Negócios

Estável, mercado de semijoias quer brilhar mais


Habituado a registrar crescimento anual de até 15%, o setor não repetiu o feito em 2015 - mas ainda é considerado um dos mais promissores em meio à crise, sem registrar perdas


  Por Mariana Missiaggia 06 de Junho de 2016 às 09:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Há cinco anos, quando a empresa em que Kadija Martins, 27 anos, farmacêutica, trabalhava anunciou que deixaria a capital, e passaria a funcionar em outra cidade, ela decidiu que sua vida profissional tomaria um rumo diferente do que ela havia planejado.

Sem experiência em outras áreas, ela decidiu que queria empreender. Kadija cogitou trabalhar com assessoria para eventos e aluguel de peças para decoração, até se decidir pelo ramo de acessórios.

No famoso boca a boca, ela realizou as primeiras vendas de brincos, colares e pulseiras. Entre suas primeiras clientes estava a estilista de um dos maiores e-commerces do país - a porta de entrada para o seu primeiro cliente jurídico. Foi então, que o volume de produção ganhou um ritmo mais acelerado, e o negócio se tornou rentável com a conquista de novas parcerias.

Como todo microempreendedor individual, Kadija ainda é receosa em relação a um e-commerce ou abrir uma loja física. “Fico barrada nos investimentos e no prazo de retorno. E não é assunto que domino, gosto mais da parte de desenvolvimento e produção”, diz. 

UMA DAS PEÇAS DE KADIJA MARTINS

“Com a crise, as consumidoras finais que antes realizavam compras de R$ 300, reduziram o gasto pela metade e com um desses dois canais, com certeza, o faturamento seria maior”.
 
Considerado um dos negócios mais promissores para 2016 pelo Sebrae-SP, o mercado global de acessórios, que inclui bolsas, relógios, joias, bijuterias e instrumentos de escrita, como canetas e lapiseiras, movimentou US$ 527 bilhões em 2015, segundo a Euromonitor.

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No Brasil, as vendas de peças nacionais crescem, enquanto as importadas registram queda acima de dois dígitos, de acordo com a consultoria. Em 2015, o crescimento nas vendas de produções brasileiras foi de 7,2% (sem contar a inflação), chegando a R$ 28,6 bilhões. 

Além disso, a categoria de moda e acessórios foi a que mais vendeu na internet em 2015, em volume de pedidos.  Estima-se que o Brasil tenha 3 mil empresas de semijoias e bijuterias, e que juntas, elas somem um faturamento superior a R$ 600 milhões.

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O sucesso no ramo está ligado à capacidade do empresário em acompanhar a moda e explorar vários canais de vendas. A afirmação é de Beatriz Micheletto, 42 anos, consultora de marketing e vendas do Sebrae-SP. De acordo com a consultora, o mercado se comporta bem por oferecer opções com bons preços.

Assim como os empresários especializados, os de vestuário também apostam no ramo. Com a popularização do e-commerce no Brasil, as peças oferecidas são compostas em looks para atrair mais vendas.  

“Uma blusa simples se torna mais valorizada com um belo colar, e o varejo de moda já percebeu isso. Apostar em parcerias com lojas de roupas pode funcionar bem para aumentar o faturamento”, diz.

Beatriz explica que peças clássicas, com cara de joia, alta durabilidade, excelente acabamento, sem níquel, solda perfeita e banho bem feito são as preferidas dos consumidores em período de crise. 

“Ninguém quer investir em objeto de moda porque existe um cenário geral pessimista, que deixa o consumidor receoso. Mas, sem dúvida, quem faz direito, tem mercado. O importante é ter boa qualidade”.

CAPITAL DA SEMIJOIA

Rodolfo Dib Mereb Júnior, presidente da ALJ ( Associação Limeirense de Joias) discorda. Limeira, a 140 quilômetros de São Paulo, é considerada a capital da semijoia e se destaca como principal polo fabricante de bijuterias e joias folheadas a ouro do Estado. 

MEREB, DA ALJ, QUER REGISTRAR CRESCIMENTO COM EXPORTAÇÃO

Desde o início de 2015, quem fabrica e vende na cidade não registra crescimento, que até o fim e 2014, chegava a até 15% ao ano. “Não temos quedas, mas também não teve aumento.”

Além de responder por mais da metade da produção nacional do setor, o município está entre os três maiores centros industriais especializados no país. No total, são 500 indústrias formalizadas (95% de micro e pequeno porte), e 400 lojas em 25 galerias, gerando 10 mil empregos diretos e 30 mil indiretos. 

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Responsável por 70% da exportação nacional e por 90% da estadual, o polo exporta para cerca de 20 países e os principais mercados estão na América Latina.

Esse é um dos caminhos em que Mereb, também empresário do setor, aponta como estratégia para aumentar a receita. A tentativa de conquistar um mercado com alto poder aquisitivo e preferência por joias em ouro e prata, em países como o Líbano, Emirados e Catar surge como uma oportunidade já que o árabe ainda não tem afinidade com a joia folheada. 

“Talvez o passaporte do nosso produto seja o turista que movimenta grande parte desta economia e nem sempre está disposto a gastar muito", diz. “No entanto, só veremos possíveis resultados no final desse ano”. 

COMO TUDO COMEÇOU

A vocação da cidade começou com uma pequena oficina de consertos de joias, fundada por João Martins Cardoso, em 1938. Em pouco tempo, a loja erguida pelo patriarca foi transformada em uma indústria por seus filhos Eduardo Urbano Cardoso e Sylvio Cavasin. Dedicada à produção industrial de joias, era considerada, na época, a maior empresa do setor no país, com mais de 100 funcionários.

UMA DAS LOJAS DA AVENIDA COSTA E SILVA - ENDEREÇO ESPECIALIZADO EM SEMIJOIAS, EM LIMEIRA

Anos mais tarde, os negócios dos Cardoso entraram em declínio e, na década de 1960, de desempregados surgiram empreendedores. Em meio a um período de instabilidade econômica no país, a procura por joias reduziu muito por conta do preço do ouro.

Foi então, que muitos dos antigos funcionários da empresa abriram pequenas indústrias de joias folheadas a fim de oferecer produtos mais baratos do que os feitos de ouro, as semijoias. 

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Para José França Almirall, vice-presidente da Acil (Associação Comercial de Limeira), é importante que Prefeitura, indústria e comércio atuem de forma unificada em ações coletivas para fomentar o turismo de negócios na cidade. Almirall também destaca a importância do associativismo, uma vez que quase a totalidade dos fabricantes é formada por micro e pequenos empresários. 

“Como o setor movimento bem a economia local é vital para nossa existência produzir em grande escala para vislumbrar outras possibilidades, como clientes maiores”, afirma. “Existe toda uma cadeia que orbita em torno desse mercado, e que deve ser estimulada”.

*FOTO: Thinkstock