Negócios

Lojistas de shoppings querem reduzir horário de funcionamento


Em São Paulo, os centros de compras podem operar 12 horas por dia, exigindo um turno a mais de funcionários nas lojas, o que se traduz em custo extra em um período de vendas fracas


  Por Karina Lignelli 06 de Novembro de 2020 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


São Paulo chegou à fase verde do plano de flexibilização em 9 de outubro. Com horário ampliado para 12 horas, a expectativa do comércio era de recuperação mais rápida nas vendas. 

Mas, pelo menos em shoppings, o tempo maior de portas abertas para receber a clientela não tem se traduzido em altas mais significativas no faturamento. Principalmente para os lojistas-satélite.  

Boa parte dos consumidores teve queda da renda ou está desempregado, e não se sente à vontade para gastar. Ou, apenas tem medo do contágio, deixou de perambular nos shoppings e, claro, de comprar por impulso.

Com o caixa reduzido, fica difícil para o lojista equilibrar custos de operação em um centro de compras, que podem ultrapassar 30% do faturamento mensal. 

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Os números dão uma ideia disso: mesmo com alta de 17,8% no fluxo de consumidores em setembro ante igual mês de 2019, houve queda no movimento de 56,3% no período. No acumulado do ano, o recuo é 56,7%. 

O levantamento é da FX Data Intelligence com a startup F360º, especializadas em IA para o varejo, em parceria com a SBVC (Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo) e a startup 4Intelligence, de análise de dados. 

Algumas atividades específicas foram mais afetadas por essa queda - como operadores de cafeterias e snacks, que dependem da permanência maior de pessoas nos shoppings para garantir o consumo por impulso.

Nesse momento, muitos consumidores têm ido aos centros de compras apenas para resolver questões pontuais, ficando por lá não mais do que 30, 40 minutos, afirma Alberto Carneiro, presidente e fundador da Casa do Pão de Queijo, que tem 93 das 195 unidades alocadas em shoppings.

"Nós precisamos desse período maior de permanência, da socialização, da pausa para o café", diz o empresário. "Mas esse momento 'relax' foi afetado pela atual dinâmica de entrar e sair rapidamente."    

A reabertura gradual do comércio fez as vendas evoluírem, e hoje a rede fatura, em média, 60% do que faturava antes da pandemia. Mas, como outras satélites, opera num pano de fundo descolado da realidade. 

Mesmo que a maioria dos shoppings tenha renegociado aluguéis e outros custos, e liberado drive thru e delivery para que as lojas continuassem a vender, a pressão em cima dos comerciantes continua. 

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O empresário exemplifica: se uma loja vendia R$ 100 mil antes da pandemia e tinha custos de ocupação perto de 22%, depois da covid-19, com faturamento pela metade, esses custos não mudaram e podem bater em 45%.

"Apesar da anormalidade do momento, muitos não abrem mão de cobrar 100% de aluguel e condomínio", diz. "A conta não fecha: nós, lojistas, podemos até dobrar os preços, mas aí não vamos vender." 

A Casa do Pão de Queijo aposta na recém-lançada linha dos seus famosos snacks em versão congelada, para venda em supermercados. "Foi a maneira que achamos de chegar no consumidor que está em casa."    

PARA A PAPEL MAGIA, O IDEAL SERIAM SHOPPINGS ABERTOS OITO HORAS DIÁRIAS 

REDUÇÃO DE HORÁRIO TEMPORÁRIA

Com menos gente circulando, operar 12 horas por dia em shoppings exige um turno a mais de funcionários - custo extra que pode complicar a vida do lojista-satélite que ainda não recuperou o faturamento pré-covid. 

A Papel Magia, autodenominada como uma rede de papelarias "fofas", tem 20 lojas próprias em shoppings e atravessou a quarentena com vendas por delivery, whatsapp e e-commerce. Este, sozinho, cresceu 60% no período. 

Com lojas que trabalham no conceito de vitrine de produtos, a rede conseguiu recuperar 50% das vendas desde a reabertura.

Mas, no atual cenário, a projeção é encerrar 2020 vendendo 40% a menos que em 2019, segundo o diretor geral e sócio-proprietário Francis Ferreira de Melo Pádua. 

"Como empresário, sei que vai demorar para recuperar o nível de atividade, assim como as pessoas vão demorar para retornar aos shoppings e terem condições econômicas, financeiras e emocionais de comprar."  

Ao relatar a dificuldade de negociar com shoppings, fornecedores e suspender contratos de funcionários, Pádua avalia que, no momento, o ideal seria que os centros de compras funcionassem oito horas diárias.  

"Assim, a gente trabalharia só com um turno de pessoas, e poderia remanejar 40% dos 138 funcionários que temos hoje. Mas isso é uma ilusão", afirma. 

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Para tentar contornar a situação de lojistas como a Papel Magia, a Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (Ablos) enviou, no fim de outubro, uma carta à Abrasce (Associação Brasileira de Shoppings Centers).

No pleito, a proposta de que, assim como no mercado americano, que as satélites funcionem no limite de 10 horas diárias (11h às 21h) até fevereiro de 2021, a princípio, para atravessar o período de vendas reduzidas. 

Uma estimativa da Ablos aponta que, para funcionar entre 10h e 11h, por exemplo, um horário historicamente tranquilo no movimento dos shoppings, as vendas representariam entre 5% e 6% do faturamento, enquanto o custo para manter uma equipe no período representaria o dobro, ou seja, em torno de 12%.   

"O lojista não vive de expectativa, mas de realidade. Não acredito que duas horas resolvam, mas pelo menos dá para conseguir um fôlego a mais até voltarmos a conversar", afirma Tito Bessa Jr., presidente da Ablos.  

Apesar da possibilidade da contratação de intermitentes ou em regime part time (parcial), Bessa lembra que enquanto um funcionário ganha R$ 2 mil, em média, os encargos trabalhistas representam o dobro.

Mas, ainda assim, o custo de operar no shopping acaba saindo mais caro que a folha de pagamento, que representa, em média, de 12% a 13% do faturamento do lojista. Independentemente de ter fluxo ou não. 

"As satélites pagam 18%, 20% ou até mais para o shopping. Como gerar emprego desse jeito?", questiona. 

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Em nota, a Abrasce diz "atuar em contato constante com as entidades representativas do comércio e do varejo", e acredita que "estamos num processo de recuperação econômica, e o funcionamento de acordo com o estipulado pela legislação a torna mais sustentável e colabora para a manutenção dos empregos."

Também disse entender que há "opiniões divergentes de lojistas, mas são pontuais, não refletindo o todo", e que "empreendedores e administradores seguem comprometidos com diálogo e apoio constantes."

Para Francis Pádua, da Papel Magia, os shoppings vão investir no Natal de qualquer jeito, e isso vai gerar a necessidade de um grupo maior de pessoas para atender. Então, o negócio é procurar se adaptar.

"Infelizmente, não conseguiríamos atender à demanda com horário e capacidade reduzidos", finaliza.  

FOTOS: Divulgação 





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