Negócios

Lojistas de BH querem que shoppings fechem aos domingos para reduzir custos


Contrários ao pleito, Conselho de Varejo da ACSP e Abrasce alertam para queda maior nas vendas e desemprego


  Por Karina Lignelli 11 de Maio de 2016 às 20:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Em pleno cenário de queda nas vendas do varejo, um pedido inusitado - e polêmico. Cerca de 1,5 mil lojistas de shoppings de Belo Horizonte (MG) pleitearam que o SindiLojas local faça uma assembleia para votar o fechamento dos 11 centros de compras da capital mineira aos domingos.

A queda crescente no movimento do comércio desde o fim de 2014, somada aos custos de mão de obra e de operação em um shopping (aluguel, condomínio e fundo de promoção), que podem chegar a 30% das receitas, motivaram o pedido, diz Alexandre França, superintendente da Aloshopping MG.  

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Com isso, as mais afetadas pelo aumento de custos foram as lojas-satélite, que representam entre 70% e 75% do mix de um shopping. Para mostrar esse prejuízo, França cita dados. Segundo ele, no domingo o que pesa mais é a mão de obra, e uma loja precisa de três funcionários para abrir.

Para empatar receitas e despesas, é preciso vender pelo menos R$ 3,2 mil neste dia da semana, mas nos últimos tempos, o volume de vendas não tem chegado a R$ 1,5 mil. “Tirando alimentação, cinemas e entretenimento, a venda das demais lojas no domingo não chega a 4%”, completa. 

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Na outra ponta, a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), é contrária ao fechamento no terceiro melhor dia de vendas na semana, que representa 14% do total do faturamento (14%), ficando atrás apenas do sábado (24%) e da sexta (16%).

“O domingo faz parte da cultura do consumidor”, diz a entidade, em nota, afirmando que a interrupção das atividades nesse dia “acarretaria prejuízos para o comércio varejista estimados em mais de R$ 67 milhões mensais.”

A medida, que seria temporária e duraria seis meses, serviria como uma espécie de "respiro", segundo a Aloshopping. “Nesse momento difícil, todos têm que ganhar. Mas por enquanto, quem está perdendo são os lojistas”, afirma França.  

Também contrário ao pedido, que pode “gerar precedente para o Brasil inteiro”, Nelson Kheirallah, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e coordenador do Conselho de Varejo da entidade, diz que não dá para generalizar no atual cenário.

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“O comércio não está vendendo nada, então como é que vamos fechar os shoppings aos domingos?”, pergunta. “Em vez de trabalhar seis, deveríamos trabalhar 14 horas para tentar reverter esse quadro”, completa.

Nesta sexta-feira (13/05), o Conselho de Varejo da ACSP levará uma comitiva de representantes de lojas âncora e satélites ao Sindilojas BH para apresentar o seu posicionamento.

“Fechar aos domingos só serviria para gerar mais queda nas vendas e aumentaria o desemprego. É um movimento contra o varejo”, afirma Kheirallah.

A favor da abertura das lojas aos domingos, desde que facultativa – ou seja, que o lojista tenha a opção de abrir se for rentável para ele – o Sindilojas BH está servindo de intermediador entre a Aloshopping e a Abrasce e os empreendedores para resolver o impasse.

Para isso, nas rodadas de negociações, o sindicato vem tentando negociar três pontos com os shoppings, segundo o presidente Nadim Donato Filho. O primeiro deles é a renegociação individual para tentar reduzir o valor dos aluguéis.

O segundo, é a diminuição de 5% a 10% no valor do condomínio. E por último e mais difícil, a abertura facultativa até novembro, para isentar os lojistas de multas, mas de modo a não prejudicar também os shoppings.

“Entendemos que, para que um empreendimento como esse dê certo, é necessário que todos abram e fechem juntos. Mas é preciso proteger todos os lojistas, e não só um grupo”, diz Donato Filho, ao mencionar a repercussão em caráter nacional de uma medida do tipo.   

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Segundo ele, a ideia é negociar até à exaustão, pois se realmente for convocada uma assembleia extraordinária como a solicitada pela Aloshopping, a tendência é que "vença" o fechamento aos domingos. Ele lembra que será um voto por CNPJ, e os pequenos lojistas são maioria.

“A ideia é ir ao limite das negociações, para que pelo menos parte do problema seja solucionado”, conclui. 

Uma pesquisa do Ibope Inteligência divulgada na terça-feira (10/5) mostra que, apesar de o domingo ser o dia com o menor fluxo de visitas nos shoppings (12% dos 300 milhões de visitantes no mês), 82% dos consumidores realizam algum desembolso nos centros de compras nesse dia. Faz sentido abrir ou fechar, então? Resta aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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