Negócios

Fundos têm R$ 1,5 bi para investir em empresas de médio porte


A Creme Mel, fabricante de sorvetes, fundada por Antônio Santos (foto), expandiu a venda de picolés após se tornar sócia do fundo americano H.I.G, líder global em private equity


  Por Fátima Fernandes 29 de Setembro de 2016 às 08:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


O empresário Antônio Benedito dos Santos, 63 anos, fundador da Creme Mel, maior fabricante de sorvetes da região Centro-Oeste, com sede em Goiânia (GO), decidiu dar uma virada nos rumos da empresa em 2013.

Ex-motorista de ônibus, que começou o próprio negócio vendendo picolés, Santos aceitou a proposta de um dos fundos de investimentos mais ativos no país, o americano H.I.G. Capital, para se tornar sócio de sua empresa, fundada em 1987.

Durante 16 anos, Santos tocou a empresa sozinho. Em 2003, acabou convidando Odilon Santos, seu ex-patrão na empresa de ônibus Transbrasiliana, que havia se tornado seu fornecedor de leite, para a sociedade.

A certa altura, a dupla já não davam mais conta do negócio. “Entre 2003 a 2013 a Creme Mel crescera ao ritmo de 20% a 25% a cada ano", afirma. "Precisávamos do apoio de quem sabia administrar uma empresa de grande porte”.

Em 2011, a receita da empresa aproximava-se de R$ 100 milhões, segundo informação divulgada na época.

O fundo H.I.G é líder mundial em private equity no mundo, com cerca de US$ 20 bilhões de capital sob gestão. No Brasil, é considerado hoje o maior fundo voltado para empresas de médio porte.

O H.I.G chegou ao país em 2012 e, desde então, investiu em empresas de software (E-Guru Serviços em Tecnologia Educacional), fabricantes de soros (Halex Istar e Isofarma), mídia interativa (Eletromidia), escola de inglês (Cel-Lep), academia (Self It Academias) e rede de sapatos (Mr. Cat).

Dois anos depois da parceria com o H.I.G, a Creme Mel adquiriu a rede Zeca´s, com sede em Recife (PE), a maior fabricante de sorvetes do Nordeste, tornando-se uma das maiores indústrias de sorvete do Brasil -um mercado que consome 1,2 bilhão de litros por ano,  liderado pela anglo-holandesa Unilever (Kibon) e a suíça Nestlé.

A Creme Mel informa atender hoje à demanda de 250 mil picolés e 45 mil litros de sorvetes por dia, e está presente em 30 mil pontos de venda em 17 Estados brasileiros. Junto com a rede Zeca’s, a companhia emprega 1,4 mil funcionários.

Não é novidade que, com a recessão, o apetite de boa parte dos fundos diminuiu, a ponto de várias negociações, que estavam quase fechadas, terem sido interrompidas.

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Nos últimos tempos, porém, o apetite foi despertado, de acordo com Guilherme Stuart, sócio-diretor da RGS Partners, uma butique especializada em fusões e aquisições, que aproxima gestores de private equity de empresas com potencial para receber os recursos.

O escritório de advocacia MHM, especializado em fusões e aquisições, também notou o movimento.  “A percepção do investidor estrangeiro sobre o Brasil mudou", diz Byung Soo Hong, sócio do escritório. "Há um movimento de volta às compras, principalmente para aproveitar o fato de que a taxa de câmbio continua desvalorizada.”

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Há ao menos vinte fundos, que possuem hoje aproximadamente R$ 1,5 bilhão, para investir em empresas de pequeno e médio portes, principalmente no varejo, de acordo com Stuart.

STUART: VOLTOU O APETITE DOS FUNDOS PARA INVESTIR/Foto: Fátima Fernandes

Recentemente, somente o H.I.G anunciou a captação privada de US$ 740 milhões para investimentos em empresas de médio e pequeno porte na América Latina, com foco no Brasil.

E a Porto Seguro acabou de criar o Porto Capital, para investir em empresas de consumo, educação, saúde e tecnologia.

A rasteira que as finanças de companhias brasileiras levaram com a crise foi feia.

Centenas de empresas dos mais variados setores tiveram de recorrer à Justiça (com pedidos de recuperação judicial) para tentar equilibrar as contas ou, simplesmente, fecharam as portas.

As que conseguiram passar por esse processo sem se machucar muito, na avaliação de Stuart, têm agora a opção de ter um fundo de investimento como sócio e dar uma arrancada no momento em que a economia esboça sinais de recuperação.

Quais os setores atualmente mais atraentes para as gestoras de fundos no Brasil e que requisitos que as empresas precisam preencher para ter um fundo como sócio?

De acordo com Stuart, fabricantes regionais de alimentos, como a Creme Mel. Entre outros segmentos na mira dos fundos destacam-se revendas de autopeças, fabricantes produtos "saudáveis" e suplementos, rações e acessórios para animais e farmácias.

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“O Brasil nunca passou por uma crise como esta e com as empresas tão endividadas", ele afirma. "Quem sobreviveu bem à recessão é aquele empresário que tinha aversão a banco, que é exatamente o perfil de empreendedor que os fundos procuram neste momento.”

No setor de alimentos, segundo Stuart, as empresas que mais atraem os fundos são aquelas em crescimento e que operam em nichos de mercado. A GNC, a maior rede de lojas de suplementos alimentares dos Estados Unidos, é um bom exemplo, diz ele.

O varejo de revenda de peças interessa porque é um dos que menos sofreram com a crise, já que o consumidor trocou a compra do carro novo pelo usado.

As lojas de produtos para pets e farmácias têm grande potencial de expansão no país.

EBITDA DE R$ 15 MILHÕES

Qualquer que seja o setor, o foco dos fundos é investir em empresas com Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) mínimo de R$ 15 milhões por ano.

Há empresas que obtêm esse lucro com faturamento anual de R$ 50 milhões. Outra, com receita anual de R$ 500 milhões.

Para Fernando Marques Oliveira, presidente do fundo H.I.G Brasil e América Latina, a receita da companhia, na verdade, é o que menos importa para os gestores de privaty equity.

Além de Ebitda mínimo de R$ 15 milhões, os fundos também observam a vantagem competitiva do alvo em relação aos concorrentes, os planos de expansão e a gestão.

Para atrair o interesse dos gestores de private equity, no caso de redes de lojas, diz Stuart, a empresa precisa exibir ainda um faturamento por metro quadrado crescente em relação ao mês anterior e ao ano anterior, mesmo em período de crise.

Parece impensável localizar hoje no mercado brasileiro uma empresa nessas condições -mas não somente existem, como têm mantido contatos com Stuart.

Não são somente os fundos buscam as empresas. As empresas também estão olhando os gestores de private equity porque oferta de crédito dos bancos diminuiu e o custo do dinheiro encareceu com a crise.

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FORA DO RADAR

Assim como existem segmentos prioritários, há outros que os gestores de private equity preferem nem olhar. Estão fora do radar supermercados e as redes de vestuário e de eletroeletrônicos.

“São segmentos muito atrelados ao desempenho da economia", diz Stuart. "Pode ser que haja alguma empresa interessante porque opera em um nicho para atender uma demanda específica.”

O varejo de supermercados já está consolidado. "Os players estratégicos é que vão ditar o movimento do setor. É difícil um fundo de investimento entrar nesse processo”, afirma Hong.

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Há vários fundos de investimento nacionais e estrangeiros com participação no varejo brasileiro, como Vinci Partners (Le Biscuit), Warburg Pincus e Advent (Le Lis Blanc, Dudalina, Rocha Chá), General Atlantic (Pague Menos) e Carlyle (Ri Happy).

O Warbur Pincus também é sócio da rede Petz e o Advent, da Quero Quero, especializada em material de construção.

De acordo com estudo da Abvcap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital, com base em informações de 110 gestores de recursos nacionais e estrangeiros, os fundos tinham, em 2015, R$ 153,2 bilhões em capital comprometido para investimentos no país.

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Os setores de saúde, farmácia e educação foram os que mais receberam investimentos dos fundos em 2015, consumindo 50% do total de recursos. O setor de varejo ficou com uma fatia de 11%. Veja abaixo a participação de cada setor.