Negócios

Lojas Cem mantém tradição e abre mais 11 lojas neste ano


Decidida a não seguir os caminhos de concorrentes, com marketplace e ações em Bolsa, rede de Salto cresce e planeja investir cerca de R$ 200 milhões para abrir mais pontos em 2022


  Por Fátima Fernandes 11 de Agosto de 2021 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com


No momento em que grandes redes de varejo caminham para o chamado modelo de ecossistema, com marketplace, e-commerce, fintech e ações em Bolsa, a Lojas Cem, uma das maiores varejistas de eletroeletrônicos do país, está decidida a manter a tradição de 69 anos.

Com um faturamento anual da ordem de R$ 6 bilhões e 288 lojas nos Estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a rede deve inaugurar até o final deste ano mais seis lojas físicas e iniciar as obras de outras cinco.

Desde o início do ano até agora, já foram inauguradas quatro lojas no Estado de São Paulo e uma no Rio de Janeiro, com a contratação de cerca de 150 pessoas.

Os investimentos em renovação de espaços, novas obras e centro de distribuição devem somar R$ 200 milhões neste ano, número que deve se repetir em 2022, com a abertura de mais 12 pontos de venda.

Neste momento, a empresa, que emprega cerca de 11 mil pessoas, analisa o potencial de consumo de 27 cidades, com população de 30 mil a 400 mil habitantes, nos quatro Estados onde atua, para fincar a marca.

“O nosso sistema de trabalho é 99% caseiro, e assim vai continuar, com um know-how de quase 70 anos de história”, afirma José Domingos Alves, superintendente da rede.

As famílias Dalla Vecchia e Benito, sócias da rede, entendem que o varejo físico é o modelo de negócio da empresa que deu certo e vai continuar apostando nele.

Ganhar dinheiro com a alta de ações na Bolsa ou com plataforma não faz parte dos planos das famílias, que acreditam no varejo físico como um mercado potencial no Brasil. 

Com 14 milhões de clientes ativos, também vai continuar bancando a compra a prazo do consumidor. A venda pelo sistema de carnê representa cerca de 70% da receita da companhia.

Quando a Casas Bahia e o Ponto Frio se uniram e passaram a ter cerca de 500 lojas, diz Alves, as duas vendiam cerca de 15 a 16 vezes mais do que a Lojas Cem.

Hoje, com e-commerce e cerca mil lojas em todo o país, elas vendem cerca de cinco vezes mais.

“Os números estão aí para mostrar que nós crescemos com o modelo tradicional de varejo.”

Isso não quer dizer que a empresa fechou as portas para o e-commerce. Já faz um tempo que a Lojas Cem se prepara para a venda on-line, ainda sem data de estreia.

“O e-commerce é um negócio, mas não é um modelo que vamos apostar todas as fichas.”

PRESSÃO DE CUSTOS

Com o final do ano se aproximando, um dos principais desafios da empresa é enfrentar a pressão de alta de preços da indústria, que chega a 25%, em média.

Os aumentos estão espalhados por quase todos os produtos das linhas branca (fogão, geladeira), marrom (televisores e aparelhos de som), de informática e móveis.

Um notebook que custava na faixa de R$ 2 mil para a rede, agora custa R$ 4 mil, de acordo com Alves. “Não há espaço para todos esses reajustes.”

A Lojas Cem optou por esperar pela queda de preços para realizar compras da indústria, até porque está com estoques para atender a demanda por até 60 dias.

A diretoria da empresa já sente que as indústrias vão ter de reduzir a pressão por reajustes porque as vendas já não estão tão aquecidas como há 30 ou 40 dias.

“Os salários não estão acompanhando os aumentos de preços, e é bom lembrar que boa parte da população é assalariada”, diz.

Um sinal de que os consumidores estão com o orçamento apertado é o aumento de 20% da inadimplência da empresa, nos atrasos acima de 60 dias, em relação ao ano passado.

A pandemia do novo coronavírus, de acordo com Alves, mudou o comportamento das famílias, que passaram a adquirir produtos para usar dentro de casa.

Após um ano e meio, porém, os negócios já começam a ficar parecidos com os de 2019.

O faturamento da rede está 20% maior do que o de 2020 e igual ao do período pré-pandemia.

ANÁLISE

As tendências para o mundo do varejo nunca tiveram tão diversas, de acordo com Gustavo Carrer, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Gunnebo, e consultor de varejo.

“Hoje, a única certeza que se tem é que vai existir a convivência de diversos modelos de negócio, sempre encontrando nichos de público seja na loja física seja na on-line.”

Varejistas que nasceram no on-line, como a Amazon, estão comprando redes para ir para o modelo físico, diz ele, e lojas físicas estão acelerando o processo de abertura do e-commerce, especialmente depois da pandemia.

“O centro da questão é o consumidor, que continua comprando nas lojas físicas e nas virtuais. Cada grupo da população por sexo, idade, região vai escolher a melhor forma de comprar”, diz.

Não é sempre que o consumidor vai querer comprar pela internet ou em uma loja física.

“Uma hora ele vai querer ter uma experiência por meio do contato com pessoas na loja, outra hora vai preferir comprar sem sair de casa”, diz.

A Lojas Cem, em sua avaliação, compreende a vontade do consumidor de interagir com pessoas e por essa razão captura este movimento com plano de expansão.

“Mas isso não quer dizer que a rede vai abrir mão do on-line, tanto que se prepara para ter um modelo misto com a entrada no e-commerce”, afirma.

De acordo com ele, as redes de eletroeletrônicos entendem de maneira diferente o e-commerce e seu movimento de expansão.

Algumas, como o Magazine Luiza, preferem, por meio de aquisições, trazer a tecnologia para a empresa.

Outras, como a Lojas Cem, preferem comprar tecnologia de terceiros e manter a raiz do negócio, isto é, uma empresa genuinamente de varejo.

A venda por meio do tradicional carnê, que representa boa parte do faturamento da Lojas Cem, é uma opção lucrativa da rede, na avaliação de Carrer.

“O sistema bancário passa por uma grande transformação, com as fintechs. Mas, de novo, há pessoas que não querem ter relação com apps, e, sim, com pessoas.”

É neste mercado, diz ele, que a Lojas Cem atua.

Para Maurício Morgado, coordenador do Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP, como a Lojas Cem está em cidades menores, ela terá, muito provavelmente, muito mercado para explorar por uns bons anos.

“Mas pode chegar uma hora que ela também terá de entrar em novos modelos de varejo que virão por aí”, diz.

 

IMAGEM: Divulgação/Lojas Cem






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