Negócios

Essas voluntárias têm uma história para contar


Atuantes no Conselho da Mulher Empresária da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), elas relatam sua trajetória no mundo dos negócios


  Por Mariana Missiaggia 08 de Março de 2019 às 15:30

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Direito ao voto, cursar uma faculdade, ingresso no mercado de trabalho. Essas e outras ações tão triviais nos dias de hoje foram conquistadas a duras penas pelas mulheres no passado.

Ao longo das últimas décadas, a mulher conquistou espaço em diferentes campos e, desde então, acumula os papéis de profissional, mãe e dona de casa. Uma jornada que não tem fim.

Família, trabalho e afazeres domésticos não são os únicos traços comuns nas histórias de boa parte das mulheres. Algumas delas engrossam a lista de brasileiras que têm se lançado em um cenário em ascensão: o do empreendedorismo feminino.

Hoje, as 9,3 milhões de mulheres empresárias representam 34% de todos os donos de negócios formais ou informais no Brasil, de acordo com recente estudo do Sebrae. A seguir, histórias de empreendedoras e atuantes voluntárias no Conselho da Mulher Empresária, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)

A EDUCADORA

VICTÓRIA FUNDOU A PRIMA ESCOLA MONTESSORI

Há 36 anos, a administradora e pedagoga Victória Ayroza Saracchi, 70 anos, realizou um grande sonho: abriu a sua própria escola em sociedade com outras quatro amigas – a Prima Escola Montessori.

Na época, todas formadas no magistério, eram professoras de educação infantil e adeptas da metodologia montessoriana. Juntas, produziam materiais gráficos e outras peças em madeira para usar em sala de aula. O que não conseguiam construir sozinhas, desenvolviam em parceria com uma fabricante.

Em paralelo, tentavam comercializar tudo o que criavam para outras escolas e educadores. “Mas não éramos vendedoras e sim educadoras. E só educando poderíamos demonstrar de que forma esse material poderia ser usado”.

Foi a partir dessa percepção que decidiram ter seu próprio espaço de ensino. O sonho se concretizou em um imóvel rodeado de área verde, na Vila Nova Caledônia, zona sul de São Paulo.

Tudo começou com apenas três turmas de berçário. “Nós cinco fazíamos literalmente tudo no início, e aos poucos fomos crescendo”, diz.

Hoje, apenas três das cinco sócias comandam o negócio, que além da educação infantil, oferece também turmas até o ensino fundamental II. Nas palavras de Victória, o Montessori consiste em diagnosticar de forma individual as habilidades específicas que precisam ser estimuladas em cada criança.

Anos depois, Victória se formou em administração e passou a interagir com um mundo em que a presença masculina predominava. Passou a fazer parte da diretoria e do conselho deliberativo da Associação Comercial de São Paulo. Foi a segunda mulher a assumir a superintendência de uma distrital e também atua no Conselho da Mulher Empresária da entidade, fundado em junho de 1995.

“Conquistar espaço, disputar mercado e negociar com homens não é a nossa principal dificuldade. Mas, sim acumular papéis. Minha maior dificuldade no empreendedorismo foi dar sequência a meu papel de mãe e esposa”, diz.

Com a ampliação da Prima Escola Montessori, cada sócia se tornou responsável por uma tarefa. À Victória cabe a parte administrativa. A empreendedora conta que quando começou a gerir uma escola percebeu a importância de ter uma visão mais pessoal sobre a equipe que liderava, que vai desde a limpeza até o trabalho dos professores.

Atualmente, ela já enxerga sua função como algo mais empresarial, uma vez que o ramo da educação ganhou muita qualidade e competitividade.

“Mesmo pensando no lado financeiro, optamos por não ter um grande número de alunos porque queremos reunir condições para manter o atendimento individual”, diz.

Em termos de expansão, a educadora diz que o momento é de pesquisa para possíveis novas unidades no interior do Estado, para onde muitos paulistanos estão indo.

CONSELHO DA MULHER

Há 12 anos, a empresária Adriane Zagari, 40 anos, administra a empresa que fundou em 2006, a HZ Eventos.

ADRIANE É EMPRESÁRIA DO RAMO DE EVENTOS E
COORDENA O CONSELHO DA MULHER DA ACSP

Na época, Adriane trabalhava como recepcionista e cursava Direito, quando soube que estava grávida. A novidade deu um novo rumo à carreira. Abandonou a advocacia e deu início a um novo negócio na área de eventos.

“Precisava ter conhecimento sobre o mercado em que atuaria e dominava o de eventos. Sabia que a área precisava de boa capacitação e eu poderia oferecer isso. Sem saber, com meu trabalho fui abrindo portas para futuros clientes”.

Com a HZ Eventos, Adriane promove centenas de eventos para diferentes setores, como, por exemplo, o Salão do Automóvel, para o qual costuma contratar entre 45 e 50 pessoas só para a equipe de apoio, além de 380 modelos.

Com uma rotina muito dinâmica, há dois anos Adriane também se dedica a coordenar o Conselho da Mulher Empresária da ACSP.

De acordo com Adriane, o Conselho articula parcerias e implementa ações importantes, especialmente para as mulheres que se encontram em situação de vulnerabilidade social.

Ao lado de um grupo de mulheres empresárias, Adriane conduz diversos projetos, inclusive para orientar mulheres a formalizar e administrar seus negócios.

Um deles, em parceria com o Consulado da Mulher, busca mulheres que trabalham em pontos de ônibus vendendo café e que precisam de capacitação.

“Trazemos essas mulheres para o Conselho e preparamos atividades para mostrar o que elas podem fazer desde o começo para aperfeiçoar suas atividades com ações de marketing e finanças”, diz.

“Falamos sobre a importância de formalizar o negócio e, no final, elas saem da situação de “nanoempreendedoras” para se tornarem MEIs e passam a ter mais direitos”.

A empresária recorda que quando decidiu empreender, foi justamente em entidades como a ACSP e Sebrae que ela encontrou apoio para lidar com questões confusas para ela, como a parte tributária e financeira.

“Reconheço a importância disso e quero que outras mulheres tenham a mesma oportunidade”, diz.

TATIANE FUNDOU UM ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA
E COORDENA O CONSELHO NA DISTRITAL SUL

Foi em sintonia com esse propósito que Tatiane Moleiro, 34 anos, advogada, também chegou ao Conselho da Mulher Empresária, que atualmente coordena na Distrital Sul da ACSP.

Nascida em uma família de comerciantes, Tatiane diz ter começado a empreender aos nove anos quando já vendia lingerie para as amigas do colégio em busca de independência financeira. Aos doze anos, se juntou a outras três amigas para também vender bijuterias e bonecas.

No entanto, dois anos mais tarde foi impedida pelo diretor do colégio de seguir com as vendas. Para não perder a renda extra, Tatiane começou a dar aulas particulares de inglês e português.

“Cobrava R$ 40 por aula e segui assim por quatro anos até entrar na faculdade de direito e ser contratada por um escritório”, diz.

Um ano depois, entrou para uma multinacional onde ficou por dez anos até chegar ao cargo de gerente de compliance. Mesmo com o emprego formal, não abandonou a vida de vendedora. Em paralelo, comercializava roupas e bijuterias.

Há três anos, deixou o mercado de trabalho para abrir o próprio escritório de advocacia, em Santo Amaro e se dedicar a um projeto pessoal – um instituto que presta assistência a mulheres em situação de vunerabilidade.

“Temos a oportunidade de fomentar possíveis negócios e ajudar potenciais empresárias e empreendedoras. O protagonismo da mulher está cada vez mais em evidência - podemos ser mães, empresárias e mulheres. Somos dinâmicas, inteligentes, criativas e juntas somos mais fortes”, diz.