Negócios

Faturamento real das empresas de atacado recua 6,8% em 2015


Aumento da inflação e do desemprego e cenário político-econômico tiveram impacto nas vendas e na rentabilidade das empresas, de acordo com a ABAD, associação do setor


  Por Fátima Fernandes 25 de Abril de 2016 às 12:01

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Há um ano, os atacadistas comemoravam o fato de ter obtido crescimento real de 0,9% em 2014, acima do PIB (0,1%), na comparação com 2013, tal como nos anos anteriores.

Trata-se de um setor responsável por abastecer pouco mais de 50% do comércio de pequeno porte com produtos essenciais, como alimentos e artigos de higiene pessoal e limpeza.

No ano passado, porém, a tradição de crescer acima do PIB foi interrompida. Os atacadistas faturaram R$ 218,4 bilhões, que correspondeu a uma queda real (descontada a inflação) de 6,8% em relação a 2014. A receita nominal cresceu 3,1%, no período.

É o que revela levantamento da ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores), junto a 544 empresas, que representam cerca de 42% do mercado atacadista distribuidor.

O aumento da inflação e do desemprego e o cenário político-econômico são as causas principais apontadas pelos atacadistas para explicar a queda de faturamento real do setor.

Em 2015, o consumo das famílias caiu 4% e a renda média real do trabalhador, 6%, de acordo com o IBGE. As empresas do setor tiveram de lidar, de acordo com a ABAD, com um consumidor mais seletivo e em busca de ofertas.

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“A necessidade impele o empresário a colocar a casa em ordem e a preparar o negócio para um novo salto de crescimento sustentado, assim que a economia mostrar alguma recuperação”, afirma José do Egito Frota Lopes Filho, presidente da ABAD.

O modelo de atacado de autosserviço, o chamado atacarejo, que atende empresas e consumidores, obteve, no entanto, crescimento no período.

De acordo com a ABAD, o faturamento nominal dos atacarejos cresceu 12% no ano passado sobre 2014. Considerando a inflação um pouco superior a 10%, os atacarejos ainda apresentam crescimento real de receita.

Apesar de ser este um modelo de negócio em crescimento, a diretoria da ABAD lembra que o consumidor continua racionalizando compras, trocando marcas mais caras por mais baratas e até deixando de adquirir produtos que aprendeu a consumir durante a expansão econômica.

De acordo com estudos de economistas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a contração das vendas é cada vez mais disseminada neste ano, com exceção de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, que, pelo fato de serem imprescindíveis, ainda resistem à crise.

Já o setor de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que também pertence à categoria de itens de consumo básico, não está resistindo às expressivas diminuições da renda e do emprego e à elevada inflação dos alimentos.

A perspectiva para os próximos meses é de continuidade da contração das vendas do varejo, porém possivelmente de forma mais atenuada, devido principalmente à menor base de comparação do ano passado.

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“Não é fácil um setor crescer com inflação de 10% em um ambiente no qual o consumidor troca produtos de preços mais altos por produtos de preços mais baixos. Mas o setor vai continuar tocando o negócio porque o Brasil  não vai acabar”, diz Nelson Barrizzelli, consultor de varejo.

Das empresas que participaram do levantamento da ABAD, as localizadas na região Norte apresentaram maior crescimento médio nominal, de 9,8%, seguidas por atacadistas das regiões Centro-Oeste (7,9%), Sul (6,8%), Nordeste (6,3%) e Sudeste (3,7%).

Os pequenos atacadistas, com faturamento anual entre R$ 400 mil e R$ 163 milhões, obtiveram crescimento médio de 7,6%, no período. Aqueles com faturamento entre R$ 166 milhões e R$ 1,4 bilhão aumentaram a receita em 7,9%, em média.

No levantamento conduzido no ano passado, a ABAD constatou certo grau de otimismo em relação às projeções para 2015. A maioria dos atacadistas esperava aumentar o faturamento, o volume de vendas, a rentabilidade, a base de clientes e os investimentos.

Apesar de o desempenho dos negócios ter sido pior do que eles previam para 2015, neste ano, os empresários consultados pela ABAD ainda mantêm algum otimismo em relação a 2016.

A expectativa é de manter investimentos, em vez de ampliar, e obter menor aumento de rentabilidade.

"Não adianta o setor tomar decisões com base na conjuntura. Mesmo que demore um pouco, o país vai voltar a crescer, e as empresas terão de estar preparadas para isso", diz Barrizzelli.

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