Negócios

Desemprego e inflação impulsionam os atacarejos


Com custos inferiores aos de supermercados, as lojas desse modelo viram alternativa para consumidores e pequenas empresas que buscam preços baixos


  Por Fátima Fernandes 11 de Abril de 2016 às 08:30

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Dez em cada dez empresários citam desemprego e inflação como duas entre as principais razões de queda de faturamento. Há, porém, um setor que tem aproveitado uma oportunidade em meio à conjuntura negativa.

É o chamado atacarejo ou cash and carry, como é conhecido nos Estados Unidos o modelo de loja com custo baixo, que atende tanto o consumidor final como empresas de pequeno porte.

Com o aumento da inflação, os consumidores, mais do que nunca, correm atrás de ofertas. E o atacarejo consegue vender com preços até 30% inferiores aos de supermercados, de acordo com representantes do segmento.

Como? Os espaços são bem mais simples. Quem conhece a modalidade já deve ter notado que, muitas vezes, as lojas não possuem nem ar condicionado.

A despesa sobre a venda de um atacarejo é menor do que 10%. Como base de comparação, em um supermercado esse percentual é praticamente o dobro.    

O atacarejo, um negócio que que movimenta aproximadamente R$ 60 bilhões por ano no Brasil, também é cada vez mais opção de comprar de pequenos empreendedores, principalmente aqueles quer surgiram com o desemprego.

Com a crise, os food trucks estão se multiplicando, assim como a fabricação caseira de bolos, doces e salgados sob encomenda. E é no ‘atacarejo’ que esses novos donos de pequenos negócios vão se abastecer.

“Neste cenário de inflação em alta, o consumidor está cada vez mais considerando a relação preço-custo-benefício. Os atacarejos surgem como uma boa alternativa”, afirma Tatiene Vale, executiva de atendimento da Nielsen.

Essa mudança do comportamento do consumidor, que não se incomoda de percorrer distâncias mais longas para comprar produtos mais em conta, remete à década de 1980.

Com a inflação mensal na casa de dois dígitos, os hipermercados surgiam, nos anos 80, como uma opção de preços mais baratos.

Levantamento feito pela Nielsen no ano passado mostra que o consumidor do atacarejo gasta, em média, 12% menos e compra 9% mais itens do que nos supermercados.

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Neste momento de orçamento apertado, eis aí um forte motivo para o brasileiro andar mais e pagar menos, assim como fazia na década de 80 ao buscar os hipermercados.

“Apesar de a pessoa jurídica representar a maior parte da venda do atacarejo, cresce a participação do consumidor final no setor”, afirma Tatiene.

Na rede Roldão, com 27 lojas no Estado de São Paulo, a fatia de pessoas físicas nas vendas da empresa, de aproximadamente R$ 2,2 bilhões no ano passado, subiu de 28% para 35%, de acordo com o empresário Ricardo Roldão.

ROLDÃO: PARTICIPAÇÃO DE PESSOA FÍSICA NAS VENDAS SALTOU DE 28% PARA 35%

Roldão preside a recém-criada Abaas (Associação Brasileira do Atacado de Autosserviço), que reúne nove empresas com pouco mais de 400 lojas espalhadas pelo país, que empregam cerca de 78 mil pessoas.

Na rede Assaí, com 96 lojas no país, das quais 51 no Estado de São Paulo, a participação do consumidor final na receita da empresa, de cerca de R$ 11,3 bilhões em 2015, subiu de cerca de 40% para 50% no ano passado, de acordo com seu presidente Belmiro Gomes.

Ainda de acordo com a Nielsen, em 2015, quando praticamente todo o varejo estava encolhendo, o segmento de atacarejo foi responsável pela abertura de 49 lojas, o que representou um crescimento de 47% em pontos comerciais na comparação com 2014.

Em 2014, a rede Assaí abriu a primeira loja no interior de Pernambuco, em Garanhuns, a primeira no interior da Bahia, em Jequié, e a primeira no interior do Ceará, em Sobral.

Com a expansão de lojas, o faturamento da rede Assaí subiu 25,5% no ano passado, e atingiu R$ 11,3 bilhões. “É um bom crescimento, lembrando que o nosso setor já vinha crescendo com taxas de 30% antes da crise”, diz Gomes.

O consumidor, de acordo com ele, está descobrindo o atacarejo.

E não é só isso. Com as restrições de tráfego de veículos nas regiões metropolitanas, as indústrias estão vendo o atacarejo como um distribuidor complementar, diz ele.

“Os pequenos comerciantes, como donos de padarias, pastelarias, minimercados têm nos procurado mais", afirma Gomes. "Está cada vez mais difícil ver caminhões de indústrias nas portas desses pequenos estabelecimentos, que passaram a comprar o que realmente precisam, evitando os estoques."

A rede Roldão já abriu três novas lojas no ano passado.

Tudo indica, de acordo com Gomes e Roldão, que este cenário de ventos a favor não muda neste ano.

A rede Assaí possui nove lojas em construção em nove Estados brasileiros e pretende abrir 12 lojas neste ano. Cada loja, com aproximadamente 12 mil metros de área construída, deve custar entre R$ 35 milhões e R$ 45 milhões.

A rede Roldão planeja inaugurar mais cinco lojas no Estado de São Paulo, duas na capital e três no interior (Campinas, Santos e Osasco), com investimentos de R$ 70 milhões R$ 80 milhões, respectivamente.

“A tendência do setor é de continuar crescendo dois dígitos. As multinacionais não abrem mais supermercados e hipermercados, abrem agora atacados”, afirma Roldão.

Para Nelson Barrizzelli, consultor especializado em varejo, o atacarejo ou o cash and carry é, de fato, um canal de compra excelente para o consumidor, principalmente, em época de crise.

Se a economia voltar a crescer, de acordo com ele, esse modelo de loja deve perder clientes, assim como os hipermercados perderam em período de expansão da economia.

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Quando a economia brasileira crescia os supermercados de vizinhança garanhavam força. 

“É bom que as redes de 'atacarejo' se organizem nesta época para poder enfrentar a fase da descida da ladeira, assim como aconteceu com os hipermercados”, diz ele.

Os formatos de loja, de acordo com Barrizzelli, seguem o chamado movimento da sanfona, expandem e diminuem com o surgimento de novos formatos, como é histórico no varejo.

Mais: para ele, são poucos as redes de ‘atacarejo’ que sabem exatamente qual é a participação do consumidor final no faturamento da empresa.

É que muitos consumidores, diz ele, são também empreendedores, trabalham em casa, e, portanto, compram como pessoa física.

“Toda essa expansão do setor vai durar um tempo. Depois, o 'atacarejo' vai voltar a ser o que é, um canal de compra para o varejista de pequeno porte e para o transformador.”

 

Foto: Thinkstock