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E-commerce ajuda expositor de feira a driblar a crise


A queda do poder de compra atingiu também os colecionadores de peças e brinquedos antigos (foto), que costumavam frequentar a feira de Pinheiros sem se preocupar com preços


  Por Fátima Fernandes 28 de Agosto de 2015 às 09:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Vender peças antigas e raras sempre foi o hobby e o meio de sobrevivência do arquiteto português Luiz Smith Manaia, 61 anos, um dos mais antigos expositores da tradicional feira da Praça Benedito Calixto, que acontece todos os sábados, desde 1987, no bairro de Pinheiros, na zona oeste paulistana.

Especializado em peças de ouro, ele chegou a faturar até R$ 4 mil em um só sábado.  “Uma maravilha”, diz. Até porque, para a sua clientela, basicamente formada por colecionadores e amantes de peças e obras de arte antigas, o preço nunca foi algo tão importante. O que influencia a decisão de compra, no caso, é qualidade, conservação e raridade dos objetos, dos quadros.

De dois anos para cá, segundo Manaia, até mesmo os colecionadores fanáticos fecharam a carteira. Pela primeira vez, em mais de uma década, ele perdeu até o ânimo de ir à praça expor as suas raridades e antiguidades, um local onde também costuma rever os amigos de anos, também expositores.  

 “As vendas foram caindo a ponto de, por meses, o faturamento nem cobrir os custos para instalação da barraca", afirma. "Essa situação começou a me deixar muito nervoso. Há um mês e meio mais ou menos deixei de ir à praça.” Ele diz que só não abandonou o negócio porque, além de ser apaixonado por antiguidades, seguiu o conselho de um amigo: montou um site para venda na internet.

Milton H., 53 anos, outro expositor da feira, também sente falta dos sábados em que costumava vender 20 bonecos do personagem Batman, por R$ 10 cada um, e a faturar R$ 2.000, e até mais, em um dia. Milton é especializado em brinquedos usados e de época, como os personagens do Pokemon, as bonecas Susi e Barbie antigas, além de mini carrinhos.

“Houve época em que eu chegava à praça com o carro cheio de brinquedos e voltava para a casa sem nada. Até R$ 50 o pai ou a mãe não se preocupava em gastar. Hoje, com o aumento do desemprego, o pai nem está mais levando o filho até a minha banca com medo de gastar. O que estou vendendo agora são peças que não passam de R$ 20”, afirma Milton.

No último sábado (22/08), era difícil ver uma criança passar na rua sem olhar para a banca do Milton. Ela é bem colorida, com centenas de brinquedos (boa parte miniaturas). Mas, para comprar um brinquedo de R$ 20, há muita negociação entre Milton e os clientes. A criança que conseguia levar um brinquedo é porque os pais convenceram o dono da banca a dar um desconto de R$ 5.

A feira da Praça Benedito Calixto tem cerca de 300 expositores e, apesar da crise, há gente querendo fazer parte dela. Era de se esperar que, com o aperto financeiro dos consumidores, por conta da alta da inflação e dos juros e do desemprego, o público que frequenta as feiras, seja ela de antiguidades ou as feiras livres, estivesse menos disposto a gastar.

“O que está acontecendo na feira é reflexo do que o país está vivendo. As pessoas compram menos e, evidentemente, isso está se refletindo em cada expositor. Quem vendia 20 peças, hoje vende 15, mas a feira é um sucesso de público, tanto que tem gente querendo entrar”, afirma Thereza Barata, secretaria-geral da Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto.

Se o consumidor está gastando menos na praça por que não desbravar um novo canal de vendas que cresce pelo menos 20% ao ano, o e-commerce?

Milton e Manaia decidiram vender os seus produtos também pela internet. E tem dado certo. Manaia montou um site há oito anos e tem conseguido manter o negócio em pé. “Agora já estou pagando as contas com mais facilidade”, diz ele.

Para quem está acostumado a lidar com o público toda a semana em uma feira, diz Manaia, não é fácil entrar para a venda virtual. "Só agora que estou dominando o e-commerce, entendendo as técnicas para aparecer facilmente no Google", diz. A sua página no Facebook já é seguida por cerca de 6.000 pessoas no mundo. São compradores, vendedores e colecionadores de antiguidades.

“A internet passou de fato a ser uma ferramenta a mais de venda dos expositores da feira”, diz Maria Emília Ciavaglia, vice-presidente da associação, que trabalha com doces na feira.

Milton também está expondo os brinquedos em sites de amigos, por enquanto. A partir de agora pensa em atuar de outra maneira na feira. Ele pretende reduzir o número de brinquedos expostos e trabalhar mais em um sistema de encomendas.

O cliente vai ver o brinquedo em fotos e, se desejar, ele traz a peça na semana seguinte. “Vou vir para a feira com uma mochila nas costas, com 10% a 20% do meu estoque, e volto para almoçar em casa, infelizmente”, diz.

No início dos anos 2000, conta ele, ele não tinha tempo sequer de almoçar. A procura pelos seus brinquedos era tão grande que enquanto dava o troco para um cliente já fazia a venda para outro. Ele diz que brinquedo pode ser considerado algo supérfluo, mas há quem discorde, especialmente quando os brinquedos estão numa faixa de preços dos populares.

Quem não faz um sacrifício de comprar um brinquedo para ver os olhos das crianças brilharem? “Se a economia voltar a crescer, é provável que a venda volte ao nível que era”, diz Milton.

MOEDAS E SELOS 

Há 25 anos como expositor na praça, o casal Nely e Antônio Celso Monari já não sentiu o impacto da crise. Eles são especializados em cédulas, moedas e selos antigos, e expõem na praça praticamente desde que a feira começou.

 “Acho que estamos sofrendo menos porque vendemos  miudezas para colecionadores. Nossos preços variam de R$ 0,50 até R$ 1.000. O pessoal gasta, em média, R$ 10, R$ 20 na banca. Tenho uma freguesia cativa, como pai e filho com hobby de colecionar moedas, cédulas e selos”, diz.

O casal ainda não trabalha com e-commerce. "Não vivemos disso, é mais um hobby", diz Antônio Celso. Está explicado.