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Infraestrutura viária de Santos prejudica escoamento de cargas


Reunião realizada na ACSP debateu a necessidade de ampliar a atividade do porto de Santos nos períodos noturnos, quando o trânsito de veículos nas rodovias é menor


  Por Redação DC 21 de Julho de 2017 às 20:52

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


*Por Renato Santana de Jesus

Especialistas se reuniram ontem na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) para discutir como melhorias nos acessos terrestres ao Porto de Santos podem contribuir para o crescimento no fluxo de cargas. O encontro foi organizado pelo Comitê dos Usuários dos Portos e Aeroportos da entidade.

Maior da América Latina, o Porto de Santos sustenta números grandiosos: são 65 berços de atracação e 55 terminais marítimos e portuários distribuídos numa área útil de 7,8 milhões de metros quadrados, sendo que o cais estende-se por 16 quilômetros. 

De acordo com José Cândido Senna, coordenador do Comitê de Portos e Aeroportos da ACSP, é observado um aumento no fluxo de cargas no Porto de Santos, sobretudo na exportação, com destaque para os produtos agrícolas. E 75% dessa distribuição é feita nas rodovias, sendo o restante pelo modal ferroviário.
 
“Essa infraestrutura rodoviária, tendo basicamente o Sistema Anchieta-Imigrantes como o grande vetor de suporte desse fluxo, e depois complementado pela Cônego Domênico Rangoni e pela Padre Manoel da Nóbrega, a gente percebe que, no curto prazo, e isso é o que discutimos aqui, não há investimentos relevantes que venham a proporcionar acréscimos significativos de capacidade para o acesso ao complexo portuário santista nos próximos anos”, explicou Senna. 

Também participou do encontro Ricardo Lattanzi, do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de São Paulo e Região (SETCESP), com a visão dos transportadores e operadores rodoviários. 

Ele propôs que haja um movimento por parte dos usuários do porto no sentido de usá-lo com mais frequência fora do horário comercial, em especial na madrugada, o que invariavelmente exigiria que os órgãos anuentes também tivessem, de maneira confiável, disponibilidade de atuação ao longo da noite. 

Isso, no entendimento dele, contribuiria para desafogar o trânsito no Sistema Anchieta-Imigrantes.

O problema dessa medida – apontou Martin Aaron, presidente da Associação Brasileira de Terminais Retroportuários e das Empresas Transportadoras de Contêineres (ABTTC) – é que o momento de crise ainda não permite que as empresas se expandam ao ponto de estenderem suas operações noite afora. 

Ele mostrou dados da Agência de Transporte do Estado de São Paulo que 65% a 70% do movimento de veículos comerciais estão concentrados no período das 5h às 18h dos dias úteis.

Aaron observou que, embora o porto seja 24 horas, os usuários ainda não atuam 24 horas. 

Especificamente na questão rodoviária, Lattanzi sugeriu a liberação da Rodovia Anchieta apenas caminhões e ônibus, limitando o acesso de veículos de passeio, que poderiam se valer da Imigrantes. 

“Você tem horários de pico na rodovia, principalmente ao final da tarde, quando você tem a descida dos fretados de São Paulo e, como grande parte dos embarcadores operam em horário administrativo, há os caminhões retornando para suas bases em Santos”. 

Mais do que isso, em conjunto com Polícia Rodoviária, Ecovias e Departamento Estadual de Estradas de Rodagem de São Paulo, Lattanzi cogitou a possibilidade de que caminhões vazios tivessem autonomia para trafegar à esquerda enquanto os carregados manter-se-iam à direita.

EM REUNIÃO NA ACSP, USUÁRIOS DO PORTO DEBATERAM O FUNCIONAMENTO 24 HORAS DE TODAS AS ÁREAS DO TERMINAL

“Você tem um caminhão retornando do interior, um veiculo carregado descendo a três, cinco quilômetros por hora, e um caminhão vazio não podendo desenvolver o limite da via com segurança, andando atrás dele para não ser multado”. Essa medida, diz Lattanzi, aumentaria a produtividade das empresas e facilitaria inclusive o cumprimento de exigências trabalhistas das transportadoras. 

Contudo, um dos pontos mais criticados pelos especialistas foi a chegada ao Porto de Santos, que ocorre por apenas um único acesso, incompatível com um complexo de tamanha magnitude. Embora haja projetos para amenizar a situação, em especial obras no Viaduto Alemoa, nada ainda foi realizado. 
Ilha Barnabé

Na margem esquerda do Porto de Santos fica a Ilha Barnabé, que é um terminal de tancagem de produtos químicos, servido por uma única via de acesso de mão dupla cercada de vegetação e pouco sinalizada. Essa, na avaliação dos especialistas, é outro grande gargalo.

“Qualquer acidente que aconteça ali, você está perto de áreas de mangue. Existe uma necessidade de melhorar o espaço e a modernização para poder comportar isso”, diz Lattanzi.

Situação parecida ocorre na Rua Idalino Pinez, conhecida como Rua do Adubo, que serve à margem esquerda do porto, forçando caminhões e outros veículos de grande porte a dividir o espaço com casas, população e carros de passeio. 

“Depois de anos de discussão sobre a Poligonal do Porto de Santos, não se sabe se a Rua do Adubo, que é o único acesso para o maior terminal de Santos, tem de ser administrada pela prefeitura de Guarujá ou pela Codesp” destacou o presidente da Associação Brasileira de Terminais Retroportuários e das Empresas Transportadoras de Contêineres (ABTTC), Martin Aaron.

A poligonal é uma área de delimitação em volta do Porto de Santos que define a jurisdição da Autoridade Portuária. Na prática, significa dizer que o que está dentro da poligonal é de responsabilidade da Autoridade Portuária, portanto, da União, e o que está fora fica aos cuidados da prefeitura ou do estado.

“Temos que buscar soluções. Nos últimos anos, foram feitos R$ 4,8 bilhões de investimento só no complexo no entorno do Porto de Santos. Mas há muito que melhorar e temos que buscar soluções para isso”, destacou o engenheiro Rubens Cahin, da coordenação de programas rodoviários do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER). 

Ele revelou ainda que a Secretaria de Logística e Transporte está iniciando uma atualização do planejamento logístico para os próximos 30 anos, voltado para a área metropolitana de São Paulo. 

Outras soluções discutidas no encontro foram: Avenida Perimetral Portuária de Santos (Alemoa/Saboó); Avenida Perimetral Portuária de Santos (2º entrada do porto); estacionamento rotativo de caminhões e readequação de linhas férreas; Avenida Perimetral da margem direita (reurbanização da bacia do canal 4); Avenida Perimetral da margem esquerda; e duplicação do acesso rodoviário da Ilha barnabé.

Ao longo dos próximos meses, a ACSP organizará novas reuniões para discutir o Porto de Santos.

IMAGEM: Thinkstock