Negócios

Mais três meses perdidos no varejo


Queda nas vendas entre janeiro e março foi de 9,3%, segundo Boletim AC Varejo, da ACSP. Nem setores que resistiam à crise, como farmácias e perfumarias, ficaram imunes ao resultado


  Por Karina Lignelli 25 de Maio de 2016 às 09:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A trajetória de queda continua. Em março, o varejo ampliado paulista – que inclui móveis e materiais de construção – caiu 13,5% em volume de vendas, de acordo com o Boletim AC Varejo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

O resultado foi menor do que o recuo de 8,1% registrado em fevereiro. Com isso, as vendas do trimestre fecharam em queda de 9,3% ante igual período de 2015, com ligeira alta do faturamento em 0,6%.

As incertezas em relação à crise política, ao impeachment e aos rumos da economia provavelmente “contaminaram” o desempenho do varejo em março, afirma Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP.

“Também poderia ser um problema de base fraca de comparação, mas a verdade é que não houve mudança”, diz.

“O varejo continua mantendo a tendência de queda porque aqueles fatores (renda, crédito, emprego) continuam operando nessa direção.”

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No varejo restrito (que não inclui automóveis e material de construção), as vendas caíram 9,1% nos três primeiros meses do ano. Já o faturamento aumentou 1,8%.
 
Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), reforça que a crise do varejo se estende pelo País e decorre da diminuição da renda, do avanço do desemprego e da contração do crédito, deixando o consumidor mais inseguro e pessimista, sem disposição para comprar. 

“E o Estado de São Paulo sente mais porque é afetado pelas reduções da atividade econômica e do emprego advindas do setor industrial”, afirma.
 
A ligeira melhora na confiança em abril sinaliza que o foco é recuperá-la de qualquer maneira, segundo Burti. 

“Há uma perspectiva positiva em relação à nova equipe econômica. Acreditamos que, até o final do ano, de forma gradual, o comércio pare de cair e comece a sinalizar uma recuperação, que só deverá vir, de fato, no ano que vem”. 

Gamboa afirma que, apesar de até o fim do ano a tendência ser de melhora, 2016 talvez seja mais um ano perdido, como foi 2015.  

Mesmo que o novo governo e as medidas anunciadas deem uma guinada positiva na confiança, também não significa que os consumidores vão “sair correndo para gastar no shopping”, ou que os empresários “construirão um hotel amanhã”, diz o economista.

“Ainda que haja recuperação, a insegurança no emprego, entre outros fatores, manterá a confiança no campo pessimista. Será difícil esperar crescimento este ano”, completa. 

REGIÕES E SETORES

Todas as regiões do Estado apresentaram resultados negativos nas vendas no primeiro trimestre ante igual período de 2015. 

As quedas mais acentuadas ocorreram nas regiões Metropolitana Oeste (-15,5%), Campinas (-10,5%) e Litoral (-10%). Já os menores recuos foram registrados no Vale do Paraíba (-3,3%) e região de Araçatuba (-3,7%).  
 
Todos os setores do varejo paulista também ficaram no vermelho no primeiro trimestre, com destaques para as concessionárias de veículos (-19,7%) e lojas de departamento, eletrodomésticos e eletroeletrônicos (-19,4%). 

Até segmentos que demoraram para sentir os efeitos da crise, como o de farmácias e perfumarias e o de supermercados, registraram quedas. Em farmácias, o recuo foi de 2,3% e em supermercados, a redução nas vendas foi de 2,8%. 

O Boletim AC Varejo é um levantamento elaborado mensalmente pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal da ACSP, a partir de informações fornecidas pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).

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