Negócios

De braços dados com os chineses


Fundadora da FLC, líder do setor de lâmpadas, Alcione de Albanesi respira empreendedorismo desde a adolescência. Depois de vender parte da empresa, está inovando em negócios sociais


  Por Inês Godinho 04 de Agosto de 2015 às 13:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Em 1992, a China era apenas um país exótico e distante para o empresariado brasileiro. Deixou de ser para a paulistana Alcione de Albanesi. Aos 31 anos, ela tocava seu segundo negócio, uma lojinha de material elétrico na rua Santa Ifigênia, coração do comércio eletro-eletrônico na capital paulista.

Em viagem a Miami, conheceu as lâmpadas fluorescentes econômicas made in China e se espantou com a diferença de preço do produto vendido no Brasil, três vezes mais caro.

ALCIONE CONCILIA UMA ONG COM A VIDA DE EMPREENDEDORA

Alcione vislumbrou nesse detalhe um novo rumo para o seu pequeno negócio, em um momento em que o Brasil havia acabado de se abrir para as importações.

Atirada por natureza, resolveu ir pessoalmente à China para conhecer o produto e encomendar um lote. "Imagine uma mulher ocidental, alta, de cabelo encaracolado, sem falar uma palavra em mandarim negociando com 150 empresários que não falavam uma palavra de inglês", conta. 

Enfrentou uma verdadeira odisséia (“perdi toda a primeira compra - três containers e minhas economias”, lembra) até estabelecer uma parceria sólida e duradoura com os fabricantes chineses. 

A aliança fez da FLC, empresa criada por ela para comercializar o produto, a pioneira e líder do segmento no Brasil. “Conquistei o mercado das multinacionais no país”, diz. Sua empresa fechou 2014 com faturamento de R$ 340 milhões e 36% de participação no mercado de lâmpadas.

Quando os chineses ainda continuavam longe de ser a principal preocupação da pauta comercial brasileira, Alcione montou uma rede de fornecedores exclusivos, com 3 mil operários a serviço da FLC na China, e um laboratório de testes de qualidade para que o produto chegue impecável ao Brasil.

“Até o ano passado, estive 71 vezes na China”, contabiliza. “Acompanhei o crescimento do país.” O nome da empresa, aliás, tem um toque chinês. FLC significa Fortune Light Corporation.

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Fundadora e única acionista até agosto de 2014, ela agora preside o conselho de administração e detém 20% da FLC. O restante foi vendido para o Victoria Capital Partners, fundo de investimento de private equity especializado no mercado latino-americano.

NA FÁBRICA DE LED DA FLC, EM SP

“Ao mesmo tempo em que dirigia a FLC, investi em um negócio social, a ONG Amigos do Bem”, afirma. “Cresceu tanto que precisei escolher para qual me dedicar. Senti que tinha cumprido um ciclo com a empresa. Foi duro tomar a decisão, mas a ONG precisava mais de mim.” A entidade se dedica a projetos no semi-árido nordestino.
 
DE OLHO NO FUTURO

Arrojo, determinação e talentos comerciais compõem o menu de qualidades que Alcione afirma possuir como empreendedora. Mas o que explica mesmo seu sucesso da empresária é um aguçado senso de oportunidade. Ou, quem sabe, intuição para coisas que ainda vão acontecer. 

Quando enxergou o potencial das lâmpadas fluorescentes econômicas, o raciocínio que fez foi: “Esta lâmpada vai substituir as incandescentes.” Bingo.

Pouco tempo depois, o governo anunciou o plano de substituição das lâmpadas comuns até terem a comercialização totalmente proibida neste ano. Demorou para convencer o mercado, mas quando o comércio aderiu, a FLC estava preparada para atender. 

O salto aconteceu em 2001, com a crise do apagão. Pouco antes, Alcione fora à China para negociar um grande aumento no volume de encomendas. No Brasil, da noite para o dia, a população se viu obrigada a economizar energia. Isso disparou uma corrida para as lâmpadas econômicas. 

Com um relacionamento estruturado com os fornecedores chineses, a FLC conseguiu rapidamente aumentar a comercialização e se tornou a única empresa com capacidade de estoque para atender a enorme demanda.

“Trouxemos mercadoria até por fretamento aéreo”, conta. “Conseguimos capitalizar a empresa e conquistamos uma grande fatia do mercado.”

A nova aposta no futuro está na fábrica de lâmpadas LED, inaugurada em 2014, a primeira do país. Ela sempre quis ter a própria produção, mas a China detém as maiores reservas de fósforo, matéria-prima da lâmpada fluorescente, inexistente no Brasil.

O surgimento da tecnologia LED, a grande aposta para a produção sustentável do setor, abriu a oportunidade para concretizar o sonho. Foi a última grande tacada antes de vender a empresa.

A fábrica está instalada no bairro do Limão, em São Paulo e consumiu R$ 11 milhões. Se correr tudo bem, a FLC tem um mercado inteiro a explorar, já que o consumo nacional representa somente 15% do mercado de lâmpadas, inibido pelo preço ainda elevado do produto importado.

A fábrica funciona como um teste. Mesmo fora da empresa, ela deixou encaminhado o projeto de construir uma fábrica para produção em grande escala no Nordeste até 2016.
 
DESDE PEQUENINA

A índole empreendedora parece ter nascido com ela. Veja como a veia comercial se desenvolveu na empresária ao longo da vida:
*Aos 8 anos, vendia rifas dos presentes que ganhava de aniversário
*Aos 14 anos, passou uma temporada nos Estados Unidos para aprender inglês, financiada por ela própria, poupadora desde criança
*Aos 16, se tornou modelo, mas logo achou muito mais interessante o trabalho de confecção
*Aos 17, a confecção que criou vendia para a C&A e Lojas Marisa e tinha 80 costureiras
*Vendeu bem a empresa para comprar uma loja da rua Santa Ifigênia, que considerava um símbolo de prosperidade
*Aos 30 anos, foi à China para conseguir a representação das lâmpadas econômicas... e a história é conhecida

APRENDIZADOS

Alcione gosta de repassar o aprendizado de longos anos para os novos empresários. Participa, entre outros, dos programas de empreendedorismo da empresa de serviços profissionais EY e da ONG Endeavor como palestrante e mentora. Ela mostra como as questões profissionais estão intimamente ligadas às pessoais para quem empreende:

Inovação e oportunidade – "Sempre fui atenta a olhar se o que fazia antes continuava valendo para onde queríamos chegar. Um empreendedor não pode usar o mesmo tanto de ontem para hoje, especialmente porque está tudo mais rápido. Procurava sempre trazer a mais nova tecnologia em lâmpadas."

Formação – "Sou autodidata, não tive aprendizado formal. Aproveitei meu jeito de observadora detalhista. Sempre pesquisei muito, observei como empresas bem sucedidas trabalhavam. Na soma, houve mais acertos que erros, mas os erros ajudaram a criar musculatura. Consegui implantar uma fábrica sem nunca ter tido experiência com produção."

Capital para crescer – "Comprei a loja de materiais elétricos com o dinheiro da venda da confecção. Comecei a importação de lâmpadas com recursos próprios. Sempre fui muito econômica e reinvestia a maior parte do lucro da empresa. Nunca tive necessidade de sócios ou investidores."

Obsessão pela qualidade – "Desde a primeira compra errada de lâmpadas, vi a importância de zelar pela qualidade. Logo no início, obtive a certificação voluntária no Inmetro e montei um laboratório para testes de qualidade na China."

Dedicação ao trabalho – "Para tornar a FLC líder de mercado, eu trabalhava 15 horas todos os dias da semana. Adoro produzir e ver o resultado. Encerrei o ciclo com a FLC e agora a mesma dedicação vai para a Amigos do Bem."

Profissionalização – "Estruturei a empresa em 2008 e me cerquei de pessoas boas e comprometidas. Elas tocam o dia a dia da empresa. Quando decidi vender, montei um conselho de administração, o que não é fácil."

Aprender a delegar – "Sei delegar, mas preciso ter muita segurança. Montei uma grande equipe com este modo de trabalhar. Mas sou consciente de que se tivesse delegado um pouco, não teria me cansado tanto."

Pensar junto – "Em todos os momentos cruciais da minha vida, como a venda da FLC, sempre busquei ajuda e me coloquei na posição de aprender. Me mantive próxima dos fornecedores e clientes. Muitos amigos, inclusive presidentes de empresa, me orientaram a fazer as escolhas certas. Mesmo como líderes gestores, a gente precisa dos amigos."

Determinação - "Não consigo desistir e sempre procurei vencer o 'eu te disse!'. Quando perdi o lote inteiro da primeira compra na China, criei coragem e voltei lá. Consegui que os fabricantes aceitassem a troca da mercadoria. Com isto, construí uma ponte com eles que funciona até hoje."