Negócios

Empreendedorismo garante sobrevivência de refugiados no Brasil


Sem oportunidades profissionais no país, imigrantes em busca de uma nova vida recorrem à culinária étnica. Já existem cursos de capacitação em São Paulo


  Por Mariana Missiaggia 20 de Abril de 2016 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Sem saber nem sequer uma palavra em português, Muna Darweesh, 35 anos, desembarcou em São Paulo ávida por uma resposta: “Onde estão os árabes?”

Na companhia do marido, e de quatro filhos, a família de Muna é mais uma entre as tantas refugiadas desde que a guerra civil teve início na Síria, em 2011.

Sem nenhum amparo na capital, encontrar qualquer sinal que lhe remetesse a sua cultura de origem já era um consolo em meio a tanta tragédia.

Muna percebeu que não conseguiria permanecer em sua cidade natal quando o chamado ISIS (Estado Islâmico no Iraque e na Síria) começou a fazer uma série de ataques no país, em intervalos menores.

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Em poucos meses, a sensação de insegurança aumentava com a falta de emprego, e de eletricidade –o ISIS sabotou toda a fiação elétrica da cidade.

Os preços de alimentos, e fraldas começaram a subir até se tornarem impraticáveis, e as mercadorias pararem de chegar, pois já não havia nenhum caminho seguro a ser feito.

Com a decisão de deixar a Síria, Muna e seu marido tentaram entrar no Egito, Turquia, e Suécia, mas só foram aceitos no Brasil. “Nem os países de língua árabe estão com as portas abertas para os sírios. Eles não nos querem, não nos concedem o visto.”

MUNA E OS FILHOS

Em São Paulo, a família gastou tudo o que restava em um mês de hospedagem em um hotel, até conseguir o apartamento, onde reside atualmente hoje – um quarto e sala, no Glicério, região central de São Paulo.

Assim que descobriu que muitos dos imigrantes estavam na região da 25 de março, e Santa Ifigênia, Muna fazia o percurso Glicério – Sé, religiosamente, todos os dias carregando doces, e outras comidas árabes para vender.

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“Eu achava que brasileiro não se interessava por esse tipo de comida, e que só teria chance com os árabes”, diz. 

Mesmo assim, cozinhar lhe parecia a única opção, diante da falta de oportunidades profissionais, e com pouco dinheiro - algumas das coisas que tinha, ela conseguiu vender.

Outras, como sua casa em Lataquia, litoral da Síria, manteve trancada, com a esperança de um dia retornar.

Mãe, esposa, e professora, Muna cresceu ouvindo que de acordo com a cultura islâmica, a culinária é um dom obrigatório a todas as mulheres. “Quem não sabe, não casa. E casamento é essencial para a família”, diz.

Hoje, ela acredita que o mantra foi no mínimo providencial já que ela e o marido, engenheiro naval, por formação, se sustentem cozinhando comidas típicas de seu país de origem. 

ALGUMAS DAS OPÇÕES OFERECIDAS POR MUNA

Muito além do quibe, esfiha, e coalhada, a Muna – Sabores e Memórias Árabes, como o negócio foi batizado, trabalha com encomenda mínima de R$ 100.

São pratos doces e salgados, que já dividem a clientela do casal pela metade entre brasileiros, e conterrâneos. Ainda sem logística própria, os clientes buscam as encomendas em sua casa ou ela combina de entregá-las em estações de metrô. 

Além disso, Muna vende doces em frente à Mesquita Brasil, na Avenida do Estado, toda sexta-feira, das 11h às 15h. “Meu marido me ajuda. Ele não arranja emprego porque não fala português.”

O Brasil abriga 8,4 mil refugiados, de acordo com os dados do Comitê Nacional de Refugiados (Conare). É o dobro do que o país acolhia há quatro anos. E o maior contingente de populações que buscam o asilo são os sírios, com mais de duas mil pessoas hoje no país. 

Sem política específica para refugiados no país, propostas como a do Sebrae em parceria com o Conare, surgem como uma oportunidade valiosa para essas famílias recomeçarem as suas vidas.  

O projeto “Refugiado Empreendedor” vai oferecer cursos gratuitos de empreendedorismo a refugiados. Inicialmente, 250 refugiados serão capacitados na capital.

Muna é uma das participantes do projeto, e espera que a oportunidade lhe dê possibilidades para a formalização de seu negócio, e facilite o acesso ao crédito. “Meu sonho é abrir meu próprio restaurante”, diz. 

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