Negócios

Elas só querem saber de shopping center


Algumas marcas arquitetaram sua expansão exclusivamente dentro desses empreendimentos. André Oliveira (na foto), da Camicado, lista algumas razões para essa escolha


  Por Mariana Missiaggia 03 de Agosto de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Alguns ostentam o metro quadrado mais caro da cidade. Outros são o ponto de maior movimento do varejo. Localização, limpeza, segurança, estacionamento e outras facilidades fazem dos shopping centers o sonho de consumo de qualquer empresário.

Há todo um glamour em fazer parte do mix de lojas de um grande centro comercial, especialmente, quando se trata de grandes capitais. Por outro lado, essa oportunidade vem acompanhada de muito trabalho e investimento.

Estar de portas abertas sete dias por semana em horário estendido e manter os altos custos de um ponto comercial tão cobiçado exige muito planejamento. Ainda assim, há quem tenha seus esforços dedicados exclusivamente aos shoppings.

Grandes marcas como Camicado, Sephora e Opaque arquitetaram sua expansão, exclusivamente, nesses empreendimentos.

Na opinião de Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da empresa BrandWorks, especializada em marketing de varejo e shopping center, o centro de compras reúne algumas vantagens em relação ao comércio tradicional de rua.

A melhor delas é que fazer parte deste tipo de empreendimento já garante determinada estrutura para promoções e eventos , além de uma série de ações que incentivam a frequência dos consumidores e atraem público.

Se de um lado o shopping oferece serviços, segurança, público e manutenção, do outro, ele também cobra por toda essa operação.

PARA KHEIRALLAH, PRESENÇA EM SHOPPING É MAIS VANTAJOSA
PARA MARCAS DE LUXO

Nelson Kheirallah, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e coordenador do Conselho de Varejo (CV) da ACSP diz que para manter uma situação confortável neste ambiente, o lojista precisa calcular seu custo de ocupação com base em três despesas principais - aluguel, condomínio e fundo de promoção e propaganda. Portanto, essa é a soma mínima para se manter dentro de um grande centro comercial.

Para Kheirallah, na maioria das vezes, a opção exclusiva pelos centros de compras se dá de acordo com o segmento de cada varejista. No caso das empresas de telefonia e joalherias, por exemplo, os shoppings surgem quase como a única saída para garantir o mínimo de segurança. Já para as varejistas de alto luxo, não restam tantas opções.

“Nem há muito o que pesquisar, elas (lojas de luxo) querem estar no Iguatemi ou Cidade Jardim, onde está o público A. A rua Oscar Freire e Haddock Lobo estampam inúmeros anúncios de aluguel”, diz Kheirallah.

DAS RUAS PARA O SHOPPING

Embora a história da Camicado tenha começado no endereço mais popular de São Paulo, a rua 25 de março, no Centro, foi no Shopping Lar Center, em 1987, que o negócio ganhou o conceito que segue até hoje -loja de artigos para casa, nem muito sofisticada nem muito popular, com preço competitivo e enorme variedade de produtos.

O sucesso da primeira loja levou à abertura de uma segunda unidade no Shopping Paulista, em 1988, e uma terceira no shopping Eldorado em 1993. Assim, a empresa chegou às atuais 103 lojas, operando exclusivamente em shoppings. Somente neste ano foram 12 inaugurações.

CAMICADO POSSUI OPERAÇÃO EXCLUSIVA EM SHOPPINGS - SÃO
103 LOJAS

“Entendemos que a vocação da Camicado está mais em sintonia com o shopping, pois complementa o mix de produtos e serviços que esses centros oferecem”, diz André Oliveira, gerente geral de novo negócios da Camicado.

Nas palavras de Oliveira, os grandes centros comerciais embutem uma série de facilitadores para os empresários. Segundo o executivo, o fato de uma mesma administradora ser responsável por vários empreendimentos muitas vezes facilita as negociações das varejistas, enquanto na rua, os contratos acontecem de forma isolada.

Outra vantagem que Oliveira cita é a velocidade com que toda a burocracia é resolvida, já que a emissão de documentos, licenças e permissões são obtidas pela própria administradora.

Para Oliveira, ao mesmo tempo em que beneficia grandes varejistas, todos esses benefícios tornam os shopping centers um ambiente mais hostil para quem é independente. Na visão do gerente da Camicado, a tendência é que o volume de lojas instaladas em shopping seja cada vez mais formado por redes de franquias, uma boa oportunidade para quem quer começar do zero dentro deste tipo de empreendimento.

CHEGOU A HORA?

Assim como em qualquer outro ponto comercial, a decisão de abrir ou manter uma loja em um shopping center envolve questões ainda mais complexas. Nos últimos cinco anos, os quase 600 shoppings de todo o país sentiram os efeitos da crise econômica.

A renegociação de preços e a criação de novos espaços foram as principais estratégias deste setor que, entre 2008 e 2013, registrou índices de vacância inferiores a 3%. Já em 2014, o índice subiu para 3,55%, 4% em 2015 e 6,7% em 2016, de acordo com o Ibope Inteligência.

O metro quadrado que custava em média R$ 74,57, em 2011, antes de ingressar no período mais crítico, chegou a R$ 92 em 2015, um aumento de 24%, e passou para R$ 83,79 em 2016, de acordo com a Cushman&Wakefield, consultoria que faz o mapeamento de espaços comerciais. Em 2017, o preço do metro quadrado por ano no Shopping Iguatemi, chegou a custar R$ 8 mil.

OPAQUE BUSCA PÚBLICO AB E DIZ QUE CONSUMO SEGUE ESTÁVEL

PÚBLICO QUALIFICADO

É de olho nesse público (AB), que a Opaque prepara seu planejamento de expansão. Com nove lojas, a rede trabalha com cosméticos e perfumes importados de 60 marcas, como Versace, Hugo Boss e Lancôme, e não tem nenhuma intenção de abrir a operação para pontos fora de shoppings.

Com tíquete médio de R$ 300, as vitrines da Opaque valem uma verdadeira fortuna e ficariam muito expostas em lojas de rua, na opinião de Sun Chul Kim, diretor-geral da rede.

Além disso, o executivo acompanha a experiência da concorrência e diz que tudo indica os grandes centros comerciais como o modelo mais viável para este tipo de comercialização.

“Apesar de o segmento de beleza ter sofrido menos, consideramos que em 2017 chegamos ao fundo do poço. Mesmo assim, o consumo do nosso público AB é constante e eles não estão nas lojas de rua”, diz.

RETOMADA

Um levantamento da FX Retail Analytics em parceria com a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) mostra a volta dos brasileiros aos shoppings. Em 2017, a média do tráfego mensal foi de 463 milhões de pessoas por mês.

De janeiro a maio de 2018, houve um crescimento de 6,03% no fluxo, em relação ao mesmo período do ano passado. Isso mostra que após um período crítico de cinco anos, os quase 600 shoppings de todo o país passam por uma fase de retomada, na análise da entidade.

De 2012 para cá, foram abertos mais de cem centros de compras que somam acima de cinco milhões de metros quadrados de lojas, porém, com cerca de 40% dos espaços vazios, de acordo com dados do Ibope. Nestes sete primeiros meses de 2018, foram abertos cinco novos shoppings no Brasil e há outros 18 previstos.

Para este ano, a Abrasce estima um crescimento de cerca de 6%, em relação a 2017, resultando em faturamento de R$ 178 bilhões –e uma expansão de 2% no número de lojas em operação –atualmente são cerca de 100 mil.

FOTOS: Divulgação