Negócios

Consumidor consciente faz supermercados mudarem as estratégias


Em 2016, as promoções tiveram papel determinante para o aumento no faturamento dos varejistas. Vendas do setor devem crescer de 1,5% a 2,5%, em 2017, de acordo com a Apas


  Por Mariana Missiaggia 02 de Maio de 2017 às 13:55

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Promoção, qualidade, organização e proximidade. É baseado nessa escala de importância que o atual consumidor decide em qual supermercado irá fazer compras, de acordo com pesquisa da APAS (Associação Paulista de Supermercados). 

Motivos como desemprego, inflação, menor poder de compra e elevação da carga tributária também levaram o brasileiro a tornar suas escolhas mais conscientes, e a retomar hábitos típicos de períodos de recessão, como o resgate da “compra de mês”.

Um caminho sem volta, na opinião de Rodrigo Mariano, gerente de economia e pesquisa da entidade, no que diz respeito aos hábitos de consumo nos itens de primeira necessidade (alimentação, limpeza e higiene).

Em 2016, o setor de supermercados faturou R$ 338 bilhões - um crescimento nominal de 7,1% em relação ao ano anterior. O montante representa 5,4% do PIB brasileiro. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (02/05), durante evento anual do varejo de supermercados, em São Paulo. 

Já no Estado de São Paulo, o crescimento nominal foi maior do que no ano passado, de 10%, com um faturamento total de R$ 102 bilhões. A geração de empregos diretos provocada pelo setor no estado foi 518 mil nesse período. 

Neste ano, a expectativa é de que a geração de empregos e elevação na renda do brasileiro alavanque os números do setor apenas no último trimestre do ano. Se isso se concretizar, os supermercados esperam crescimento real (descontada a inflação) de 1,5% a 2,5% nas vendas em 2017.

Para o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, a queda da inflação justifica as expectativas mais positivas para o setor em 2017. "Vamos ter um ganho de poder aquisitivo dos consumidores".

Para atrair clientes e materializar essa perspectiva, os supermercados dependerão da melhora desses indicadores econômicos. Um levantamento da Kantar Worldpanel mostra que mesmo em meio a uma leve recuperação no cenário de consumo, os consumidores não deixaram de buscar por promoções na hora da compra.

Em 2016, as promoções tiveram papeis diferentes por tipo de canal de compra, de acordo com Christine Pereira, diretora comercial e de marketing da Kantar. Esse tipo de ação aumentou a frequência de ida aos hipermercados, que tiveram crescimento de 14,5% no ano passado.

No caso dos supermercados de rede, as promoções impactaram no aumento do tíquete médio em 4,9%, e levaram mais de 1,8 milhão de novos clientes para os atacarejos, de acordo com dados da consultoria.

“Fica claro que as promoções e o calendário de ofertas são as melhores ferramentas de fidelização. Quem não faz, perde. E perde para sempre”, diz Christine.  

"Hoje, o papel dos supermercados é o de encantar os consumidores. Atacarejos e supermercados de vizinhança estão crescendo porque surpreendem”.

TENDÊNCIAS DO SETOR

Alimentação saudável - O mesmo estudo aponta que, apesar dos preços elevados, os alimentos saudáveis têm preferência na cesta de compras, especialmente pelas donas de casa acima de 50 anos. 

A busca por alimentos com forte presença de vitaminas, mineirais, fibras, Ômega 3 e proteínas no Brasil cresceu acima da média global (51%), segundo a GfK. Itens enriquecidos com vitaminas e minerais são comprados por 65% dos entrevistados no País.  

Millennials – Assim como mostram os primeiros sinais dos millennials no mercado de trabalho, esses jovens nascidos entre 1980 e meados da década de 1990, também apresentam hábitos diferenciados em relação ao consumo. 

A lista de compras desses jovens, por exemplo, é bem diferente dos de gerações anteriores. Água de coco, cappuccino e bebidas alcoólicas integram o mix de itens básicos desse público.

Trata-se também da geração mais engajada quando o assunto é fidelidade. Uma pesquisa da Nielsen mostra que, em 2016, eles reduziram a alimentação fora do lar em mais de 50% e também os gastos nos supermercados para se manter leal às marcas que mais gostam. 

Terceira idade – Representando um terço dos consumidores brasileiros, a população acima dos 50 anos busca por praticidade dentro das lojas. Carrinhos elétricos, rótulos fáceis de ler, embalagens fáceis de abrir, assistência com sacolas de compras e seções exclusivas de produtos voltados às suas necessidades são algumas das demandas observadas pela Nielsen.  

“Considerando o envelhecimento da população, até 2040 homens e mulheres com mais de 50 anos responderão pela maior proporção de consumidores”, diz Mariano.

Direito do consumidor – O acesso fácil à informação por meio de redes sociais empoderaram o consumidor, que se sente cada vez mais moderno e atento aos seus direitos. 

O IBOPE traz um cenário no qual cerca de 40 milhões de brasileiros (25% da população), declararam prestar mais atenção aos seus direitos como consumidores.

De acordo com Marcia Sola, diretora do IBOPE inteligência, os clientes estão mais críticos, racionais e preocupados em não serem enganados. 

“Um clima causado por tantos escândalos de corrupção, e a única forma que ele (cliente) tem de se expressar é pelo consumo”, diz.

Entre as faixas etárias, jovens de 16 a 24 anos são os que mais brigam por seus direitos (30% dos entrevistados), seguidos por adultos de 25 a 34 anos (28%). 

“Isso reforça o poder da internet. Essas são as camadas mais presentes nas redes sociais”, diz. 

Entre os que já deixaram de frequentar um supermercado por problemas com produtos e/ou atendimento, o resultado segue na mesma tendência: eles têm idade de 16 a 24 anos (45%) e de 25 a 34 anos (44%).

*FOTO: Thinkstock