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Lojistas entregam os pontos e aluguel cai no Bom Retiro


Na comparação com os valores pré-pandemia, os preços de novas e raras locações estão 20% menores, em média, com tendência de queda


  Por Fátima Fernandes 17 de Julho de 2020 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Há cerca de uma década, havia quem pagasse até US$ 500 mil de luvas para ter uma loja em um dos pontos comerciais mais tradicionais de São Paulo.

Afinal, quem não queria expor os seus produtos em uma região que recebia milhares de lojistas diariamente de todo o país para comprar roupas no atacado?

Depois de o país viver uma das mais longas crises de sua história, a partir de 2014, e, agora, enfrentar uma pandemia com proporção mundial, o cenário no bairro do Bom Retiro é outro.

Ninguém nem lembra mais que um dia a prática controversa das luvas corria solta por ali.

Em uma das ruas mais famosas da região, a José Paulino, há dezenas de lojas fechadas, uma cena jamais vista. Os donos dos imóveis estão correndo atrás de clientes.

Assim que as lojas fecharam, os valores dos aluguéis caíram temporariamente pela metade. E, agora, mesmo com a reabertura, os lojistas não têm fôlego para voltar a pagar o valor cheio.

Diante das incertezas sobre como vai se comportar a pandemia do novo coronavírus e o tamanho da crise que o país vai enfrentar, lojistas da região estão entregando os pontos.

“Tem empresário que entregou oito lojas e espera voltar no ano que vem na expectativa que os preços dos aluguéis despenquem”, afirma R., corretor de uma das mais tradicionais imobiliárias do bairro.

Na comparação com os valores pré-pandemia, os preços de novas e raras locações estão 20% menores, em média, com tendência de queda, de acordo com consultores imobiliários.

Lojas com aluguel de R$ 30 mil por mês antes da pandemia estão sendo locadas por R$ 25 mil.

“Quem não flexibilizou os preços perdeu o inquilino", afirma Adriana Weizmann, proprietária da Hai Imóveis, que atua na região.

A oferta de lojas no Bom Retiro triplicou neste período pós-pandemia, de acordo com corretores.

Na Rua José Paulino, cerca de 30 pontos já estão vagos, com aluguéis que variam de R$ 12 mil a R$ 30 mil por mês.

Na Rua da Graça, a estimativa de corretores é que cerca de 40% dos imóveis estão desocupados.

Nas ruas Professor Cesare Lombroso e Aimorés, bem próximas da Rua José Paulino, o cenário parece “um pouco” melhor, de acordo com Adriana.

Houve redução de 50% nos valores dos aluguéis para os lojistas das duas ruas, mas não teve, por enquanto, entrega maciça de pontos.

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É visível, de acordo com corretores de imóveis, que os lojistas que já estavam operando com e-commerce estão com mais fôlego financeiro neste momento.

E são exatamente estes lojistas que estão aproveitando a oportunidade para ir para imóveis menores e mais baratos.

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O movimento nas lojas do bairro está entre 60% e 70% menor do que no período pré-pandemia, de acordo com Nelson Tranquez, vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro.

As empresas estão recorrendo às linhas de crédito de instituições financeiras, diz ele, mas não estão conseguindo atender as exigências dos bancos para a liberação do dinheiro.

O que muitas delas estão fazendo, neste momento, é optando pela redução de custos e salários, na expectativa que o ritmo de vendas retome mais para o final do ano.

Roberto Capuano, consultor de imóveis há mais de 50 anos, diz que a região do Bom Retiro perdeu a identidade nos últimos anos e isso também abala o valor das locações.

O bairro tem origem judaica e libanesa, com a vinda de imigrantes a partir dos anos 40 por conta da Segunda Guerra Mundial. Nas décadas de 60 e 70 os coreanos começaram a chegar.

Hoje, de acordo com a CDL, entre 60% e 70% dos empresários do bairro têm origem coreana. Os empresários que formaram o comércio na região não conseguiram fazer sucessão.

Hoje, em meio a uma pandemia com consequência ainda desconhecida, de acordo com Tranquez, fica difícil fazer qualquer previsão para o comércio no Bom Retiro.

“Com um consumidor mais empobrecido, o varejo tende a apanhar”, diz Capuano.

E quando aumenta demais a oferta de imóveis, diz ele, não tem jeito, os preços caem.

O problema é que, desta vez, de acordo com consultores do mercado imobiliário, ninguém consegue prever qual será o tamanho do tombo da economia.