Negócios

E tudo terminou em pizza


Após uma história acidentada de negócios familiares, os irmãos Nivaldo e Guto Covizzi (à dir.) deixaram a carreira executiva para fundar a Bella Capri, que fatura R$ 30 milhões com 28 lojas no interior paulista


  Por Mariana Missiaggia 26 de Dezembro de 2017 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


O mercado de pizzarias é um dos negócios mais concorridos do país.

Além de se tratar de um segmento muito pulverizada, os negócios especializados ainda enfrentam as padarias, que servem até rodízios. E também os supermercados que abocanham um filão desse mercado, seja com as congeladas ou montadas na hora.

Quando Nivaldo Covizzi, 50 anos, e Guto Covizzi, 46 anos, decidiram se aventurar neste mercado que movimenta em torno de R$ 22 bilhões a cada ano, eles sabiam bem o que estavam fazendo.

Na época, em 1998, a cidade onde moravam, no interior de São Paulo, não tinha sequer uma pizzaria. A opção mais próxima ficava em São José do Rio Preto, a 15 quilômetros de Mirassol.

Hoje, a Bella Capri virou franquia, tem 28 lojas, vende 40 mil pizzas por mês e vai fechar 2017 com um faturamento de R$ 30 milhões.

BERÇO DE OURO

Assim como outras histórias de empreendedores, a dos irmãos Covizi também passou por altos e baixos.

De família com origem italiana, na infância eles desfrutaram de uma situação financeira confortável. O sustento vinha do trabalho do patriarca, em uma fábrica de doces, que faliu em meados de 1981.

Na época, não restara outra opção. Venderam a casa onde moravam e se mudaram para a casa da avó materna na mesma cidade em que vivam, Mirassol, a 450 quilômetros da capital.

Mesmo com as dificuldades, Guto e Nivaldo sonhavam em poder dar a oportunidade para o pai voltar a trabalhar com doces e abriram uma pequena fábrica, em 1988.

Foi o primeiro trabalho da dupla. Enquanto o pai cuidava da parte comercial, Guto preparava guloseimas, como goiabada e bananada. Nivaldo era responsável pela entrega dos produtos, que vendiam como água na região.

Mas, foi em vão. Dois anos depois, perderam as economias devido ao congelamento do Plano Collor. “Hoje, vejo que faltou gestão”, diz Guto.

Sem tempo e nem dinheiro a perder, o jeito foi sair em busca de emprego. Nivaldo foi contratado para ser representante comercial de pilhas. Guto foi ser repositor de mercadorias na Lojas Americanas.

Nos anos seguintes, foram alçados a cargos executivos. O primogênito se tornou gerente regional da americana Warner Lambert, fabricante dos chicletes Adams -o mesmo cargo que o caçula exerceu durante muitos anos no Grupo Carrefour, que comprou a Americanas.

GESTÃO DE MULTINACIONAL EM CASA

Embora estivesse satisfeito com a estabilidade de um emprego formal, Nivaldo ambicionava ter seu próprio negócio. Mais do que isso, ele acreditava que desta vez, tudo seria diferente.

Ele poderia aplicar práticas de gestão de multinacional em uma pequena empresa.

Apaixonado por pizza, ele e sua família sentiam falta de um estabelecimento que vendesse a iguaria com a mesma qualidade de cidades maiores da região e da capital. Tiveram certeza de que haviam feito a escolha certa.

Para abrir a primeira unidade da Bella Capri, em Mirassol, em 1998, ele e a esposa venderam a casa onde moravam, e investiram R$ 200 mil na loja.

A empreitada foi bem-sucedida e, após um ano, Nivaldo já se dedicava integralmente à Bella Capri.

Nesse meio tempo, Guto estava cansado da vida que levava. Já havia sido transferido mais de nove vezes – passou por cidades como, São Paulo, Blumenau, Jundiaí e muitas outras do interior paulista.

A distância da esposa e das filhos -uma recém-nascida e outra com dois anos- foi determinante para ele recusar mais uma promoção e se tornar sócio do irmão comprando metade da Bella Capri, em 2004, com o montante das verbas recisórias.

A missão de Guto seria aplicar toda a bagagem corporativa acumulada nos últimos anos para expandir a Bella Capri, que já tinha uma segunda unidade em São José do Rio Preto.

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A união da dupla fortaleceu o negócio. A tão desejada expansão veio dois anos depois por meio do modelo de franchising.

Hoje, trabalham para a marca 500 funcionários, que produzem e vendem, em média 1,5 mil pizzas por dia em 28 lojas. Em 2016, eles faturaram R$ 20 milhões; a projeção para 2017 é R$ 30 milhões e, no próximo ano, preveem alcançar R$ 45 milhões.

Para atingir esses números, a primeira lição aprendida pela dupla foi a de que não vale a pena ignorar a importância de um profissional para determinadas áreas da empresa.

Para Guto, a primeira tentativa da família -a fábrica de doces –não vingou por motivos que vão além das perdas com o plano econômico da época.

“Não deu certo por falta de gestão. Não tínhamos experiência e conhecimento para estruturar as perdas e ganhos de uma empresa”.

Investir tudo o que tem, como Nivaldo fez para abrir a primeira unidade da Bella Capri, vendendo o único bem que lhe restava também não é aconselhável, na opinião de Guto.

Ele acredita que o irmão poderia ter buscado outras alternativas, ou primeiro, ter criado uma reserva financeira para sobreviver por alguns meses, caso desse tudo errado.

Ter boa reputação e ser bom pagador também é importante na hora de conseguir aprovação de crédito e garantir as melhores taxas. “Porque sempre é preciso recorrer a crédito no mundo dos negócios”.

Ter logística própria seja lá qual for o porte da empresa é outro aprendizado que Guto acredita ser de ouro para o sucesso de um negócio.

Ele diz ter visto de perto a importância deste item no Grupo Carrefour e diz que não abriria mão disso em nenhum tipo de negócio, seja lá qual for o porte.

Embora manter uma frota própria seja mais oneroso para o empresário, uma vez que tem de arcar com despesas como manutenção do veículo, seguro, combustível, impostos, gastos com possíveis acidentes e multas, Guto prefere manter o controle sobre o estoque e o manuseio de ingredientes mais delicados. Lá na frente, ele afirma que compensa, pois as perdas são quase nulas. 

APP RESPONDE POR 25% DOS PEDIDOS DA BELLA CAPRI

Quando falamos de alimentação, qualidade é um item essencial. Para monitorar o quesito, que de acordo com o empresário é avaliado entre bom e ótimo por 90% dos clientes da rede, a dupla investiu em tecnologia.

Eles criaram um aplicativo que é monitorado por uma equipe e ainda oferece descontos em algumas opções de sabores.

Todos os pedidos feitos para as 28 unidades chegam a uma central de atendimento com 40 atendentes, em São José do Rio Preto. Dali, eles são direcionados para a loja escolhida.

Mais do que proporcionar comodidade aos clientes, o sistema possibilita aos empresários monitorar o desempenho das unidades franqueadas – uma espécie de controle de qualidade.

Guto e Nivaldo acompanham, semanalmente, quem está seguindo à risca os padrões da franquia e como os clientes estão avaliando cada produto e serviço.

Em menos de um ano, já foram realizados mais de 50 mil downloads. O app é responsável por 25% das vendas da rede.

"Esse percentual compreende, certamente, uma fatia de clientes que não era atingida antes do aplicativo".

Para quem não aderiu à tecnologia ainda, há também uma outra forma de monitoramento. Todos os dias, 15% dos clientes atendidos presencialmente ou por telefone, em todas as unidades da rede no dia anterior, recebem uma ligação para uma pesquisa de satisfação.

Foi a partir desse tipo de contato que Nivaldo e Guto, reformularam algumas coisas no negócio, como por exemplo, a instalação de um sistema que mostra ao pizzaiolo não só o pedido do cliente, mas a quantidade de cada ingrediente que deve ser utilizado para a preparação. Isso evita desperdícios e garante a entrega da pizza em dez minutos.

Outra demanda identificada é que boa parte dos consumidores preferiam fazer a retirada das pizzas no balcão ou no drive-thru a esperar pelo entregador.

Por isso, eles trabalham com quatro formatos de loja: Restaurante (salão + retirada e delivery), Express (retirada + delivery), Restaurante Drive (salão + retirada + delivery + entrega no carro) e Express Drive (delivery + retirada + entrega no carro).