Negócios

Crise acelera rotatividade entre lojas nos shopping centers


Reajustes das tarifas públicas e de custos condominiais, aliados à queda nas vendas levam empresas a optar por lojas de rua ou até fechar as portas


  Por Karina Lignelli 03 de Outubro de 2015 às 07:30

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Alguns lojistas renegociam contratos. Outros, preferiram adiar a inauguração. E há os que optaram por lojas de rua. Mas – e esse é o caso mais preocupante – há aqueles que, em poucos meses, constatam que o negócio não têm dado o retorno esperado. E por isso, fecham. 

A rotatividade dos lojistas estabelecidos em shopping centers, que se mantinha na média histórica de 4% nos últimos anos,  já bate nos 12%, em 2015.

Foi o que revelou ontem (2/10) Nabyl Sahyoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) durante reunião mensal do Conselho de Varejo (CV) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).  

A alta das tarifas públicas, que impacta os custos de condomínio, somada à queda nas vendas do varejo tem reduzido o faturamento, e em consequência, provocado desemprego no setor - que deve crescer neste ano 8%, tal como em 2014.   

"Mas isso se apenas forem consideradas as novas lojas. Em relação às já estabelecidas, deve haver uma perda de pelo menos 2%”, disse Sahyoun. 

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Até a tradicional cooptação de temporários para o Natal deve cair em torno de 80% segundo ele, uma vez que poucos querem se arriscar em contratações para não aumentar mais os custos. 

“A preocupação é muito grande, já que 70% dos lojistas de shoppings são pequenos empresários, que estão em situação extremamente difícil no atual momento do mercado.”  

SAHYOUN, DA ALSHOP: FLEXIBILIDADE NAS NEGOCIAÇÕES

As negociações entre as partes neste momento tem sido uma prática comum: hoje, é melhor dar atenção ao lojista que já está no shopping do que correr o risco de ter que fazer uma reposição que vai demorar muito.

E que às vezes, nem vai se viabilizar financeiramente, diz Sahyoun. “Hoje, o pessoal segura uma operação por três, quatro, cinco meses. Se não der certo, fecha mesmo, e aí vira um buraco sem fundo.”

O presidente da Alshop lembra que o mercado precisa colocar 25 mil novas lojas todo ano em shoppings novos, em expansão, e até em supermercados com áreas comerciais. 

Por isso, em um ano de recessão como 2015, que deve se estender para os próximos 24 meses, os shoppings precisam ser "muito flexíveis." 

Em abril de 2016, a Alshop reunirá varejistas e autoridades no “1º Simpósio Nacional de Shoppings”, em Punta Del Leste, no Uruguai.

A ideia é discutir e procurar soluções para as principais dificuldades e pleitos do varejo, como acesso ao crédito, relações de trabalho e desburocratização. A iniciativa terá apoio da ACSP.  

SOLUÇÃO MOMENTÂNEA

A necessidade de renegociar ou mesmo encerrar operações se confirma entre as lojas-satélites e até entre as âncoras que integram o CV. Mas, há um outro lado da questão

De acordo com Nelson Kheirallah, vice-presidente da ACSP e coordenador-geral do Conselho de Varejo, mesmo com a diminuição das inaugurações de shoppings previstas para 2015 (de 28 para 14), muitos lojistas pretendem avaliar a possibilidade de protelar a abertura de alguns empreendimentos. 

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Com a atual conjuntura econômica, lojistas presentes em vários shoppings estão preocupados com os que estão previstos para inaugurar em breve. 

O temor é que se repitam as inaugurações com menos da metade das lojas operando, ou apenas 27 em 200 (caso do Atrium, em Santo André), ou até 14 de um total de 180 (Betim, MG) – o que inviabiliza a operação das demais.  

Como resultado disso, as satélites de menor porte acabam passando por dificuldades financeiras. Portanto, não terão recursos para abrir mais lojas no ano que vem. 

“Mesmo que os shoppings sejam bem comercializados, quantos vão abrir? E o consumidor, está com dinheiro para comprar? Não. Por isso é melhor postergar”, afirma Kheirallah.  

LOJAS DE RUA

Para ele, a esperança de melhora nas vendas se concentra no último trimestre de 2015 – que engloba grandes datas do calendário do varejo, como o Natal, e mais recentemente, a Black Friday, que se incorporou ao varejo físico
 
“Se (as lojas) desempenharem bem e as vendas se recuperarem, pode ser que a curva de queda se inverta. Caso contrário, muitas poderão encerrar as atividades em janeiro ou fevereiro”, alerta. 

Optar por entrar apenas em shoppings consolidados ou diminuir o tamanho dos pontos de venda – com quiosques, por exemplo - são algumas das alternativas usadas como estratégia pelas redes para se manter na briga.  

Outra tática mencionada por membros do CV na tentativa de driblar a elevação dos custos tem sido abrir lojas de rua, tanto em bairros como em cidades menores com população entre 50 mil e 100 mil habitantes. 

De acordo com Kheirallah, apesar de oferecer maior comodidade e segurança, os custos de condomínio, aluguel e fundo de propaganda dos shoppings são um peso muito grande no bolso do lojista – em especial do pequeno.  

“Mesmo vendendo a metade dos volumes em relação ao ponto em um shopping, a loja de rua tornou-se mais lucrativa.”