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É a vez das microcervejarias


De olho na expansão do consumo de cervejas especiais, o empresário Lucas Berggren deixou o setor têxtil e apostou alto em uma cervejaria com capacidade para 1,2 milhão de litros/mês


  Por Renato Carbonari Ibelli 10 de Fevereiro de 2016 às 13:00

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


Nos últimos cinco anos houve um forte crescimento de microcervejarias no Brasil, que passaram de umas poucas dezenas espalhadas pelo sul e sudeste do país para mais de 300, segundo estimativas do mercado.

Há hoje uma infinidade de rótulos nacionais dividindo o espaço com cervejas importadas nos cardápios de bares e nas gôndolas de supermercados.

As cervejas especiais, em geral produzidas pelas microcervejarias, caíram no gosto do brasileiro, mas os empresários do setor acreditam que este é apenas o início de um movimento que ainda está maturando.

Apesar da expansão rápida, as cervejas especiais representam apenas 3% do mercado cervejeiro do país, que é dominado pelas grandes marcas. Essa defasagem, na leitura dos que estão no ramo, é sinal de que ainda há muito espaço para ser explorado.

Essa é a aposta de Lucas Berggren, diretor geral da recém-inaugurada cervejaria Berggren, em Nova Odessa, interior paulista. Ele acredita que até 2017 a participação das cervejas especiais no mercado brasileiro dobre, chegando a 6%. Não se trata de um número despretensioso jogado ao acaso. O plano de expansão da Berggren foi lastreado por essa projeção.

Com base nessa expectativa de crescimento, o empresário montou uma fábrica com capacidade para produzir 1,2 milhão de litros de cerveja por mês. É um monstro entre as microcervejarias, que costumam produzir, em média, 50 mil litros mensais. “Já pensamos em algo maximizado esperando a evolução do mercado”, diz Lucas.

A BERGGREN PRODUZ CINCO ESTILOS CLÁSSICOS DE CERVEJA

Claro que Berggren não contava com a tremenda valorização cambial e a crise acentuada na economia do país. Como a maior parte dos insumos para fabricação de cerveja é importado, o custo da produção encareceu.

“Prefiro ver o lado positivo da alta do dólar. As cervejas importadas também ficaram mais caras, então é uma oportunidade para os fabricantes nacionais ganharem espaço”, diz.

A cervejaria não mudou muito os planos de crescimento devido à situação da economia. Suas operações foram iniciadas em novembro do ano passado produzindo 120 mil litros ao mês. A proposta é crescer gradualmente o volume no ritmo do mercado, até chegar aos 1,2 milhão de litros mensais, quem sabe já em 2017.

POTENCIAL DO MERCADO

Embora os números que mostram a evolução das microcervejarias no Brasil não sejam muito precisos, há outros indicadores que fazem com que os empresários do setor tenham expectativas positivas.

O crescimento desse mercado no país, nos últimos cinco anos, se assemelha muito ao movimento visto nos Estados Unidos quase 40 anos atrás, onde as microcervejarias causaram uma das mais drásticas transformações de um setor industrial já registrado.

Um estudo acadêmico feito por economistas americanos em 2015, intitulado “Craft Beer in the United States: History, Numbers and Geography”, mostra que entre 1980 - no início da revolução das cervejas especiais - e 1990, o número de microcervejarias americanas cresceu exponencialmente, passando de 8 para 269 nesse período.

E por lá o setor manteve um forte ritmo de crescimento ao longo dos últimos 40 anos, fechando 2012 com 2.347 microcervejarias. Atualmente as cervejas especiais detêm  cerca de 10% do mercado dos Estados Unidos.

Em paralelo a esse movimento observou-se também o aumento das cervejas importadas no mercado americano, o que, segundo os autores do estudo, denota uma maior disposição dos consumidores em experimentar produtos novos.

Em 1979 as cervejas importadas tinham 2,6% de participação no mercado dos Estados Unidos. Esse número cresceu para 13,3% em 2012.

Segundo Cássio Ciulla, gerente da maltaria Soufflet, todo esse movimento é observado atualmente no Brasil. “À medida que o mercado amadurecer é provável que aconteça o mesmo que nos Estado Unidos. Claro que é preciso considerar que o poder aquisitivo é menor por aqui, e estamos falando em uma cerveja mais cara”, diz Cássio.

O gerente da maltaria aponta outra similaridade entre os mercados. Segundo ele, muitas microcervejarias que iniciaram a revolução das cervejas especiais nos Estados Unidos, como a Sierra Nevada, Samuel Adams ou Goose Island, foram compradas por grandes cervejarias, que usaram essas aquisições justamente para entrar no segmento de cervejas especiais.

“Esse movimento vem acontecendo no Brasil, com cervejarias pioneiras nesse setor, como Colorado e Baden Baden, sendo adquiridas por grandes grupos cervejeiros”, diz Cássio.

Também é possível ver o potencial desse mercado pela ótica dos fornecedores das microcervejarias. O gerente da maltaria Soufflet diz que sua carteira de clientes cresceu por conta dos pequenos fabricantes de cerveja locais, embora os clientes principais das maltarias ainda sejam as grandes cervejarias.

Da mesma forma, os fabricantes de garrafas têm notado a ampliação no leque de clientes. Segundo Gian Bortone, diretor de mercado da VidroPorto, suas vendas de garrafas para microcervejarias cresceram 169% entre 2010 e 2015. “Trabalhamos com a perspectiva de que a participação das cervejas especiais no mercado cresça dos 3%  atuais para 10% em breve”, diz Gian.

NÃO HÁ ESPAÇO PARA AMADORES

A despeito do potencial de crescimento desse mercado, a tendência é que só sobrevivam microcervejarias que tragam qualidade em seus produtos. Lá nos Estados Unidos, em meio à explosão das cervejas especiais, houve um período, entre 1998 e 2000, em que o crescimento foi interrompido.

Na realidade, o número de microcervejarias americanas caiu de 1.625 para 1.469 neste curto período segundo o estudo Craft Beer in the United States: History, Numbers and Geography.

Os autores do levantamento atribuíram essa queda à baixa qualidade das cervejas que estavam sendo produzidas.
“As microcervejarias que conseguirão seguir em frente são aquelas que investirem em qualidade e capacidade de produção” , diz Lucas, diretor geral da cervejaria Berggren.

OS EQUIPAMENTOS DA CERVEJARIA BERGGREN VIERAM DA ALEMANHA. A FÁBRICA PODE PRODUZIR 1,2 MILHÃO DE LITROS/MÊS

Embora seja uma cervejaria nova, o projeto da Berggren vem ganhando corpo desde 2007. Nesse período Lucas teve o suporte de cervejeiros experientes para testar as receitas em plantas piloto. Também foi um tempo usado para legalizar a cervejaria e pesquisar equipamentos. “Os equipamentos que usamos na fábrica vieram todos da Alemanha”, diz.

Lucas não é um aventureiro. É empresário experiente do setor têxtil, um ramo abraçado por sua família há 54 anos. É cada vez mais comum ver empresários de setores tradicionais apostarem no potencial das microcervejarias.

E esses empresários sentem diferenças marcantes - e por enquanto positivas - ao colocarem os pés nesse novo nicho. “Diferentemente do setor têxtil, onde a concorrência é agressiva e desleal, entre as microcervejarias encontro uma concorrência amiga e muito mais honesta. É um setor que não faz guerra de  preços, mas de qualidade”, diz Lucas.

IMAGENS: divulgação