Negócios

Como Rufino se tornou o showman da simplicidade


Na infância, Geraldo Rufino foi catador de sucata. Hoje, o empresário é presidente do conselho da JR Diesel, empresa que fundou em 1985 e que fatura mais de R$ 50 milhões a cada ano reciclando caminhões


  Por Italo Rufino 07 de Março de 2017 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


A vida do empreendedor Geraldo Rufino costuma ser contada como uma sequência de altos e baixos. 

O fundador da JR Diesel, empresa especializada em desmonte decaminhões, gosta de narrar todas as vezes que quebrou um negócio. Ao todo, foram seis idas à lona. 

O último colapso se deu em meados de 2002, quando o empreendedor se uniu a um grupo americano para criar uma rede de concessionárias de caminhões. 

A parceria não deu certo. Os investidores saíram do negócio e a conta da presepada, uma dívida de R$ 16 milhões, ficou nas mãos de Rufino.

A alternativa para reerguer a empresa foi se concentrar novamente na reciclagem de caminhões. 

O mercado foi criado pela própria JR Diesel em 1985, quando Rufino desenvolveu um modelo de compra de veículos danificados para revender as peças internas. Foi a formalização dos populares desmanches. 

Hoje, a empresa fatura aproximadamente R$ 50 milhões anuais e possui capacidade de desmontar 1.000 veículos por ano. 

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Rufino foi um dos principais palestrantes da Feira do Empreendedor, realizada recentemente pelo Sebrae na capital paulista. Entre parte dos 140 mil entusiastas do empreendedorismo que participaram do evento, o empresário é um ídolo.

Em sua palestra, que não segue roteiro algum, ele costuma evocar palavras como “simplicidade”, “família” e “força de vontade”. 

Quando desejar transmitir uma mensagem mais contundente, como a que “o empreendedor não pode terceirizar sua culpa, pois é o único responsável pelo seu sucesso”, Rufino costuma bater forte no peito. 

RUFINO E UM FÃ NA FEIRA DO EMPREENDEDOR: EMPRESÁRIO É TRATADO COMO UM ÍDOLO

Outra característica marcante é o sorriso constante. Ele afirma ser uma “pessoa incansavelmente feliz”. E o entusiasmo é contagiante. A cada frase motivadora, aplausos emergiam da plateia. Muitos fotografavam como se estivessem num show de uma estrela do rock. 

A informalidade também se faz presente em seu vocabulário, repleto de palavrões e piadas consigo mesmo. 

Ao responder dúvidas da plateia, Rufino teceu comentários inspiracionais. 

Como conquistar clientes? 

“Antes de enxergar um possível cliente, o empreendedor precisa enxergar a pessoa que está do outro lado como se fosse uma criança que busca novas amizades”, disse Rufino. “Um sorriso contagia e cria relacionamento.” 

E como lidar com o medo que inibe quem arrisca empreender?

“Medo deve ser um sistema de ABS, que nos protege”, disse. “Jamais um freio de mão usado por insegurança e que nos trava.” 

Nas palavras de Rufino, o empreendedor deve usar seus receios para buscar um equilíbrio entre o risco e a responsabilidade. 

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O CATADOR DE SONHOS

Hoje, Rufino não está no dia a dia dos negócios. Ele mantém o cargo de presidente do conselho da JR Diesel e atua como embaixador da marca. 

O empreendedor popular está constantemente na mídia. Já foi entrevistado por Jô Soares e João Doria – o atual prefeito de São Paulo foi o criador e apresentador do programa Show Business. 

AUTOBIOGRAFIA DE RUFINO: MENSAGENS DE OTIMISMO E SUPERAÇÃO (Imagem: Editora Gente)

A imagem do showman foi forjada sobre a sua história de superação, relatada na autobiografia "O Catador de Sonhos", publicada em 2016.

O título da obra remete à sua infância. Entre os nove e onze anos, Rufino foi catador de sucata num lixão localizado próximo à Favela do Sapé, na zona oeste de São Paulo, onde morou com o pai e os irmãos ao migrar, ainda criança, de Minas Gerais.

Sua mãe, sua grande referência, morreu quando ele contava apenas sete anos.

O lixão foi o cenário de seu primeiro empreendimento. Rufino vendia latinhas. Parte das receitas era enterrada no aterro. O banco improvisado foi a razão de sua primeira falência.

Certo dia, após voltar da escola, ele descobriu que o terreno havia sido vendido e máquinas haviam removido parte dos resíduos – e lá se foi seu dinheirinho. 

Posteriormente, ele teve a ideia de montar um campo de futebol num terreno da Prefeitura. Conseguiu uma autorização do poder municipal, comprou traves e uniformes e passou a locar o espaço para jogadores amadores da região.

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Na adolescência, Rufino trabalhou no Playcenter, conhecido parque de diversão paulista. Começou como office-boy e, quinze anos depois, era gerente de operações. Enquanto executivo, Rufino montou uma pequena frota de caminhões para transportar adubos.

O negócio era tocado por seus irmãos. Um dia, os veículos se envolveram num acidente e o conserto ficou inviável devido o alto custo. 
A solução foi desmontar os caminhões à mão e vender as peças. A opção se mostrou lucrativa e Rufino, então, criou a JR Diesel. 

Nos últimos anos, a JR Diesel foi beneficiada pela Lei dos Desmanches, sancionada em 2014.

A lei determina que as empresas que desmontam veículos sejam credenciadas no Detran, utilize etiquetas que atestem a origem dos produtos e gere notas fiscais eletrônicas. 

Devido à experiência precoce no setor, a empresa se tornou a maior empresa de reciclagem de caminhões no Brasil. 

De acordo com a consultoria alemã Roland Berger, setor brasileiro de reposição de peças automotivas movimentou R$ 23 bilhões em 2014. A estimativa é que o mercado atinja R$ 85 bilhões até 2020. 

FOTOS: Cris Castello Branco/Sebrae-SP