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Em 1,5 ano, 18 redes demitem 20 mil na capital paulista


O GPA, controlador das redes Pão de Açúcar, Extra, Casas Bahia e Ponto Frio, lidera o ranking com cerca de 9 mil dispensas, seguido por Carrefour e Sonda, de acordo com homologações


  Por Fátima Fernandes 12 de Setembro de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Imagine se a população da cidade de Araçatuba, distante 520 quilômetros da capital, com aproximadamente 190,5 mil habitantes, ficasse sem emprego.

É exatamente esse o número de demissões ocorridas no comércio paulistano, de janeiro de 2015 a agosto passado, de acordo com levantamento do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

O total de dispensas não corresponde, porém, ao fechamento de postos de trabalho. A estimativa do sindicato é que cerca de  20% das vagas (40 mil) desapareceram no período.

Considerando que o comércio emprega aproximadamente 500 mil pessoas na capital paulista, o emprego no setor foi reduzido em 8% em pouco mais de um ano e meio. 

O que chama a atenção no levantamento do sindicato é o volume de homologações feito por grandes varejistas.

Dezoito delas demitiram em conjunto 19.482 funcionários, o que representou cerca de 10% das dispensas totais realizadas pelo comércio paulistano e homologadas no sindicato.

O GPA, controlador das redes Pão de Açúcar, Extra, Casas Bahia e Ponto Frio, lidera o ranking do grupo, com nove mil dispensas no período - ou aproximadamente 14% do total de funcionários da companhia (64,7 mil) no Estado de São Paulo.

Já o Carrefour demitiu capital paulista 3% do quadro de funcionários. A rede Sonda, 16%. A Marisa, 7%. O Magazine Luiza, 4,5%. A Riachuelo, 3,3%.

Também fizeram demissões significativas no período, de acordo com o levantamento, as redes C&C (494 empregados), Renner (477), Pastorinho (309) e Lojas Americanas (261). Veja abaixo a lista das dez redes que mais demitiram no período.

Uma das principais características da atividade do comércio é a alta rotatividade. Por isso, a média de homologações feitas no sindicato em 2015 e 2016 não é muito diferente da realizada em 2014, quando a economia crescia -é da ordem de 10 mil a 12 mil homologações por mês.

“O que mudou com a crise é que parte das demissões não está mais sendo reposta. As vagas estão simplesmente sendo fechadas”, afirma Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

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Os números levantados pelo sindicato não causam surpresa e estão diretamente vinculados à conjuntura recessiva, na avaliação do economista Nelson Barrizzelli, também consultor especializado em varejo.

BARRIZZELLI: "DESEMPREGO VAI AUMENTAR"

“O comércio demorou um pouco mais que a indústria para mostrar debilidade, mas isso acabou inevitavelmente acontecendo. Ainda vamos ver o desemprego aumentar”, afirma Barrizzelli.

Até 2014, as grandes redes estavam em processo de expansão. Com a crise, elas foram  pegas de surpresa e obrigadas a rever projetos em andamento. Lojas não rentáveis tiveram de ser fechadas.

“É o reflexo da queda expressiva do consumo”, afirma Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

A Via Varejo, que reúne as redes Casas Bahia e Ponto Frio, fechou 39 lojas no final do ano passado em todo o país, o que refletiu no fechamento de 13 mil postos de trabalho, de acordo com informações da empresa.

As duas redes, que chegaram a somar mais de 60 mil funcionários, empregam atualmente 50 mil

As demissões que ocorreram na Casas Bahia e no Ponto Frio no último um ano e meio somente na cidade de São Paulo (3.097) representam cerca de 6% do quadro atual de funcionários,

A rede Walmart  anunciou no início deste ano o fechamento de 60 lojas no Brasil. De janeiro de 2015 a agosto deste ano, a empresa demitiu 595 funcionários somente na cidade de São Paulo, ou quase 1% do total de emprego no país (70 mil funcionários), de acordo com o sindicato.

Flávio Rocha, presidente da Riachuelo e vice-presidente do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), diz que a rede, que emprega um total de 24,4 mil pessoas, não fechou lojas, mas cortou 600 vagas no Brasil, das quais 100 delas em São Paulo.

De acordo com ele, boa parte das pessoas demitidas em São Paulo (787) foi substituída.

“Agora, o fato é que nos meses de abril e maio o setor viveu o pior momento da história. Pela primeira vez, o Índice de Antecedente de Vendas (IAV) do IDV registrou dois dígitos de queda de vendas em relação a igual período do ano passado", afirma Rocha. "O varejo fechou 100 mil lojas no ano passado e deve fechar mais neste ano”.

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O saldo entre o número de estabelecimentos comerciais que abriram e fecharam as portas no primeiro semestre deste ano somente no Estado de São Paulo ficou negativo em 19.970 lojas, de acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio).

LOJA FECHADA EM SP: NÚMERO DOBROU EM RELAÇÃO A 2015

 

Este número é praticamente o dobro do registrado em igual período do ano passado (9.857). Se o número de janeiro a junho se repetir neste semestre, o saldo pode ficar negativo em 40 mil lojas em 2016, número que também é maior do que o do ano passado (30.232).

“As vendas não melhoraram e os custos de ocupação continuam subindo. Muitas empresas não conseguem se manter e são obrigadas a fechar as portas”, diz Fábio Bentes, economista da CNC.

No ano passado, o volume de vendas do varejo paulista caiu 5,9% e, no primeiro semestre deste ano, 5,5%, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE.

Para chegar ao volome de estabelecimentos fechados, a CNC considera o número de empresas que deixa de prestar alguma informação sobre os seus empregados ao Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho em relação ao estoque existente.

Quando a economia estava em expansão o saldo era sempre positivo: era maior o número de lojas abertas do que fechadas.

O saldo negativo entre abertura e fechamento de lojas no Estado de São Paulo começou a aparecer em 2014, quando ficou negativo em 2.395 lojas. No ano passado, o número pulou para 30.232 estabelecimentos, podendo bater em 40 mil empresas neste ano.

Para Bentes, os indicadores macroeconômicos não devem mudar até o final do ano. Mas, com a definição do impeachment de Dilma Rousseff, o cenário político e econômico ficou mais previsível, o que pode fazer com que este semestre seja melhor do que o segundo semestre de 2015.

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TRABALHO TEMPORÁRIO

Um indicador de que o varejo espera um final de ano mais ou menos aquecido é a movimentação dos comerciantes para a contratação de temporários. Neste ano, pelo menos até agora, de acordo com Patah, os lojistas nem pensam no assunto.

“Se houver alguma contratação, será de um número que representa de 10% a 15% do que foi no passado”, diz Patah. Nos tempos em que a economia estava em expansão, o varejo chegava a contratar entre 50 mil a 60 mil trabalhadores para reforçar o quadro de pessoal no final do ano.

O que vai acontecer com o emprego no varejo, na avaliação de Barrizzelli, não é diferente de outros setores.

“Quando a economia começa a retomar, o emprego demora para reagir porque as empresas querem ter a certeza de que a retomada é algo efêmero. Não há muito o que fazer”, diz Barrizzelli.

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Para Flávio Rocha, uma reforma na legislação trabalhista, que permita um trabalho por hora, como ocorre nos Estados Unidos, pode devolver o emprego para boa parte dos desempregados do comércio.

O grande ajuste das empresas de varejo, de qualquer forma, na avaliação de Solimeo, já foi feito, e já começou a ter uma diminuição das quedas de vendas, o que é um bom sinal para o setor.

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O QUE DIZEM AS EMPRESAS

A Marisa informa, por meio de sua assessoria de imprensa,  “que apenas  14% do número de demissões ocorridas no período de janeiro de 2015 a agosto deste ano corresponde à redução do quadro de colaboradores.”

Isto é, do total das dispensas feitas em São Paulo (1031) apenas 144 vagas foram fechadas.

“O restante refere-se ao turnover natural do varejo, ou seja, houve reposição das vagas. A companhia realizou no mesmo período, cerca de 2600 promoções e méritos entre os colaboradores.”

O Carrefour informa que “não há redução de postos de trabalho em suas unidades. Neste momento, a empresa realiza a expansão de seu quadro de colaboradores, principalmente para novas unidades inauguradas em São Paulo (SP). No caso das posições que venham a ficar em aberto, a companhia realiza processos seletivos constantes para imediata reposição da função.”

A C&A informa que “o varejo é um negócio muito dinâmico. Movimentações de pessoas como contratações e desligamentos fazem parte do cotidiano do setor.”

O GPA informa que “a companhia trabalha com um turnover médio de 30%. Considerando que somente o negócio alimentar do grupo (Extra, Minimercado Extra, Pão de Açúcar e Minuto Pão de Açúcar) no Estado de São Paulo soma cerca de 43 mil colaboradores hoje, o volume do turnouver natural é de cerca de 13 mil posições por ano neste negócio.”

“O GPA busca constantemente eficiência e aumento de produtividade, como parte do trabalho de adequação do negócio ao tamanho do mercado. Diante disso, a administração tem utilizado parte do turnover natural do negócio (em média, 30%) e não reposto algumas vagas, principalmente àquelas relativas a backoffice, preservando, sempre, a qualidade e nível de serviço em loja.”

Também procuradas para falar sobre as dispensas em São Paulo, as redes Viavarejo (Casas Bahia e Ponto Frio), Sonda, Magazine Luiza, Walmart e Fast Shop não deram retorno.

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FOTO: Estadão Conteúdo