a tendência de continuidade de queda nas vendas, o recuo deve ser menor este mês”, acredita Alfieri.  

MELHORA NA CONFIANÇA

Apesar do clima tenso, as esperanças do consumidor brasileiro em  relação à situação financeira futura apresentaram leves melhoras em maio. É o que indica pesquisa do Instituto Ipsos, realizada a pedido da ACSP em todo país.

Pelo levantamento, o percentual de brasileiros que acredita na piora de sua situação econômica nos próximos seis meses caiu de 37% em abril, para 33% em maio. 

Outro dado positivo é que os que creem que sua situação melhorará subiu de 27% para 29%. A pesquisa, que foi feita entre 29 de abril e 14 de maio e entrevistou 1,2 mil pessoas em 72 municípios, foi realizada durante os desdobramentos políticos que levaram ao afastamento da presidente Dilma Rousseff.

A percepção quanto à perda de emprego também mudou. Em abril, 62% dos entrevistados estavam inseguros no trabalho. Em maio, esse número caiu para 59%. 

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O dado positivo não deve, porém, se converter em aumento do consumo de produtos mais dependentes de crédito. 

A intenção de compra de eletrodomésticos, por exemplo, se manteve estável. Em maio, apenas 12% dos entrevistados disseram se sentir à vontade para comprá-los (13% em abril).

Já em relação aos bens de maior valor, como imóveis e automóveis, 9% dos entrevistados mostraram disposição para esse tipo de compra nos dois meses.

Quando o assunto é a situação financeira atual, não houve variação nas respostas dos entrevistados de um mês para outro. 

“Apesar da melhora, o momento é delicado. Aos poucos vamos restaurar a confiança. O governo precisa ter cautela, disposição e seriedade na busca pelas melhores soluções econômicas e sociais, e os partidos têm de pensar no país, e não apenas neles mesmos”, afirma Alencar Burti, da ACSP/Facesp.  

Foto: Fátima Fernandes