Negócios

Crise leva supermercados a adiar compras para o final de ano


Para driblar a alta do dólar, importadoras, como a All Food (foto), tentam obter descontos de fornecedor do exterior. Supermercadistas vão comprar até 40% menos para o Natal


  Por Fátima Fernandes 18 de Setembro de 2015 às 10:13

  | Editora do site Varejo em Dia


Faltam três meses para o Natal. É nesta época do ano que os supermercados começam a negociar com indústrias e importadoras preços e volumes de vendas para o final do ano.

Com a economia em recessão, o consumo em queda, os custos em alta e o dólar perto de R$ 4 os supermercadistas, especialmente os pequenos, não querem, por ora, nem pensar no assunto.

De janeiro a julho, o faturamento real dos supermercados paulistas caiu 1% na comparação com igual período do ano passado. Desde 2006 não havia retração nas vendas do setor.

Este cenário tirou o ânimo dos lojistas para fazer qualquer programação de compras, mesmo para o melhor período de vendas do ano: o mês de dezembro.

“As encomendas dos supermercados para o final de ano estão sendo postergadas. Os lojistas estão em compasso de espera, inseguros, revendo volumes”, afirma Fabiano Caridade, diretor comercial da All Food, importadora de alimentos e bebidas.

Com 20 anos no mercado, não é a primeira vez que a All Food enfrenta uma crise econômica. Neste ano, porém, segundo Caridade, o supermercadista está mais temeroso do que em outras vezes porque houve forte desvalorização do real em um prazo considerado curto.

A Allfood importa queijos, embutidos e frios da Europa, principalmente. De 1º de abril a 1º de setembro, o euro em relação ao real valorizou entre 30% e 34%. Só neste ano, a empresa teve de alterar cinco vezes as tabelas de preços por conta da variação cambial.

“Decidimos não comprar alguns produtos importados, como panetones e, no caso de produtos natalinos, vamos cortar as compras em 40%”, diz Mercedes P. Mosquera, diretora operacional do supermercado Madrid, com duas lojas. No caso de produtos nacionais, o corte será de 15%.

Com 43 anos no mercado, o Madrid atende principalmente as classes A e B, com lojas em Higienópolis e no Paraíso. E mesmo essa clientela, com maior poder aquisitivo, cortou as compras neste ano.

Quem comprava quatro caixas de sabão em pó, agora leva duas. Quem adquiria cinco pacotes de biscoito, agora leva três. “Isso acontece com todos os produtos. É uma fase difícil”, afirma ela.

Luciana Yoneta, sócia do supermercado Yoneta, localizado em Carapicuíba, diz que também vai reduzir em 15% as compras para o final de ano. “Queremos evitar sobras de produtos”, diz ela.

Marcelo Saraiva, sócio-proprietário do Mercadinho Bonanza, que fica no Jabaquara, diz que nem pensa no final de ano, até porque as vendas estão pelo menos 10% menores do que no ano passado.

BUSCA POR DESCONTOS NO EXTERIOR

Para não repassar toda a desvalorização do real para os preços, as importadoras estão apelando para a boa vontade dos fornecedores no exterior.

“Varia de exportador para exportador, mas estamos conseguindo algum desconto”, afirma Emília Oliveira, diretora comercial da Calimp, importadora de frios, queijos e massas, principalmente da Europa.

A Calimp reajustou duas vezes a tabela de preços, em maio, e neste mês. Os aumentos foram menores do que a variação do real em relação ao euro. “Ninguém gosta de subir preços. O que estamos tentando, neste momento, é negociar com os exportadores e com os supermercados para que todos diminuam as margens”, afirma Emília.

A oscilação da taxa de câmbio, diz ela, dificulta fazer previsão, e as importadoras precisam ter uma projeção de preços para poder programar pagamento dos fornecedores quando os produtos são entregues no Brasil. “Essa variação cambial diária é aflitiva”, diz ela.

Por conta deste cenário, deve se intensificar a troca de produtos importados por nacional neste ano nas redes de supermercados, segundo Rodrigo Mariano, gerente do departamento de economia e pesquisa da Apas (Associação Paulista de Supermercados). Essa substituição, diz ele, deverá ser mais nítida nas linhas de vinhos, azeites e produtos em conservas.

Todo este cenário econômico provocou mudança nos hábitos dos consumidores. Mariano diz que pesquisas indicam que as compras nos supermercados estão se concentrando mais nos dez primeiros dias do mês, como reflexo da alta da inflação.

O preço voltou a ser o principal atrativo de compra para o cliente,que, no período de consumo em alta, estava dando preferência para as marcas líderes, mais caras. As negociações entre indústrias e supermercadistas, diz Mariano, também estão mais intensas. Há um grande esforço para que os preços dos produtos não subam ou subam o mínimo possível na tentativa de voltar a encher as lojas de clientes.

Apesar de todo esse esforço, a Apas estima queda de 0,5% no faturamento real do setor neste ano na comparação com 2014.    

Foto: Divulgação