Negócios

Demissões nas grandes redes expõem o tamanho da crise


De janeiro a outubro, Pão de Açúcar, Carrefour, Marisa, Riachuelo e C&A dispensaram, juntas, quase 7 mil funcionários na capital, de acordo com o Sindicato dos Comerciários de São Paulo


  Por Fátima Fernandes 09 de Novembro de 2015 às 08:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Com a fuga crescente de clientes das lojas não seria surpresa se o número de demissões no comércio desse um salto neste ano.

De janeiro a outubro, o Sindicato dos Comerciários de São Paulo realizou 104 mil homologações de rescisão de contrato de trabalho na cidade de São Paulo - ou cerca de 10 mil homologações por mês.

O número impressiona. Mas, curiosamente, não está muito distante dos registrados nos últimos dois anos, quando não havia nem sinal de crise. Em 2013 e 2014, as homologações somaram 121,9 mil e 122,8 mil, respectivamente.

Se for mantido em novembro e dezembro o número de outubro (10,3 mil homologações), o sindicato fechará este ano com cerca de 123 mil homologações, um pouco mais do que nos dois anos anteriores.

O que tem chamado a atenção do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, neste ano, porém, são as dispensas em massa realizadas por grandes redes do varejo.

Pão de Açúcar e Carrefour lideram a lista de 11 grandes redes listadas pelo sindicato, com demissões de 4.653 e 2.179 funcionários, respectivamente, de janeiro a outubro.

Outras empresas que fizeram grandes dispensas, no período, de acordo com o sindicato: Marisa (839), Riachuelo (577), C&A (588), Pastorinho (225) e Zara (139).

“São números que chamam a atenção porque essas redes dão sustentação ao mercado de trabalho no comércio”, afirma Josimar Andrade, diretor de relações sindicais da entidade dos comerciários.

É bom lembrar que, no segmento de supermercados, por exemplo, a rotatividade de trabalhadores sempre foi volumosa, com ou sem crise.

As redes costumam criar um teto de salário, o que faz com que o funcionário tenha uma vida útil dentro da empresa, de acordo com Josimar.

“A cada dois anos, cerca de 70% dos trabalhadores de supermercados são demitidos. É uma forma de a empresa voltar a pagar o piso salarial para os novos empregados”, diz.

Esse piso, hoje, é de pouco mais de R$ 1.000 por mês.

Neste ano, com a crise, diz ele, o cenário está mais complicado para o comerciante e, como consequencia, para os trabalhadores do comércio.

De janeiro a outubro do ano passado, por exemplo, o sindicato contabilizou 1.827 demissões do Pão de Açúcar.

Neste ano, no mesmo período, já foram realizadas 4.653 homologações de rescisão de contrato de trabalho de funcionários da rede.

No caso do Carrefour, foram 1.280 homologações no ano passado e 2.179 homologações neste ano, no período. Há outros exemplos no quadro abaixo.

“As redes estão enfrentando queda de vendas e alta de custos e, portanto, estão mais atentas à produtividade de cada loja”, afirma Josimar.

Os grupos multinacionais, em especial, estão fazendo reestruturação praticamente em todas as áreas para se adaptar à situação econômica do país, até porque precisam prestar contas constantemente para as suas matrizes.

Qualquer loja considerada improdutiva, diz Josimar, vai ser fechada e, qualquer funcionário considerado “extra”, vai ser dispensado, e sem dó.

REPOSIÇÃO DE FUNCIONÁRIOS

É possível que uma parte dos empregados dispensados neste ano seja reposta com funcionários com salário menor, como historicamente acontece.

Isso deve acontecer, na avaliação do sindicato dos comerciários, mais intensamente entre os supermercados.

Nas redes de roupas, como Renner, Marisa, C&A, Riachuelo, a reposição, se houver, segundo o sindicato, deve ser menor, até porque este é um ramo que deve se recuperar bem mais lentamente do que o de supermercados.

Levantamento realizado pelo Dieese identificou que, nos últimos 12 meses terminados em setembro deste ano, foram criados 100 mil postos de trabalho no comércio na região metropolitana de São Paulo.

Nos setores de indústria, construção e serviços, já houve perda de empregos, no período. O que mostra que, no varejo, pode estar havendo, sim, a troca de trabalhadores que ganham mais por aqueles que ganham menos.

A informação mais recente do Ministério do Trabalho já revela um quadro também negativo para o emprego no comércio.

Em setembro, no Estado de São Paulo, houve mais demissão do que contratação no comércio, o que resultou na perda de 4,9 mil postos de trabalho.

De janeiro a setembro, a perda foi de 32,4 mil empregos e, nos últimos 12 meses terminados em setembro, de 25,3 mil empregos.

O fato é que, com a crise, é difícil achar uma empresa, seja qual for o porte, que não esteja aproveitando o momento para rever produtos, processos e quadro de pessoal.

“As empresas estão aproveitando o momento para buscar eficiência, e isso envolve todas as áreas”, afirma Eduardo Terra, consultor de varejo e presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC).

Quando o consumo estava ‘bombando’, segundo afirma, as redes de lojas não estavam preocupadas em identificar loja deficitária e funcionário não produtivo.

A situação hoje é outra. A tolerância do varejo com loja deficitária e funcionário médio está baixa.

“Há uma onda de busca por eficiência muito forte hoje no setor”, diz Terra.

Durante anos, com o boom de consumo, os reajustes de salários dos comerciários superaram a inflação.  Com a crise, é natural, diz o consultor, que as redes busquem otimizar os custos, o que envolve mexer no quadro de pessoal.

Depois do produto, o maior custo de uma empresa de varejo, aponta Terra, é a mão de obra, seguida de aluguel e energia elétrica.

“No caso de produto e aluguel é possível negociar. No caso de energia, não dá para negociar tarifa, só tentar gastar menos energia. No caso de mão de obra, se, a loja não vende, não tem como manter os empregos”, diz.

EXPECTATIVAS

Se depender das expectativas dos comerciantes paulistas, o cenário não deve se alterar.

Pelo sétimo mês consecutivo, o Indice Fecap  que revela as expectativas para os negócios do comércio registrou, em outubro,  o menor nível de sua série histórica (81,64 pontos), iniciada em 2004.

“O pessimismo geral é reflexo deste momento. O emprego e a massa real de salários estão diminuindo, com impacto na queda de vendas e em demissões”, afirma Eric Brasil, professor da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).

A boa notícia é que para o próximo trimestre, as expectativas dos comerciantes melhorararam. O Índice Futuro apresentou avanço de 1,9%, para 88,6 pontos, em outubro, na comparação com o mês anterior. Essa pontuação, de qualquer forma, é 26,8% menor do que a registrada em igual período do ano passado.

Para o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, o cenário atual não mudará até o primeiro semestre de 2016.

Foto: Estadão Conteúdo