Negócios

Juro civilizado. É disso que o comerciante mais precisa


A taxa básica da economia, mantida em 14,25% ao ano, é empecilho para a volta do consumo e dos investimentos produtivos, segundo Francisco Deusmar de Queirós (foto), fundador da Pague Menos


  Por Rejane Tamoto 21 de Julho de 2016 às 08:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


 

Em meio à mais profunda recessão da história do Brasil, o maior desejo de Francisco Deusmar de Queirós, o fundador e presidente do conselho de administração da rede de farmácias Pague Menos é ver o dinheiro voltar a girar na economia.

Mas isso tem mais chance de ocorrer quando a economia estiver suficientemente equilibrada -ou seja, com uma inflação mais comportada - que possibilite que a taxa básica Selic deixe de ser também uma das mais altas do mundo, atualmente em 14,25% ao ano

Na semana em que o Diário do Comércio dedica ao Dia do Comerciante (celebrado no dia 16/07), uma série de reportagens sobre o maior presente que o empresário desse setor poderia ganhar, Queirós revela que sua aspiração é que o país tenha juros mais civilizados.

Para ele, isso seria o gatilho para o retorno de investimentos que permitem a retomada de geração de empregos e, consequentemente, do consumo.

À frente do conselho da segunda maior rede no ranking da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), ele também preside a entidade, que reúne as 28 maiores do país.

Apesar do ambiente macroeconômico atual ser desanimador para fazer negócios, Queirós conta que não deixou de investir um centavo do que planejou e prossegue com seu plano ambicioso de abrir um total de mil lojas até 2017.

Ao todo, a rede prevê investimentos da ordem de R$ 150 milhões em 2016.

Foram inauguradas, somente neste ano,  69 unidades em cidades brasileiras com pouco acesso a farmácias. Hoje, das cerca de 900 unidades em 26 estados e Distrito Federal, mais da metade está concentrada no Nordeste, território da rede, que nasceu no Ceará. 

Além disso, a rede abriu um centro de Distribuição Logístico na Bahia e está ampliando outros dois em Pernambuco e Goiás. 

O que explica o investimento nesse momento, segundo ele, foi uma gestão bem feita, que desde dezembro de 2015 tem a participação do fundo americano de private equity General Atlantic. 

A rede também está preparada financeiramente. No primeiro semestre, seu faturamento cresceu 20% na comparação com igual período de 2015.

"Nos preparamos para seguir o plano de abertura de lojas independentemente da crise e da situação política. Desde 1963 o Brasil nunca passou mais de três anos com o PIB [Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país] abaixo de zero. Acredito que a economia só volta a crescer a partir de 2018. Mas continuo abrindo lojas para quando esse momento chegar", conta. 

O empresário diz também que não precisou demitir e pretende contratar duas mil pessoas até 2017 para trabalhar nas lojas que serão inauguradas. Elas vão se juntar ao time de 21 mil colaboradores da rede.  

"Tivemos reajustes de custos operacionais e podíamos estar parados e esperando essa crise passar. Mas não é bem assim. Não ajudamos o país se ficarmos de braços cruzados."

Queirós disse que não bastou só acreditar que o ambiente vai melhorar. Para seguir com os planos de abrir o mesmo número de lojas que, de acordo com ele, seriam igualmente inauguradas caso não houvesse uma crise econômica no país, a empresa precisou fazer ajustes internos.

Contratou consultorias que orientaram a cortar custos de maneira inteligente e a aumentar a produtividade dos funcionários. 

"Enfim, estamos fazendo mais com menos e isso vai continuar sendo importante. Se estivéssemos trabalhando como antes tudo estaria mais difícil. Um exemplo do que conseguimos reduzir: instalamos um sistema de captação de energia solar em nossos centros de distribuição e já reduzimos essa conta em 12%. Em termos de produtividade, o que três funcionários faziam antes dois estão fazendo agora. Tudo isso para não desempregar", explica. 

O resultado é que a taxa de crescimento da rede Pague Menos superou a média do setor neste início de 2016. De janeiro a abril as farmácias venderam R$ 12,6 bilhões na comparação com igual período de 2015, um alta de 13,16% de acordo com dados da Abrafarma.

Nesse período, a quantidade de lojas das redes associadas teve um incremento de 7,40% na comparação entre os períodos, atingindo 6.079 unidades. 

SAÍDA É SORTIMENTO ADEQUADO

Apesar de o Comitê de Política Monetária (Copom) ter mantido a taxa básica de juros em um patamar elevado, a expectativa para a Selic é positiva daqui para frente, com a economia do país sob nova direção.

No entanto, essa melhora será gradual. Analistas de mercado de bancos, que participam do boletim Focus do Banco Central, projetam que a Selic alcance 13,25% no fim de 2016 e 11% no encerramento de 2017. 

No entanto, a questão do emprego, de extrema relevância para o comércio, também deve levar mais tempo para voltar ao campo positivo. Os dados de maio do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o país acumula 11,440 milhões de desempregados. Ao mesmo tempo, a renda média do trabalhador caiu 2,7% para R$ 1.982 no trimestre encerrado em maio sobre igual período de 2015.  

Na avaliação de Queirós, a redução da renda não permite que o consumidor faça compras com recursos próprios, a não ser por meio do crédito, que também tem um custo alto por causa dos juros.

Questionado se os clientes estão segurando os gastos com os supérfluos e com as compras por impulso dentro das farmácias, Queirós desconversou. "O Brasil não está maravilhoso. O consumidor está comprando apenas o básico, os alimentos e os remédios", afirma. 

Apesar de a rede Pague Menos ter tido um resultado positivo com as vendas, o empresário nota que o consumidor ainda se sente inseguro em relação ao que vai acontecer daqui a dois ou três meses, principalmente se ele tem alguém na família que perdeu o emprego.

"As pessoas estão comprando o essencial, o creme dental e a tintura para cabelo, já que a mulher não deixa o cabelo branco. O que pode acontecer é que em vez de escovar o dente três vezes ao dia está escovando uma. Em vez de dois banhos, só um", conta.

O que tem mantido as vendas em bom patamar, segundo ele, é o fato de trabalhar com marcas populares. A rede também oferece itens de perfumaria, curativos e higiene pessoal de marca própria, cujos preços são até 20% menores do que os da concorrência. 

Eugênio Foganholo, consultor especializado em varejo e bens de consumo da Mixxer, avalia que a receita adotada pela Pague Menos, para se tornar proativa em relação ao mix de produtos que o consumidor deseja e ainda consegue comprar, está na direção certa - enquanto os juros não baixam e o desemprego não começa a cair. 

Segundo ele, o que joga contra o varejo farmacêutico é o que atinge os demais segmentos -  a redução na renda, que não deixa sobra para o consumidor gastar com o que quer, apenas com as despesas de primeira necessidade.

"Mas o que joga a favor das farmácias, nesse cenário, é que pesquisas mostram que as pessoas estão mais preocupadas com a saúde e o bem-estar e resistem a abrir mão de produtos dessas categorias", afirma.

De acordo com Foganholo, mesmo que o consumidor corte gastos com produtos de higiene e beleza, não deixa de comprá-los. Em vez disso, reduzirá a quantidade de itens ou substituirá por marcas de menor preço. 

"De toda forma será demorado para o governo consertar a economia. Será um trabalho longo e difícil, que exigirá negociação com a sociedade. Para o empresário, a mensagem é a seguinte: quem espera salvador não merece salvação", afirma. "Ele não pode esperar o emprego melhorar para agir. Precisa encontrar soluções no ambiente de negócios atual, começando por entender mais o que o cliente quer e oferecer um sortimento de forma adequada.". 

OUTRAS REPORTAGENS DA SÉRIE:

COMO A BUROCRACIA TRAVA O CRESCIMENTO DO COMÉRCIO

ELES SONHAM COM O FIM DO DESEMPREGO E A VOLTA DA CONFIANÇA

TELHANORTE QUER CONCORRER COM VAREJO FORMALIZADO E EFICIENTE

DONO DO PRAZERES DA CARNE IMPLORA POR MENOS IMPOSTOS

MENOS BUROCRACIA E MAIS EFICIÊNCIA LOGÍSTICA. É O QUE PEDE A NETSHOES

 

FOTO: Divulgação

ARTE: William Chaussê