Negócios

Ele conserta de fuscas a carrões importados


William tem uma oficina mecânica na Zona Norte. Eclético, gosta de ler, dar palestras sobre empreendedorismo e, claro, atender clientes com problemas dos mais variados em seus carros


  Por Wladimir Miranda 03 de Janeiro de 2019 às 08:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Na oficina dele, não há distinção de classe social. Tem lugar, e conserto, para carrões, incluindo aí aquele Mercedes-Benz badalado, que chama a atenção quando passa pela Avenida das Cerejeiras, na Zona Norte de São Paulo, onde fica a Gold Manutenção Automotiva.

Mas há também espaço reservado para o dono do fusquinha 68 que, por razões sentimentais, quer conservar intacta a sua máquina.

William da Silva, 40 anos, garante que o seu faturamento chega aos R$ 60 mil mensais, brutos. Para provar o que diz, aponta para um Citroen. “O conserto do câmbio deste Citroen vai custar R$ 8 mil”, avisa.

O reparo na Mercedes-Benz estacionada mais à frente vai custar R$ 18 mil. O proprietário do fusquinha 1968, vai ter de pagar R$ 6 mil para ter a sua relíquia em condições de desfilar pelas ruas da Zona Norte sem passar vergonha.

E vale a pena pagar isto pelo conserto, levando-se em consideração que o preço de um fusquinha 68 no mercado de carros usados chega, no máximo, a R$ 8 mil?

“Vale, porque é uma questão sentimental. E quando entra o valor sentimental, não tem preço. Mas eu parcelo. Ninguém sai daqui insatisfeito”, afirma ele.

Falante, leitor voraz, na conversa com William sempre há espaços para um pensamento, uma máxima, um ditado popular.

Logo após falar sobre o valor sentimental, que faz com que uma pessoa gaste muito para manter bonito um carro que perdeu o valor de mercado, William vem com uma frase feita, mas que tem sentido. “O brasileiro tem três paixões: família, carro e futebol”, diz.

Ele avisa que em tempos de crise econômica, as pessoas estão preferindo investir no conserto de seu veículo do que ir no mercado em busca de um novo. E aí, a conta é simples.

“Se para comprar um carro novo, o cliente vai gastar R$ 60 mil, compensa mais fazer um reparo e gastar R$ 10 mil. Além disso, não custa lembrar que, assim que sai da concessionária, o carro novo perde o seu valor. Saiu da loja, deu uma voltinha, o carro já está desvalorizado em R$ 10 mil”, lembra ele.

Ele conta que viajou o mundo como funcionário de uma empresa argentina de gás natural. Foi da Venezuela à Malásia dar treinamentos. Foi neste trabalho que desenvolveu a capacidade de falar em público, dar palestras.

A oficina mecânica existe desde 2007. Antes, em outro endereço, no Parque Edu Chaves, também na Zona Norte.

O capital que William tinha para começar o negócio era de R$ 70 mil. Hoje, tem três funcionários.

“Eu não minto e não engano ninguém. Faço as pessoas confiarem em mim. Mais da metade dos meus clientes são enviados pelos concorrentes. Quando eles não conseguem atender e resolver o problema, indicam a minha oficina”, afirma.

A Gold é especializada em elétrica e eletrônica. Também conserta suspensões. “Tudo hoje é eletrônico. É por isto que muitos concorrentes mandam clientes para mim. Temos tradição em eletrônica”, diz.

CURSOS NA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL

William é sócio da Associação Comercial de São Paulo há sete anos. A relação com a entidade começou quando foi convidado a fazer um curso de empreendedorismo na Distrital Nordeste da ACSP, na Vila Maria.

“Era um curso para empreendedores da área automotiva. Focado em gestão. As lições que tive lá me ajudaram muito. Hoje faço todos os cursos que a distrital ministra. São importantes, servem para eu administrar cada vez melhor o meu negócio. Quando eu não posso fazer, por qualquer motivo, a minha esposa faz”, afirma ele.

Hoje ele não tem dúvidas de que é um empreendedor.

“Como trabalhei durante muito tempo como empregado, demorei a entender que sou um empreendedor, o que é o empreendedorismo. Hoje eu sei”, disse.

William afirma que uma das falhas do sistema educacional brasileiro é não preparar o aluno para o empreendedorismo.

“O sistema educacional brasileiro prepara o aluno para ser empregado, para trabalhar para alguém, não para empreender. É por isto que o trabalho que a Associação Comercial de São Paulo é importante, ao preparar a pessoa para administrar bem seu negócio, para ser empreendedor”, afirma.

 

Imagem: Wladimir Miranda