Negócios

Crise leva Lojas Cem a reduzir em 27% o quadro de funcionários


Faturamento da rede, de R$ 4,3 bilhões anuais, encolheu 18% em termos reais em dois anos, mas empresa mantém plano de investir até R$ 70 milhões para abrir mais lojas em 2017


  Por Fátima Fernandes 20 de Janeiro de 2017 às 08:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Uma das maiores redes de eletroeletrônicos do país, a Lojas Cem, nunca fechou uma loja em quase 65 anos de existência. Mas nem por isso deixou de sentir os efeitos da crise econômica nos últimos dois anos, quando reduziu o quadro de pessoal em 27%, o que corresponde a cerca de 3,5 mil trabalhadores dispensados.

Com 245 lojas em quatro estados, a empresa, comandada pela família Dalla Vecchia, emprega atualmente 9,5 mil pessoas.

A recessão também não poupou a concorrência. No mesmo período, 17 das maiores redes varejistas nacionais dispensaram quase 22 mil funcionários, somente na capital paulista, de acordo com o Sindicato dos Comerciários de São Paulo.  

Há três anos, o faturamento da Lojas Cem, com sede na cidade de Salto (SP), tem sido de R$ 4,3 bilhões. Considerando a inflação do período, a receita da companhia encolheu aproximadamente 18%.

“Essa é a realidade. Se não fosse a recessão, estaríamos faturando quase 20% mais, na faixa de R$ 5 bilhões, como era o planejado antes da crise”, afirma Natale Dalla Vecchia, cofundador da empresa.

CENTRO DE DISTRIBUIÇÃO DA REDE EM SALTO

 A redução da taxa básica de juros Selic para 13% ao ano e a expectativa de que a inflação será menor em 2017 são boas notícias.

Mas, na avaliação de Dalla Vecchia, não deve mudar o comportamento do consumidor já neste semestre.

Ele diz que a Lojas Cem financia diretamente o cliente, sem depender de instituições financeiras e, por isso, não deve alterar as taxas de juros – que são de 12% ao ano para parcelamentos em até seis meses, de 23% ao ano para dez meses, e de 40% ao ano para 20 meses.

Assim, o ano de 2017 começa do mesmo jeito que terminou 2016, de acordo com o cofundador da rede. O varejo de eletroeletrônicos foi um dos setores que mais sofreu com a crise e continua sentindo a falta de clientes.

De acordo com Natale, a situação financeira das redes, especialmente as médias, está tão delicada, que fabricantes de produtos eletroeletrônicos estão escolhendo a dedo as empresas com alguma capacidade financeira para fazer negócio.

“Essa crise é a mais difícil da história, mas vamos passar por ela. Continuo falando para os gerentes e supervisores que os empregos após o ajuste estão garantidos por enquanto.”

Apesar da crise, alguns fornecedores de produtos eletroeletrônicos tentaram, de acordo com ele, subir preços no final do ano passado e início deste ano. “Decidimos cortar a compra de mercadorias das indústrias que insistem nos reajustes.”

Para Dalla Vecchia, basta virar o ano para que os representantes das fábricas iniciem negociações para repassar aos preços a inflação do ano anterior.

“Quando o dólar estava perto de R$ 4, eles falavam em repasses, só que agora a cotação está perto de R$ 3. É hora de reduzir preço, não subir.” O estoque da empresa, como é praxe, dá para abastecer as lojas por 60 dias.

Mesmo com o consumo mais contido, a família Dalla Vecchia decidiu manter os planos de abrir de seis a dez lojas nos estados em que já tem presença, o que deve demandar investimentos da ordem de R$ 60 milhões a R$ 70 milhões neste ano.

“Corretores já sabem que, se aparecer um terreno com pouco mais de 1.000 metros quadrados, nós temos interesse.”

NATALE DALLA VECCHIA: O DIFÍCIL É ENFRENTAR O CONCORRENTE QUE VENDE POR UM PREÇO ABAIXO DO CUSTO

A Lojas Cem está em 230 cidades do país. Dalla Vecchia diz que a expansão da rede poderia ser até mais rápida, se não tivesse de enfrentar a falta de moral de alguns agentes públicos.

“Algumas vezes, retardamos a construção de uma loja porque não estamos dispostos a molhar a mão de um fiscal. Poucos municípios agem corretamente, infelizmente.”

Além da queda do poder aquisitivo dos consumidores, ele afirma que mais difícil foi enfrentar o preço abaixo de custo praticado pelos concorrentes no último ano.

"Para fazer dinheiro, algumas lojas venderam com prejuízo". Por isso, diz, muitas redes não vão conseguir se manter no mercado nesta recessão.

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Fotos: Fátima Fernandes