Negócios

Mercedes-Benz deixa de fabricar carros no Brasil


A pandemia e a lenta recuperação da economia brasileira pesaram na decisão da montadora, que tinham fábrica em Iracemápolis, no interior de São Paulo, desde 2016


  Por Estadão Conteúdo 18 de Dezembro de 2020 às 12:00

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Durou menos de cinco anos a história da fábrica de automóveis da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior de São Paulo. A empresa anunciou na quinta, 17/12, que a unidade, inaugurada em março de 2016, encerrará a produção.

Segundo a Mercedes, ainda está sendo estudada a melhor solução para o destino da unidade e seus 370 funcionários, que não serão demitidos imediatamente. Uma das possibilidades é a abertura de um programa de demissões voluntárias.

Segundo a Mercedes-Benz, a decisão de parar a produção em Iracemápolis veio de uma soma de fatores. Mas o principal deles, claro, foi o econômico. A crise pela qual o Brasil passou nos últimos anos se agravou com a pandemia. "Isso causou uma queda significativa nas vendas de automóveis premium", disse, em comunicado, Jörg Burzer, membro do conselho de administração da Mercedes-Benz AG.

A fábrica, que recebeu mais de R$ 600 milhões em investimentos, era responsável por produzir o utilitário esportivo (SUV) compacto GLA - cuja fabricação já havia sido paralisada em setembro - e o sedã médio Classe C, que teve a produção encerrada na quarta-feira, 16.

A meta inicial era fabricar até 20 mil carros por ano. Atualmente, porém, estava longe desse objetivo: de acordo com dados da Fenabrave, federação que reúne as concessionárias, entre janeiro e novembro foram emplacadas 1.206 unidades do GLA e 1.785 do Classe C no País.

SINAL AMARELO

Essa não será a primeira experiência frustrada de uma fábrica da Mercedes no Brasil. No fim da década de 1990, foi inaugurada a unidade de Juiz de Fora (MG), voltada para a produção do compacto Classe A. Mas o carro nunca teve o desempenho de vendas no Brasil que dele se esperava - até porque a desvalorização cambial que o País atravessou naquele período acabou tornando o veículo caro demais para os padrões nacionais.

Com o fim da produção do Classe A, a unidade passou a fabricar o sedã médio Classe C, voltado para o mercado externo, que durou até 2010. Depois, com algumas adaptações, produziu caminhões até o ano passado. Atualmente, fabrica cabines para a linha de caminhões pesados de São Bernardo do Campo (SP).

EMPREGADOS

O fechamento da fábrica da Mercedes-Benz do Brasil pegou de surpresa autoridades e moradores da pequena Iracemápolis, no interior de São Paulo. A indústria é a segunda maior empregadora da cidade de 24.235 habitantes, na região de Piracicaba.

O presidente da Câmara, William Ricardo Mantz (Podemos), disse que os vereadores vão discutir a saída da empresa. "Ninguém esperava isso, porque foi uma luta muito grande para a Mercedes vir para cá. Iracemápolis tomou a frente até do governo do Estado em algumas situações."

Segundo ele, houve uma grande mobilização na cidade para conseguir a fábrica. Conforme o parlamentar, neste ano, apesar da pandemia, a contribuição da empresa para a arrecadação do município foi de mais de R$ 12 milhões. Em outros anos, chegou a R$ 19 milhões, em um orçamento que, no próximo ano, será de R$ 91 milhões.

A prefeitura informou, em nota, que o principal impacto para o exercício de 2021 será uma redução de 5% na arrecadação do Imposto Sobre Serviços. Em 2020, mesmo com a pandemia de covid-19, a arrecadação de ISS foi de R$ 6,2 milhões e a Mercedes respondeu por 8,4%.

Já no repasse de ICMS, imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, os efeitos serão sentidos a partir de 2022. Em 2019, a Mercedes representou 11% de toda a movimentação de ICMS do município. De acordo com a Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Iracemápolis (Aciai), a Mercedes só perde em número de funcionários para a Usina Iracema, do grupo São Martinho, que emprega cerca de 2 mil pessoas.

"Entre empregos diretos e terceirizados, a Mercedes ocupava de 500 a 600 trabalhadores", disse o gerente administrativo Luiz Marrafon. Segundo ele, a montadora era também um foco de atração de negócios para a cidade. "Outras empresas de fora que tinham negócios com eles, e mesmo as pessoas que vinham apenas visitar a fábrica, acabavam fazendo alguma coisa na cidade, no mínimo movimentavam o setor hoteleiro e gastronômico. É claro que encerrar tudo isso impacta bastante."

O setor comercial reagiu com desalento à notícia. "Deixou todo mundo em choque. Hoje mesmo os funcionários vieram almoçar aqui e não escondiam a tristeza. Muita gente vai ficar desempregada", disse a operadora de caixa Talita Neves Lopes, do Secret Garden, principal bistrô da cidade. Ela conta que o bistrô se instalou logo após a chegada da Mercedes, em 2016.

O Sindicato dos Metalúrgicos da Região, com sede em Limeira, convocou uma reunião com os trabalhadores da Mercedes para a próxima terça-feira, dia 22. "Vamos pedir uma satisfação sobre a situação dos trabalhadores dispensados e sobre o que será feito para minimizar as perdas deles com essa decisão", disse o diretor José Carlos Fagundes. Ele também vai questionar a prefeitura sobre os benefícios dados à montadora. 

 

IMAGEM: Divulgação





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