Negócios

Empresários e trabalhadores se unem contra fechamento do comércio


Lojistas e donos de restaurantes temem quebradeira geral de empresas e desemprego em massa


  Por Fátima Fernandes 27 de Janeiro de 2021 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Com quase seis décadas, a Fascar, rede especializada em sapatos masculinos, se prepara para fechar cinco de suas 21 lojas em shopping centers até o final de março.

A MOB, rede com 37 lojas de roupas femininas, já fechou quatro nos últimos meses e, nesta semana, encerra a atividade da quinta loja no shopping Vila Olímpia, em São Paulo.

Esses dois casos ilustram o que está acontecendo no comércio em todo o país. Os lojistas que resistiram a 2020 começam este ano fazendo conta para ver se é possível manter o negócio.

“Os shoppings não estão dando abertura para negociar. É melhor fechar as lojas deficitárias do que trabalhar com prejuízo”, diz Rafael Borges de Souza, sócio da Fascar.

“A loja da Vila Olímpia está faturando 17% do valor de antes da pandemia do novo coronavírus. Não dá nem para pagar o custo”, afirma Ângelo Campos, sócio da MOB.

RESTRIÇÕES

As restrições impostas pelo governo do Estado de São Paulo, como o fechamento de lojas e restaurantes nos fins de semana, vão piorar ainda mais a situação financeira dos empresários.

É justamente no sábado e no domingo que as lojas faturam pelo menos 35% a 40% mais do que em um dia de semana. No caso de restaurantes, a receita chega a dobrar.

“É um absurdo o que está sendo feito com o comerciante. No final de semana, a venda é maior do que durante a semana”, afirma David Bobrow, sócio da Tip Top, rede com 120 lojas.

Quase todas as lojas da Tip Top são franqueadas. Bobrow diz que está ajudando como pode o franqueado, com a redução de royalties pelo uso da marca e o parcelamento sem juros.

“Agora estamos conversando caso a caso. A região Centro-Oeste do país está melhor. As lojas de São Paulo e Rio estão sofrendo mais desde o começo da pandemia”, diz.

NEGOCIAÇÕES

Os lojistas de shoppings estão numa queda de braço com os administradores, como os grupos Iguatemi, Multiplan e Brookfield, desde que a pandemia começou, há quase um ano.

De acordo com eles, as negociações são difíceis, pois nem o 13º aluguel os shoppings abrem mão em um ano em que o comércio ficou fechado durante quase quatro meses e as vendas passaram a ser 60% do que eram antes da pandemia.

O Diário do Comércio teve acesso a um e-mail da superintendência do shopping Morumbi, da Multiplan, para um lojista que pedia a isenção do 13º aluguel.

A resposta foi a seguinte: a cobrança será feita e só será possível, após análise da Multiplan, o parcelamento do aluguel em duas vezes, em fevereiro e março, e com correção.

Em e-mail enviado a um lojista do Pátio Paulista, representante comercial do shopping também nega pedido para rever contrato de locação neste mês.

Em nota encaminhada à imprensa, a Abrasce, associação que reúne os shoppings, informa que, desde o início da pandemia, o setor sempre esteve aberto ao diálogo, buscando entender a realidade dos lojistas, caso a caso.

Informa ainda que os shoppings são ambientes seguros e que irão apoiar a vacinação, contribuindo com a logística de imunização por meio de 577 empreendimentos no país.

QUEBRADEIRA E DEMISSÕES

Lojistas e donos de restaurantes estão prevendo uma quebradeira geral de empresas e demissões em massa, caso o governo paulista não minimize as restrições.

Durante o pico da pandemia, no segundo trimestre de 2020, um cenário parecido com o atual, o comércio deixou de faturar R$ 91 bilhões no país, de acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio).

Em São Paulo, a perda foi de R$ 32 bilhões, no Rio de Janeiro, de R$ 7,6 bilhões, e no Rio Grande do Sul e na Bahia, de R$ 6,6 bilhões e R$ 6,3 bilhões, respectivamente.

Cerca de 135 mil lojas fecharam as portas no segundo trimestre de 2020, que deve ter encerrado com saldo negativo entre abertura e fechamento de empresas, de acordo com a CNC.

“É claro que há necessidade de controlar a pandemia, mas o comércio não pode pagar o preço pela desarticulação no enfrentamento da covid-19”, afirma Fábio Bentes, economista da CNC.

Os pequenos empresários, diz ele, dependem do faturamento do mês para pagar fornecedores, funcionários e levar algum dinheiro para casa.

“É um absurdo fechar o comércio no final de semana. As lojas ficaram fechadas no Natal e no Ano Novo e a contaminação cresceu no período”, afirma Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

O comércio brasileiro já enfrentou muitas crises, diz ele, com o fechamento de milhares de lojas, mas nunca provocadas pelo governo, como agora.

“As crises eram de mercado. Agora, as empresas estão quebrando por imposição da lei”, diz.

RESTAURANTES

Sexta-feira à noite, sábado e domingo são dias que representam mais de 70% do faturamento da semana de bares e restaurantes, de acordo com Percival Maricato, presidente da Abrasel-SP, associação que reúne as empresas do setor.

“Para o nosso setor, essa restrição de funcionamento é dramática. Estamos sendo sacrificados inutilmente. A proliferação do vírus não ocorre em restaurantes, mas, sim, em locais clandestinos que estão abrindo em garagens, fundos de lojas, na periferia”, diz ele.

De acordo com a Abrasel-SP, cerca de 70 mil restaurantes fecharam as portas no Estado de São Paulo desde o início da pandemia.

Atualmente, de acordo com ele, cerca de 300 estabelecimentos estão fechando as portas diariamente no Estado de São Paulo.

“Do jeito que a coisa está indo, em três meses, devem sobrar uns 20% do setor, formado hoje por aproximadamente 180 mil estabelecimentos”, diz o presidente da Abrasel- SP.

MANIFESTAÇÃO

Empresários e trabalhadores do comércio em geral e de restaurantes devem se reunir nesta quarta-feira, 27/01, a partir das 14h, no vão livre do Masp, para protestar contra a decisão do governo paulista.

De acordo com associações envolvidas, a manifestação não tem conotação política e não conta com apoio ou engajamento de partido político.

É uma manifestação pacífica que vai obedecer regras de segurança para evitar a contaminação pelo novo coronavírus.

“É uma manifestação a favor da retomada segura e sobrevivência do setor”, como cita convocação do Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de SP. 






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