Negócios

Dos momentos difíceis surgem empreendedoras de garra


No 2° Congresso Estadual da Mulher Empresária da Facesp e ACSP, três jovens empresárias contam como usaram o conhecimento, garra e senso de oportunidade nos negócios


  Por Inês Godinho 18 de Setembro de 2015 às 20:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Gestões de sucesso podem surgir não apenas da soma de competência técnica e grandes oportunidades quanto de circunstãncias da vida, como mostraram os relatos de três empreendedoras durante o 2º Congresso Estadual da Mulher Empresária. O evento ocorreu em São Paulo, por iniciativa da da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)  e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) .

Presidente do Grupo Europa, Manuela Curti de Souza, assumiu o posto aos 26 anos, após a morte do irmão, o sucessor em preparação, e do pai. Fundada em 1984, a Europa foi a primeira empresa a oferecer serviço de filtragem de água e hoje seu portfólio traz uma série de serviços e produtos especializados.

"Sou advogada de formação e trabalhava na empresa", contou Manuela. "Quando esta situação crítica aconteceu, não parei para refletir. Não era uma questão de escolha. Assumi o compromisso de acompanhar a transição da empresa. O Europa era um grupo de sucesso, com muitos empregados. E como advogada, eu conhecia os bastidores. Tomei este bastão para mim e fiz o que precisava ser feito." 

A transição se tornou permanente e a gestão de Manuela já se prolonga por seis anos. "Procurei fazer transformações interessantes, como o reposicionamento da marca." Para chegar até aí, no entanto, houve muito aprendizado. "É preciso procurar ajuda, se cercar de gente boa, estudar. Com isso, busquei ressignificar a minha vida."

GESTÃO DE EVENTOS 

Há 12 anos, Adriane Zagari trabalhava como modelo. Uma gravidez inesperada encerrou esta carreira e fez surgir uma empreendedora. Aproveitando a experiência, fundou uma empresa de casting para eventos, com os serviços de seleção e contratação de modelos para feiras e congressos. Atualmente, a HZ Eventos participa de 400 eventos por ano. "Mas nem sempre foi assim", relembra.

A grande meta de Adriane era se tornar fornecedora das empresas automobilísticas, já que trabalhar com o Salão do Automóvel é uma posição estratégica nesse tipo de serviços. "Foi difícil, porque as operadoras são muito fechadas para novos fornecedores", ela conta. "Mas sou uma pessoa persistente."

Em 2004, ela conseguiu quatro contratos no setor e colocou 80 modelos no evento. Em 2013, atendia 12 montadoras e administrava um batalhão de 400 modelos. Incomodada com o fato de as moças passarem 12 horas por dia de pé, Adriane decidiu fazer algo para apoiar e valorizar essas profissionais. "Criei um programa de incentivos, que acabou se tornando um sucesso e uma marca da minha empresa."

Quando resolveu seguir um plano de crescimento, a escolha foi por entrar em um novo segmento do setor, a gastronomia para eventos corporativos. Adriane começou o aprendizado do zero. "Fui estudar na escola Cordon Bleu, em Paris, e pesquisei muito a estrutura dos eventos corporativos. Daí surgiu a HZ Buffet.

E quando a recessão começou a ameaçar os negócios, ela abriu mais uma frente para diversificar. Atenta ao mercado, havia percebido uma carência na prestação de bons serviços para casting de eventos.

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"Para cada evento se faz um figurino novo e dificilmente ele será repetido pela mesma empresa. Percebi que poderia alugar estes uniformes para outras empresas." Em pesquisas, descobriu um mercado muito receptivo à novidade, por representar uma economia de recursos. Ela diversificou de novo e abriu um negócio de locação de figurinos para eventos. Estava montado o Grupo HZ. 

Até chegar lá, no entanto, a trajetória de sucesso de Adriane teve muitos 'nãos' pelo caminho. "Por isso, é importante persistir", explicou. E também fazer networking e estar muito próximo do cliente. "O bom trabalho é comentado e atrai novos clientes." 

DESVENDANDO AS FINANÇAS

O site criado por Carolina Ruhman Sandler, Finanças Femininas, registra um milhão de pageviews por mês. Jornalista e economista, ela fez carreira em redações e agências de comunicação na área de economia e finanças pessoais.

"Adorava a agitação do jornalismo, mas sempre tive claro que minha opção de carreira era  o emprendedorismo", relembra. Formou uma sociedade com outras duas jornalistas especializados como ela para criar um site para mulheres. 

Sem foco definido, foi ouvir quem entendia do assunto. "Descobri a importância de procurar outras opiniões antes de implantar o negócio." O conselho mais ouvido foi se concentrarem no que sabiam fazer – orientações sobre finanças. Em especial finanças para mulheres.

"No começo, duvidei que houvesse um jeito feminino para lidar com finanças", relembra. "Pesquisamos muito e logo entendi. Os homens lidam com  dinheiro há séculos e as mulheres só puderam ter CPF há 50 anos." Há machismo, ela constatou, mas há  desafios diferentes. 

"Mesmo quando não é dona do negócio, as mulheres cuidam das despesas da casa e até hoje são responsáveis pela principais decisões de consumo, como a compra da casa própria e do automóvel da família." 

A ideia de finanças femininas passou a justificar o novo negócio. "Quando finalmente consegui colocar o site no ar", relembra, "não tinha mais sócias e o plano de negócios tinha virado outro. Empreender realmente é uma aventura."

Como não obteve anunciantes no início, passou a fazer produção de conteúdo para empresas e o negócio se viabilizou. "O site havia feito o que o mercado financeira tentava e não conseguia – encontrar a linguagem certa para falar com as mulheres, explicar o mundo das finanças e trazê-las para o debate."

Para quem pensa que se trata apenas de uma questão de número, ela informa: "Educação financeira tem a ver com comportamento. Não sou uma especialista em números, sou uma tradutora de finanças. Quero ajudar o maior numero de mulheres a trabalhar sua vida financeira e a se organizar."

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Foto: Redação DC