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Frio não aquece vendas do comércio de rua


Depois de um primeiro trimestre estável, lojistas do Brás tiveram uma queda de 15% em abril e maio ante o mesmo período de 2017


  Por Mariana Missiaggia 25 de Maio de 2018 às 12:05

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Considerado um bom aliado do comércio, o frio tem o hábito de movimentar consumidores em busca de peças de vestuário para se aquecer na temporada de outono/ inverno. Mas, ao que parece, desta vez a história mudou.

Após uma semana com os termômetros em queda, os lojistas da região do Brás, onde há cerca de 55 ruas comerciais, ainda não sentiram nenhuma melhora no ânimo dos consumidores para as compras.

Enquanto o balanço de vendas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) aponte que o movimento de vendas do comércio varejista paulistano subiu em média 4,5% em abril na comparação com o mesmo mês do ano passado, lojistas da região revelam que a demanda por vestuário tem sido pouco significativa.

Em abril, os preços das roupas subiram 0,62% de acordo com IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE. Já as roupas femininas ficaram, em média, 1,66% mais caras.

No entanto, Nelson Tranquez, sócio-proprietário da Loony Jeans e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro, diz que boa parte dos preços está abaixo dos valores do ano passado.

O fraco movimento, porém, não pode ser extrapolado para as grandes redes de vestuário. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, José Galló, presidente da Renner, disse que a chegada das frentes frias na região Centro-Sul quase colocaram a rede na meta para o trimestre.

De acordo com o executivo, em dias frios as lojas chegam a vender de 30% a 40% mais volumes.

Embora o primeiro trimestre tenha sido estável em volume de vendas, Érica Gandal, coordenadora de vendas da Ancona, no Bom Retiro, desconfia que muitos lojistas tenham aproveitado para abastecer suas lojas com as sobras do Natal, quando havia descontos de até 80%.

TRANQUEZ: LOJAS ESTÃO VENDENDO 15% A MENOS QUE EM 2017

“Observamos que nossos clientes lojistas levaram um mix mais diversificado de roupas, no início do ano. De repente, já pensando em ter estoque até julho”, diz Érica.

Para driblar a baixa, a confecção tem usado exaustivamente o Instagram e o aplicativo WhatsApp para chamar a atenção dos mil clientes cadastrados pelo país. A estratégia tem sido boa para fisgar novos clientes, segundo a coordenadora.

Ociosas dentro da loja física, as três vendedoras da Ancona passam o dia checando os celulares, respondendo dúvidas de clientes e enviando fotos – um trabalho de formiguinha, na opinião de Érica, mas que tem muito potencial.

Utilizar o Whatsapp e Instagram para aumentar as vendas já faz parte da realidade de muitas empresas varejistas. De acordo com um relatório da startup Opinion Box e do portal Mobile Time, a ferramenta é usada diariamente por 89% dos usuários de smartphones no país.

DATAS COMEMORATIVAS

Quem apostava no movimento de Dia das Mães para salvar os números do segundo trimestre acabou se frustrando. Tranquez diz que as lojas da região do Brás e do Bom Retiro estão vendendo 15% abaixo da média esperada para os meses de abril e maio.

“Da nossa parte, já não há mais o que fazer. Cortamos custos, enxugamos o quadro de funcionários e a produção. Estamos trabalhando no limite”, diz o gerente da Loony.

Nem mesmo o Dia das Mães, que é a data mais significativa para o comércio depois do Natal, ajudou os comerciantes. Idalina Bueno, gerente de estoque da loja Karmona, na rua Oriente, diz que 80% das peças que estavam separadas para a data ficaram encalhadas.

As roupas mais vendidas, segundo Idalina, foram as da coleção passada, que já estavam remarcadas com 20% ou 30% de desconto. Ela também cita que os dias que antecederam a comemoração foram muito quentes e estimularam a comercialização de peças da coleção do último verão.

LOJAS DO BRÁS E DO BOM RETIRO ESTÃO VAZIAS. DIA
DAS MÃES FOI FRACO

Faltando pouco mais de duas semanas para o Dia dos Namorados, Tranquez diz que não está otimista para a data que é pouco representativa para as lojas da região.

Com a vitrine repleta de casacos, blusas de lã, calças de couro e vestidos de tricô, a Miss Billa, na rua Silva Telles, não pretende antecipar as promoções da coleção atual para atrair os namorados.

Jason de Oliveira, gerente da loja diz que os lojistas estão comprando o mínimo possível e que os clientes de varejo dão mais preferência a facilidades no pagamento do que para desconto.

Ele torce para que o frio se estenda pelas próximas semanas. “Ano passado, a primeira queda de temperatura já animou os clientes. Neste ano, não movimentou nada”, diz.

FÔLEGO EM 2017

Tranquez recorda que em 2017, as vendas tiveram um fôlego a mais por conta do saque das contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). O recuo da inflação e a liberação das contas inativas incentivaram os paulistas a comprarem mais itens durante o primeiro semestre do ano e injetaram R$ 7,2 bi no varejo.

A confiança do consumidor também se manteve em alta até maio, quando veio à tona a delação do dono da JBS, Joesley Batista, envolvendo o presidente Michel Temer.

Além disso, o gerente da Miss Billa, diz que os feriados do ano passado levaram muitos turistas para as rua do Brás, bem diferente do que tem acontecido esse ano. Oliveira atribui o fraco desempenho ao mercado de trabalho. De acordo com o Dieese, já são quase 14 milhões de desempregados.