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"É preciso fazer a lição de casa para sobreviver em 2016"


Conselho de Varejo da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) vai concentrar sua pauta neste ano em redução de custos, afirma Nelson Kheirallah, vice-presidente da entidade


  Por Karina Lignelli 11 de Março de 2016 às 19:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Sem perspectiva de melhora no varejo e nem na economia a curto prazo, sobreviver como lojista dependerá de trabalho dobrado e gestão na ponta do lápis.

"A redução de custos será o foco, apontou Nelson Kheirallah, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e coordenador do Conselho de Varejo (CV) na primeira reunião do ano, realizada nesta sexta-feira (11/03).

Em entrevista ao Diário do Comércio, Kheirallah fala sobre a principal bandeira do setor em 2016, a diminuição de abertura de shoppings, franquias e como atravessar o atual momento de forma menos traumática.

“Fique atrás do balcão, olhe seu negócio com carinho e esteja sempre presente: só assim você vai fazer com que seu negócio continue e possa até crescer nessa crise. Quem se desleixar, vai sair do mercado”, alerta. 

Quais os principais pontos que o Conselho do Varejo deve trabalhar esse ano? 

O Conselho do Varejo continua muito preocupado com custos, tanto de lojas localizadas em shoppings, como em lojas localizadas em ruas. Estamos acompanhando o aumento da carga tributária –principalmente de impostos, como o IPTU.

O aumento de custos de shoppings resulta muitas vezes de despesas como energia. Por isso, vamos começar a fazer um trabalho para colaborar com o varejista no sentido de encontrar um caminho para ajudar a reduzir esses custos.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio mostrou que fecharam quase 100 mil lojas no Brasil em 2015. São os custos que estão “matando” a atividade do varejo hoje? Qual a média desses custos?

Eles têm matado sim, porque se você analisar 24 meses, de meados de 2014 para a frente, o que vem acontecendo é que atividade econômica vem decrescendo, mas temos reajuste anual dos custos pelo IGPM e IPCA.

Ou seja, os nossos custos de ocupação de uma loja, seja no shopping ou na rua, vêm aumentando. Nesse mês, os reajustes ficaram em torno de 10%, 11%, mas as vendas vêm caindo (13,3% no varejo ampliado em janeiro, segundo o IBGE). Quanto aos custos, eles variam: nas grandes lojas, fica entre 5% e 6% do total. Mas há as que atingem 20%, 25%, 30%...

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A mensagem para o varejista é: pense muito nos seus negócios porque é preciso trabalhar dobrado, se preocupar em fazer as contas na ponta do lápis... Fique atrás do balcão, olhe seu empreendimento com carinho e esteja sempre presente porque só assim você vai fazer com que seu negócio continue e possa até crescer nessa crise. Mas quem se desleixar, vai sair do mercado.  

Em sua opinião, há alguma perspectiva de uma retomada do varejo em 2016? 

Havia alguma expectativa de melhora lá para o último trimestre de 2017, mas o país está quebrado. Muitos economistas já disseram que essa melhora só deve vir lá para 2020. Mas o que eu estou vendo é o seguinte: é muito difícil fazer previsões. Em um dia você acorda com uma notícia, no outro você acorda com uma diferente...

Precisão é muito difícil, mas o que a gente está vendo é que a projeção que continua para os próximos meses é de queda nas vendas, em um país com as contas públicas deterioradas, que têm que ser recompostas para que os investimentos em infraestrutura possam gerar novos empregos - e em consequência, novos consumidores... Mas vai depender muito do que acontecer nas próximas semanas: primeiro, é a questão política que precisa resolvida, para que depois se ajuste a questão econômica.

Vi que a previsão de abertura de shoppings em 2016 (cerca de 15 empreendimentos) está aquém de 2015 (eram 24, segundo dados da Associação Brasileira de Shoppings Centers). Esse número se concretizou? Comente:

Foram inaugurados apenas algo em torno de 16. Alguns, que eram para ter sido inaugurados no ano passado – como o Cerrado, de Goiânia, e o Aurora, de Londrina-, estavam quase prontos, mas ficaram para esse ano. (Por conta da crise) Os empreendedores preferiram segurar.

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Mas se abrirem agora, vão abrir com metade das lojas vazias, inaugurar com pouquíssimos lojistas. Tem um no interior de São Paulo que está em obras adiantadas, só comercializou o cinema e uma loja âncora.  Se continuar nessa toada, muitos já vão começar capengas.

E como fica a situação para os pequenos lojistas?

Quem já entrou, vai tentar inaugurar junto. Mas outros vão pedir que joguem para a frente, pois estão sem capacidade financeira e adiando investimentos.  

No caso das franquias: fica mais difícil a crise atingi-las devido ao seu modelo de gestão padronizado?

Acho que a crise atinge todo mundo, independente se é um grande ou pequeno varejista. Claro que o grande tem melhores recursos financeiros para poder se sustentar em um período de vendas mais baixas.

Mas o pequeno tem condição de mexer no negócio muito rápido nesse momento. O grande, para fazer alterações é mais burocrático, depende da decisão do conselho da empresa...  Já o pequeno muda na hora: corta isso, corta aquilo e tem maior facilidade para resolver os seus negócios.

Mas depende dele: é necessário estar com a barriga no balcão e entender que essa é uma função dele. Muitos se iludem, pois acreditam que vão fazer um negócio para ficar milionário do dia para a noite sem trabalhar. Mas o varejo não é fácil: é 1% inspiração e 99% transpiração. 

Recentemente, alguns franqueados tiveram problemas com as redes, e acabaram fechando com prejuízo – como aconteceu em O Boticário e na rede Dia.  Isso tem a ver com a crise, com problemas de gestão, de conflito entre as partes ou as três coisas?

Essa questão no mercado de franquias tem que ser encarada com muito cuidado. Acho que um candidato à franquia primeiro precisa consultar a entidade que congrega os franqueadores.

A ABF (Associação Brasileira de Franchising) tem um selo de qualidade para as redes, e o candidato precisa saber se ela tem essa certificação, porque se começa a prestar um mau serviço, vai perder o selo.

Isso impedirá que um franqueado novo entre num negócio que já está sendo mal administrado, por isso é preciso peneirar e selecionar quem são os bons.

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Mas há o outro lado: o franqueado muitas vezes acha que vai abrir um negócio e pode chegar meio-dia para trabalhar, que vai tirar 15 mil reais por mês... E não é bem assim. Uma franquia só existe porque o dono tem que estar lá para abrir e para fechar todos os dias, ou como se fala popularmente, estar sempre com a barriga no balcão.  Caso contrário, a gestão desse franqueado pode levar o negócio à bancarrota.

E se a rede tiver o selo, mas o problema acontecer?

É preciso fazer uma análise caso a caso. No Brasil, existem 115 mil lojas de franquias, por isso é caso a caso. O franqueador que gerir mal não só vai prejudicar o franqueado como acabar perdendo seu negócio.

Diante de tudo isso, como os lojistas podem enfrentar o atual momento de forma menos traumática?

O cenário não é otimista. Muito pelo contrário: o desemprego está crescendo, a massa salarial está caindo, e isso naturalmente impede os consumidores de terem maiores gastos.

Ele acaba privilegiando aquilo o que é de extrema necessidade para a sobrevivência da sua família e evita os demais gastos. Com isso, o varejo vem contabilizando sucessivos resultados negativos.

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O lojista precisa se preocupar muito em cortar suas despesas, analisar bem seu negócio, pesquisar locais que contenham gastos desnecessários de água e energia...e estar muito consciente da situação: se antes trabalhava oito horas por dia, que passe a trabalhar 18. Porque se esse varejista se dedicar ao seu trabalho, se fizer a lição de casa, vai sobreviver.