Negócios

Lucro de supermercados paulistas cai 30% neste ano


A confiança dos empresários do setor atingiu recorde de pessimismo em setembro, de acordo com pesquisa da Apas. De cada 100 empresários, somente 30 se dizem otimistas com as perspectivas, até de longo prazo


  Por Fátima Fernandes 16 de Outubro de 2015 às 15:50

  | Editora do site Varejo em Dia


Os supermercadistas paulistas não vão ter saudades de 2015. 

A confiança no setor de varejo de supermercados atingiu recorde de pessimismo em setembro segundo os dados da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

De acordo com o levantamento, 70% dos empresários paulistas se dizem pessimistas em relação ao ambiente econômico atual e futuro, o pior nível para um mês desde o início da série histórica em junho de 2011.

O indicador de confiança é considerado uma forma de medir o apetite do setor para investir, por exemplo, em abertura de novas lojas. Os dados são coletados junto a empresários de companhias que representam 85% do faturamento do setor supermercadista do Estado de São Paulo.

Considerando apenas a expectativa quanto ao momento presente, apenas 7% se disseram otimistas, porém esse número foi ainda menos animador quando os empresários foram questionados sobre as expectativas para o longo prazo. Em relação ao futuro, apenas 5% se disseram otimistas.

A recessão compele a dona de casa a eliminar do carrinho de compras boa parte dos produtos que se habituou adquirir nos últimos quatro anos, como iogurtes, chocolates, salgadinhos e azeites.

O orçamento apertado, por conta da alta da inflação e dos juros, e o receio do desemprego forçaram os consumidores a economizar até com alimentação.

Ao mesmo tempo, a elevação de custos industriais, de que são exemplos os preços administrados, e do dólar levou os fornecedores a subir os preços acima da inflação.

A combinação desses dois fatores acabou por reduzir em 30%, em média, a margem de lucro das empresas do setor. É o que afirma Pedro Celso Gonçalves, presidente da Apas (Associação Paulista dos Supermercados) .

A margem de lucro líquido dos supermercados que, tradicionalmente, oscilava entre 2,5% a 3%, caiu para 1,5% e 2%, segundo sua estimativa.

“Para lidar com essa margem, uma empresa tem de ser bastante competitiva. Do contrário, passará a operar no vermelho”, diz Gonçalves.

É claro que o quadro negativo não se limita ao Estado de São Paulo. Nesta quarta feira (14/10), o IBGE informou que as vendas do comércio varejista restrito (no qual se incluem os supermercados) caíram 0,9% em agosto ante julho, na série com ajuste sazonal

Na comparação com agosto do ano passado, sem ajuste sazonal, as vendas do varejo tiveram queda de 6,9% em agosto deste ano.

Os sinais de crise começaram a aparecer para os supermercados paulistas em outubro do ano passado.

 “A dona de casa é muito versátil. Quando a crise começa a se mostrar, ela já corta os supérfluos. Depois, muda de marca e, em seguida, chega a um ponto em que ela deixa mesmo de consumir.”

É este exatamente o ponto que os supermercadistas paulistas enfrentam hoje. De janeiro a julho, considerando as mesmas lojas e, descontando a inflação, o setor constatou queda de receita de 1,25% sobre igual período de 2014.

Até o final do ano, o cenário não deve ser muito diferente. A Apas estima que, na melhor das hipóteses, o faturamento real do setor cresce 0,5% sobre 2014.

GONÇALVES: CUSTO DE ENERGIA PESA

Os custos dos supermercados também cresceram no período. “A energia que, para o nosso setor, nunca foi um custo tão relevante, já é o segundo, após mão-de-obra. A participação sobre a venda, que era inferior a 1%, agora chega a 1,7%”, diz.

PRODUTIVIDADE

Os supermercados paulistas, que faturam cerca de R$ 87 bilhões por ano e empregam aproximadamente 520 mil funcionários, estão se mexendo para enfrentar a crise.

“Muito mais preocupadas com o aumento de produtividade, as empresas estão revendo todos os processos de gestão. E não estou falando em cortar o cafezinho, mas em produzir mais, gastando menos.”

O self checkout, diz ele, deve ser cada vez mais utilizado nos supermercados, como forma de ganho de produtividade. É aquele sistema em que o próprio consumidor passa os produtos pelo caixa e faz o pagamento com cartão, dispensando a ajuda de um funcionário.

A rede de supermercado Boa, de Jundiaí (SP), acaba de lançar o serviço em uma de suas lojas. A rede Enxuto, de Campinas, também se prepara para ter o self checkout em pelo menos uma de suas seis lojas ainda neste mês.

Implantar esse sistema não sai barato. Custa cerca de R$ 50 mil. Por isso, ainda é raro ver o equipamento em lojas de supermercados.

Segundo Gonçalves, as empresas também investem em equipamentos mais eficientes, como cortadores de frios, e sistemas de informática para dar agilidade ao atendimento.

Os grandes grupos de supermercados estão mais avançados na busca de produtividade, mas, segundo Gonçalves, até mesmo as redes menores estão tendo de investir em novas tecnologias, em melhorias de gestão para sobreviverem.

Apesar da queda nas vendas não há sinal de quebradeira de lojas, mesmo considerando o grupo de microempresas.

PROXIMIDADE COM O CLIENTE

Essas pequenas empresas, diz ele, têm uma grande vantagem em relação às grandes redes.

Os donos conhecem os consumidores até pelo nome, e, dessa forma, conseguem manter a fidelidade da clientela mesmo com a concorrência com as redes gigantes do setor.

Os supermercados regionais também estão se beneficiando, segundo Gonçalves, pelo fato de o consumidor dar cada vez mais preferência para os supermercados de vizinhança. Grandes redes, de outro lado, aceleram a implantação de pequenas lojas.

“Os empresários do setor precisam dar cada vez mais valor ao cliente, ficar perto dele. É nisso que ele se diferencia das grandes redes”, diz.

Neste período de crise, a Apas tem orientado os empresários, especialmente os micros, para que tomem cuidado com a mistura de dinheiro da empresa e pessoal.

Na sua avaliação, os empresários também precisam evitar, neste momento, ir a bancos para fazer empréstimos.

“O crédito para os pequenos, numa situação como esta, é mais caro. É a lei da oferta e da procura.”

Neste momento, segundo o presidente da Apas, os supermercadistas devem manter um estoque menor, comprar da indústria ou dos distribuidores em períodos mais curtos.

“Associar-se a empresas menores para comprar produtos também é um caminho que, aliás, já tem sido feito em outros momentos.”

Para estimular as vendas, diz ele, as indústrias têm feito promoções do tipo leve seis e pague cinco.

A crise compeliu as empresas do setor, principalmente as líderes, a sortear carros e até casas. Está valendo tudo para levar o consumidor para dentro das lojas.

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*Com informações de Estadão Conteúdo