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Em plena crise, o varejo de autopeças se reinventa


Formatos semelhantes aos de supermercados, como o da rede Autozone (acima), representam uma nova tendência no comércio de peças, que enfrenta queda de vendas


  Por Fátima Fernandes 31 de Julho de 2015 às 09:00

  | Editora do site Varejo em Dia


A crise financeira de 2008 abalou diferentes segmentos do mercado automobilístico nos Estados Unidos. Mas foi exatamente naquele período que a Autozone, rede especializada em autopeças, registrou sua maior expansão.

Até 2008, o faturamento real da rede, com 4.900 pontos de venda, crescia pouco menos de 0,5% ao ano. Com o mesmo número de lojas, sua receita chegou a subir 6,4%.

Por quê? Com o orçamento mais apertado, os consumidores americanos optaram por reparar seus automóveis, em vez de substituí-los por um zero quilômetro. Quando a crise amainou, os índices de vendas voltaram ao ritmo histórico.

No mercado brasileiro, tal como no americano, as revendas de autopeças sempre obtiveram bom desempenho durante períodos recessivos, pela mesma razão.

Neste ano, porém, tem sido diferente. A receita das lojas caiu 0,9% no primeiro semestre, ante a previsão de faturar entre 3% a 4% mais que no mesmo período do ano passado, de acordo com o Sincopeças, entidade que reúne as lojas de autopeças no Estado de São Paulo.

FRANCISCO DE LA TORRE: OS LOJISTAS ESTÃO DESCAPITALIZADOS

Além da queda no faturamento, o índice de inadimplência saltou de 4% para 10% no período. "Os lojistas do setor, principalmente os pequenos, estão descapitalizados”, afirma Francisco Wagner de La Torre, presidente do Sincopeças.

O varejo de autopeças movimenta aproximadamente R$ 25 bilhões por ano no Brasil. São 35 mil lojas, principalmente pequenas e médias, operadas por famílias. Essas revendas empregam, em conjunto com as distribuidoras, quase meio milhão de funcionários.

O mercado de oficinas --cerca de 100 mil no país-- está próximo de bater em R$ 40 bilhões anuais, de acordo com estudo recém-concluído pela consultoria Roland Berger.

As revendas que comercializam autopeças estão em meio a uma grande transformação, decorrente da necessidade de as lojas se tornarem mais profissionalizadas e competitivas, para atender à expectativa dos clientes por melhor prestação de serviços.

O estudo da Roland Berger identificou que a tendência emergente é de união de varejistas e distribuidores, perda de espaço de pequenas oficinas com a concentração em grandes redes e, gradualmente, crescimento de vendas por meio de comércio eletrônico.

Haverá cada vez mais sinergia entre lojas e oficinas, obedecendo à conveniência dos consumidores comprarem peças e efetuarem o reparo do carro em um mesmo local. O modelo de autosserviço avançará, de acordo com o levantamento da consultoria.  

ALERTA

"Os lojistas de autopeças que não prestarem atenção nessas mudanças que estão ocorrendo no setor não vão conseguir competir neste mercado", diz De La Torre. Feito isso, segundo ele, terão pela frente um mercado promissor.

A produção e a venda de carros novos despencaram no primeiro semestre, algo próximo de 20%, segundo a Anfavea (indústria )e a Fenabrave (comércio), na comparação com igual período do ano passado.

A frota brasileira de veículos leves, que soma 40 milhões de unidades, porém, deve crescer 3,1% ao ano até 2020, prevê o estudo da Roland Berger. Tudo isso indica crescimento potencial no número de carros que necessitarão de reparação --um bom indicador para as revendas de peças.

Os veículos novos que foram vendidos no período de expansão econômica e perderam a garantia (cerca de 3,7 milhões de veículos) vão também precisar, a partir deste ano, de peças de reposição, o que deve trazer algum alívio para o caixa das lojas.

LEIA MAIS: Como as concessionárias reagem à queda nas vendas de automóveis

NOVOS CONCORRENTES

De olho neste mercado, a Autozone desembarcou no Brasil há três anos. A empresa, que também tem forte presença no México (400 lojas), opera sete lojas no Estado de São Paulo, das quais três no interior e quatro na região metropolitana. Outras duas lojas serão abertas ainda neste ano e início o ano que vem em São Paulo. A rede planeja uma expansão nacional.

“O Brasil foi apontado como o terceiro mercado, atrás dos Estados Unidos e México, em um estudo que conduzimos para dar sequência ao plano de expansão”, afirma Maurício Braz, diretor-geral da Autozone no Brasil.

O modelo de lojas da Autozone assemelha-se a um supermercado, com uma diferença: o cliente poder ser atendido por um vendedor, que está preparado ainda para receber o pagamento.

As redes de autopeças, como o próprio estudo da Roland Berger aponta, serão muito mais disseminadas para a frente no Brasil. Além da Autozone, outra empresa, a Auto Z, do grupo DPaschoal, também tem planos de expansão.

Desde 1999, a Auto Z operava somente como e-commerce. Terá agora lojas físicas. Duas delas foram abertas no Estado de São Paulo, em Santo André e Uberaba. A empresa pretende concluir até o final deste ano um plano para a expansão da rede.

Para não ficar de fora do que acontece no mundo das autopeças, o DPaschoal selou recentemente uma parceria com o grupo alemão ATR, distribuidor de autopeças, acessórios e pneus.

Na avaliação da ATR, o varejo brasileiro de autopeças está difícil e disputado, há excesso de participantes e de elos, o que faz com que as margens de rentabilidade sejam apertadas.

Alguns dados internacionais devem trazer alento para os lojistas de autopeças. Nos Estados Unidos, a relação entre consumo de carro e habitante é de um carro para 1,9 habitante. Na Europa, de um carro para 2,8 habitantes. No Brasil, de um carro para 4,9 habitantes.

São números que, independentemente de crise ou não no Brasil, enchem os olhos dos grandes competidores mundiais do setor. A Napa, rede norte-americana especializada em reparos de veículos, também está de olho no Brasil. Ela quer disputar o mercado de venda de peças e reparo de carros no país, um mercado estimado em R$ 65 bilhões anuais pela Roland Berger.

INTERNET

A venda pelo comércio eletrônico é considerada uma saída importante para a desova de estoques das lojas, especialmente neste ano de crise. E tudo indica que as revendas de autopeças já começaram a descobrir este caminho.

Criado em 2013, o Canal da Peça, plataforma online para o comércio de autopeças, não para de crescer. Atualmente 700 lojas já estão cadastradas no sistema. Algumas delas chegam a ter 30 mil produtos disponíveis para o consumidor.

“De janeiro até agora as vendas de peças pela plataforma têm crescido 25% ao mês. Já atingimos a marca de meio milhão de visitantes ao mês”, diz Fernando Cymrot, diretor financeiro e co-fundador da plataforma.

Para comercializar as peças por meio da plataforma, o lojista paga de 1,5% a 12% do faturamento para o Canal da Peça. O percentual depende se a venda é para o consumidor final ou para outra empresa e se  a transação de pagamento, com cartão ou boleto, é feita ou não por meio da plataforma.

“Estimamos que 2% da comercialização de autopeças são feitas por meio da internet", diz Cymrot. "Na próxima década, esse percentual deve avançar para 10%.”