Negócios

Comércio paulistano sente aprofundamento da crise


Balanço de Vendas da ACSP aponta queda de 18,4% no movimento do comércio


  Por Bárbara Ladeia 01 de Fevereiro de 2016 às 17:11

  | Editora, a jornalista é especializada em Gestão, pós-graduada em Negociação (Unesp), fez cursos na The Wharton School (EUA), FGV e Escola de Inovação em Serviços


Janeiro já é conhecido como um dos piores meses para o varejo paulistano e neste 2016 não houve qualquer sinal ao contrário.

O Balanço de Vendas da Associação Comercial de São Paulo, divulgado nesta segunda-feira (01/02), veio melhor que as expectativas divulgadas na primeira quinzena, mas ainda bem longe de um resultado positivo. Na comparação com janeiro de 2015, o movimento do comércio caiu 18,4%, considerando a média entre vendas à vista e vendas a prazo. O indicador com o peso da sazonalidade, que compara dezembro de 2015 com janeiro deste ano, sinaliza um encolhimento de 39,1%.

O Indicador do Movimento de Cheques (ICH), que constata as vendas à vista na cidade de São Paulo, sinaliza a queda de 47,7% na comparação com dezembro do ano passado – a série histórica sinaliza um encolhimento médio de 45% entre dezembro e janeiro.

 

 

Emílio Alfieri, economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo, explica que, neste ano, o cenário negativo foi reforçado pelo efeito calendário – janeiro teve um dia útil a menos, o que piora ainda mais as contas do varejo. “Um dia útil representa cerca de 3,8% do movimento total de um mês”, lembra o economista.

Infelizmente, não é possível imputar culpa ao calendário. Além da disparada do dólar, os últimos dados da última Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE apontam queda de 2,7% no emprego entre dezembro de 2015 o último mês de 2014.

Os rendimentos encolheram 5,8% e o poder aquisitivo murchou 8,5%. “Com isso, caem as vendas à vista de produtos como roupas, adereços, itens de farmácia e perfumaria”, explica Alfieri.

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O mesmo efeito calendário abateu o Indicador do Movimento de Comércio a Prazo (IMC), que sinaliza queda de 30,5% em relação a dezembro, caracterizado sempre pelas vendas natalinas. O valor apurado em janeiro deste ano na capital paulistana é pior que a média da série histórica, que aponta variação negativa de 23%. 

O economista explica que esse indicador mostra um cenário ainda mais grave a longo prazo, uma vez que os produtos vendidos a prazo costumam ser de maior valor e portanto agregam mais ao Produto Interno Bruto do país. 

Essa queda é explicada não só pela redução dos empregos e pela queda da massa salarial, mas também pelos fatores macroeconômicos nada favoráveis que tiram a confiança do consumidor.

A alta do dólar e dos juros, a desaceleração do crédito e o fim dos estímulos ao setor de informática ajudaram a cravar o resultado negativo. 

Em momentos como este, quando o indicador de sazonalidade está desfavorável a recomendação principal ao varejista é evitar os estoques.

“Janeiro e, sobretudo, fevereiro, são tipicamente meses de baixa para o varejo da cidade, que sofre com o êxodo dos paulistanos por conta de férias e Carnaval. Por isso, o empresário precisa planejar suas vendas com cuidado e evitar estoques”, diz Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).

CRISE POLÍTICA

É inegável o efeito da crise política e institucional sobre esses indicadores. A incerteza quanto às inúmeras questões que rondam Brasília derruba a confiança de consumidor e empresário – ambos preferem evitar o risco e o comprometimento financeiro a longo prazo. 

Com o cenário político turvo, fica ainda mais difícil criar prognósticos. Para o economista, enquanto não houver decisão sobre os rumos do Planalto, não será possível definir onde está o ponto mais baixo dessa crise. “Teremos um ano perdido se não houver uma perspectiva de mudança rápida no noticiário de Brasília”, diz. 

A percepção de Alfieri está calçada na experiência de 1992, quando às vésperas do impeachment do então presidente Fernando Collor, houve uma queda acentuada no IMC.

“Quando Itamar Franco assumiu, encerraram-se algumas das dúvidas e começou uma trajetória de reversão”, lembra. No caso, a recuperação só veio dois anos depois. “As condições eram diferentes naquela época e, por isso, dessa vez é possível que a recuperação venha mais rápido, mas é preciso que a crise política se dissolva para que as perdas sejam estancadas.”