Negócios

Demanda por carne de cordeiro aumenta produção no interior de São Paulo


A produção de carne de cordeiro faz parte de um dos mercados que mais crescem no país - em São Paulo, regiões de Votuporanga e Vale do Paraíba se destacam


  Por Mariana Missiaggia 21 de Julho de 2015 às 12:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


O mercado de ovinos no Estado de São Paulo vive hoje o que a carne bovina viveu na década de 1970. Por insistência de pequenos criadores, o cenário interno está em expansão graças à padronização do processo produtivo - que, aos poucos, cria maior diversificação e agrega valor ao produto que, a priori, pode ser considerado uma commodity.

A elevação do consumo de carne de cordeiro em supermercados e restaurantes incentiva alianças entre frigoríficos e produtores. No entanto, a falta de dados e regulamentação do mercado ainda bloqueiam o desenvolvimento de muitos negócios. A afirmação é de Bruno Garcia Moreira, presidente da ASPACO (Associação Paulista de Criadores de Ovinos). 

“Cada leitura que faço me dá um novo parâmetro sobre a dimensão do rebanho paulista e brasileiro. Os entes dessa cadeia produtiva estão isolados – produtor, consumidor, comércio, e indústria”. 

PARA MOREIRA, DA ASPACO, OVINOCULTURA PRECISA DE INVESTIMENTOS E APOIO DO GOVERNO

Com uma demanda que cresce 20% ao ano, a ideia é que associações como a Aspaco e a ABC Dorper firmem parcerias com o Sebrae e o Governo do Estado para incentivar e fomentar a ovinocultura paulista. “Aqui (SP) temos uma excelente qualidade genética de ovinos. O diagnóstico é o primeiro passo para que possamos vislumbrar algo muito maior”, diz Moreira.

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CORDEIRO NO BRASIL

Com a produção ainda em crescimento, o Brasil tem 70% de sua demanda interna abastecida pelo Uruguai. O consumo nacional está estimado em cerca de 700 gramas ao ano por pessoa. O que pode parecer um número considerável se torna completamente inexpressivo se comparado ao consumo de 37 quilos da carne bovina durante os mesmos 12 meses.  Para comparação, a Nova Zelândia consome 40 quilos per capita/ano de carne de cordeiro e a Austrália 20 quilos.

No interior de São Paulo, formar associações e se organizar em maior escala foi um dos caminhos encontrados pelos produtores para diminuir os custos na produção, investir em tecnologia e ter maior poder de negociação com compradores. Na maior parte dos casos, a ação é orientada pelo AgroSebrae para melhorar a competitividade das pequenas propriedades rurais do Estado. A ação baseia-se na melhoria de produto e na abertura de novos mercados, segundo Viviane Karina Gianlorenco, consultora do AgroSebrae. 

Em 2009, uma ação do Sebrae mapeou 11 núcleos de criadores em diferentes regiões do Estado. No entanto, a falta de investimentos e dificuldades do ramo fez esse número ser reduzido para somente dois núcleos - região de Jales/Votuporanga e Bauru – ambas com produções em ascensão.  

16 CRIADORES DO VALE DO PARAÍBA FORMARAM UMA CENTRAL DE NEGÓCIOS

A Ascorj (Associação dos Criadores de Ovinos da Região de Jales), por exemplo, está focada em um projeto piloto para o melhoramento genético do rebanho comercial de ovinos - utilizando sêmen das raças Dorper e White Dorper - atividade fundamental para o desenvolvimento dos criadores de ovinos. 

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Criadores de cidades como Franca e Marília também tentam seguir com o negócio, enquanto no Vale do Paraíba, 16 criadores de ovinos e caprinos fundaram uma Central de Negócios, em 2014, para ter mais competitividade no mercado, por meio de ações conjuntas de compra, venda e troca de tecnologias.

Além de reduzir custos, padronizar a qualidade dos cortes também é uma preocupação comum em cidades como Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, São Luiz do Paraitinga, Silveiras, Pindamonhangaba e Taubaté. 

FRIGORÍFICO ESPECIALIZADO

Foi durante uma degustação há 14 anos, que Robson Leite, de 47 anos, fundador do frigorífico Savana Food - produtor e distribuidor de carne ovina, conheceu a carne de cordeiro. Pesquisando sobre o assunto, Leite descobriu que tudo o que ele consumia era importado. 

“O assunto me interessou e fiz um plano de negócios.” Na época, Leite se uniu a outros dez amigos, e consultou 180 chefs de cozinha para descobrir o quê eles queriam e quais cortes interessavam. Um ano depois, a Savana Food se lançou na Fispal, considerada a maior feira do setor de food service na América Latina. 

CORTE DE CORDEIRO DA SAVANA ESTÁ PRESENTE NO CARDÁPIO DO RESTAURANTE FASANO

Com 58 cortes a venda, Leite conquistou o restaurante Fasano como primeiro cliente. Tão logo o lombo de cordeiro entrou para o cardápio do restaurante, um grande número de novos clientes chegou à Savana com diferentes necessidades. 

“A maior dificuldade e preocupação de qualquer distribuidor é garantir a permanência do cordeiro no cardápio de seus clientes”, diz. “A safra vai de outubro a março, mas temos que nos preparar para atendê-los o ano todo.”

CENÁRIO PAULISTANO

Hoje, a Savana distribui 120 toneladas de cordeiro por mês e é responsável pela presença dos cortes em 80% dos restaurantes e churrascarias de São Paulo, e grandes redes de supermercado, como Pão de Açúcar, Carrefour, Mambo, e Assaí. 

Estima-se que o Brasil tenha um rebanho de 17 milhões e que a maior parte deste número esteja no Nordeste. Para abastecer o Estado de São Paulo seriam necessários 4 milhões de cabeças de fêmeas matrizes. Porém, o Estado de São Paulo não tem nem 700 mil cabeças. “O Brasil ainda tem um rebanho muito fragmentado, é preciso desenvolvê-lo”, diz.

Segundo Leite, nos últimos dois anos houve um aumento de 400% no consumo de cordeiro no varejo. “Acredito que daqui a 30 anos já teremos crescido muito e estaremos forte no mercado, pois temos tradição pecuária. Precisamos de uma ação forte do governo para nos tornar uma cadeia produtiva importante”. 

CORDEIRO X CARNEIRO

Assim como a cadeia produtiva, o conhecimento do brasileiro sobre a carne de cordeiro ainda é muito limitado. A falta de diferenciação entre a carne de cordeiro e a carne de carneiro leva os consumidores a não exigirem essa especificação no ato da compra. No mercado, por exemplo, a carne é identificada como ovina. 

Por isso é importante estar atento a algumas diferenças. A qualidade da carne é influenciada pelo sistema de manejo (tipo de pasto), idade do animal, pelo peso de abate, nutrição, sexo e raça.

A carne de carneiro é o animal adulto, e existe uma tendência de animais mais velhos ou mais pesados apresentarem carne mais escura. O sabor da carne é mais intenso nos animais mais velhos, principalmente nos animais abatidos com mais de um ano de idade, ou seja, a carne de cordeiro, que é o animal com até um ano de idade pode ser mais macia do que carneiros, e ter odor e sabor mais suave que a carne de carneiro.

Foto: Thinkstock