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Como segmentos que dependem de público sobrevivem na quarentena?


Integrantes da cadeia de eventos, último setor que deve ser flexibilizado na quarentena, segmentos como o de flores e o comércio varejista de artigos para festa se reinventam para recuperar perdas de mais de 50%


  Por Karina Lignelli 09 de Julho de 2020 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


O setor de eventos, que inclui de feiras de negócio a casamentos, será o último a voltar da quarentena, de acordo com o plano de flexibilização divulgado semanalmente pelo governo do estado de São Paulo.

Mesmo com algumas regiões já na fase 3 (amarela), como é o caso da Capital e da Baixada Santista, a proibição de aglomerações para evitar o aumento da curva de contágio paralisou todo tipo de acontecimento e gerou impactos em todos os elos da cadeia, com perdas nas receitas estimadas em até 70%.

Um deles é o segmento de flores. Com mais de 20 mil casamentos adiados, a suspensão da feira semanal de flores do Ceagesp e até proibição de velórios para evitar contaminação pelo novo coronavírus, o impacto foi imediato.

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"Quando foram anunciados os primeiros casos, em março, em apenas 15 dias o faturamento chegou a zero. Tivemos um prejuízo estimado em R$ 150 milhões", diz Thamara D'Angieri, gerente de marketing da cooperativa Veiling Holambra, que reúne 400 produtores locais e é considerada a maior da América Latina.

Para não jogar no lixo toneladas de um produto perecível poucos dias após a colheita, agiu rápido. Entregou flores aos profissionais de saúde dos hospitais da PUC de Campinas e da Unicamp e em maternidades.

Também criou uma campanha, em parceria com o Ibraflor e a Cooperflora, falando sobre o poder da flor e da alegria e a beleza de um ser que traz vitalidade ao ambiente que “viralizou na internet”, segundo Thamara.

“A partir daí, muitos decoradores de casamento, que ficaram com faturamento zero, começaram a criar arranjos domésticos, e isso foi aliviando aos poucos a situação”, afirma.

Com a estabilização das compras de abastecimento, os supermercados também retomaram pedidos, em volume menor, mas levando a campanha para o ponto de venda para conscientizar o consumidor.  

Além de um trabalho jurídico junto aos estados, para provar que o cultivo de flores é parte do agronegócio e, portanto, essencial, a Veiling também tem capacitado cerca de 400 pequenas floriculturas e gardens.

Criou então um “combo de conhecimento”, segundo Thamara, que inclui uso de delivery, mídias sociais e vendas on-line para ajudar comércios de flores antigos, não assumidos por novas gerações, a não morrer. 

Crescendo em média de 10% a 13% ao ano, a cooperativa, que faturou R$ 850 milhões em 2019, tem feito projeções semanais, e trabalha com uma expectativa de queda de 15% em 2020, segundo a gerente.    

Datas como o Dia das Mães e dos Namorados ajudaram o mercado de flores a respirar um pouco, afirma. "Mas como o segundo semestre não tem datas tão significativas, planejamos trabalhar as secundárias, como o Dia da Vovó e do Amigo, e também a fazer uma grande campanha para a Primavera." 

DETALHE DA VEILING HOLAMBRA: MERCADO DOMÉSTICO AJUDOU SEGMENTO A SOBREVIVER

Agora, a Veiling procura um respiro para os produtores de flores de corte, já que 80% delas eram usadas em eventos e festas: enquanto o segmento de presentes continuou durante a quarentena, faturando entre 20% e 80% do normal, dependendo da data, o de decoração praticamente morreu, segundo Thamara.

A cooperativa também tem feito um trabalho junto aos supermercados para vender arranjos desse tipo de flor – que nesse caso, não são acondicionados em vasos, mas espetados em florais dentro da água, como ikebanas.

 

“É o nosso maior desafio, ou esse produtor não vai sobreviver”, destaca. 

COM UM EMPURRÃO DAS FESTAS JUNINAS  

Outro elo da cadeia de eventos que sofreu com os impactos das medidas restritivas foi o comércio varejista de artigos para festas. 

Com cerca de 4 mil lojas na base, muitas tiveram queda nas vendas acima de 50%, segundo levantamento da Associação Brasileira do Comércio de Artigos para Festas (Asbrafe). 

"Mas as perdas para segmentos como decoração chegaram a 100%", afirma o gestor executivo André Zolla. Até a feira de negócios promovida pela Asbrafe, a Party Experience, foi adiada para maio de 2021. 

Como o varejo de festas ficou sem caixa, a renegociação com parceiros e fornecedores, para obter condições diferenciadas, ajudou a dar fôlego aos lojistas no início da crise, segundo João Paulo de Oliveira, presidente da Asbrafe, em recente debate com especialistas sobre desafios e estratégias do segmento. 

“O fornecedor tinha estoque, mas as lojas estavam desabastecidas. Então, num primeiro momento, negociamos pagamentos fracionados e com prazo de pagamento até 60 dias, ou até o ano que vem.”

Táticas como essa, além do pagamento parcelado em três vezes “para facilitar para o consumidor final”, juntamente com cursos e vendas pela internet e redes sociais fizeram o segmento voltar a andar.  

“Os eventos diminuíram, mas não pararam. Mas começaram a pegar mesmo em junho, com as festas juninas em casa ou virtuais, nas escolas. Vendemos 70% do normal no período, mas foi um passo à frente”, destaca.

Elos menores desse segmento, que inclui não só o comércio, mas prestadores de serviço, como decoradores, bufês infantis, DJs e fotógrafos e até a indústria de artigos para festas também se movimentaram rápido.

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Kits para minifestas domésticas, arranjos não só de flores, mas de balões, criação de novos produtos, como embalagens para delivery onde antes só se produziam sofisticadas forminhas de doce para casamentos, e até lives com personagens (no caso de festas infantis) foram algumas das inovações para esse mercado não parar. 

Decorador de eventos infantis, Fábio Raian, embaixador da Party Experience e fundador do grupo Festejar & Cia., reforça que as festas-pocket ajudaram os prestadores de serviços a sobreviver nesse momento.

Entrando no ramo de embalagens, a Decora Doces começou também a movimentar o mercado de confeitaria para delivery, por exemplo, que ficou parado poucos dias, segundo a presidente Sejana Ferreira.

"E levamos algo diferente para os lojistas, que também tiraram proveito da venda desse tipo de embalagem durante o isolamento", afirma ela, que diz que vai continuar a investir nessa linha "quando tudo passar."  

Com mais de 5 mil itens no portfólio, a Megatoon e a Flexmetal Balões Metalizados também se beneficiou com essa onda do aumento das minifestas e dos pedidos delivery, afirma o presidente Alexandre Wilson de Souza.  

"Nesse momento, fizemos uma campanha forte para não deixar faltar produto nas prateleiras das lojas. É isso o que faz o cliente querer comprar e se sentir confortável em encontrar o que precisa para festejar em casa."

Com faturamento de R$ 10 bilhões anuais, o segmento deve revisar projeções de crescimento para 2020.

FOTOS: Pixabay