Negócios

Comerciantes do Brás lançam campanha para driblar a crise


Com camisetas que estampam slogan da Liquida Brás, vendedores abusam da simpatia para tentar desovar as sobras do Natal. Descontos chegam a até 80%


  Por Fátima Fernandes 14 de Janeiro de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


O ano que passou definitivamente não deixou saudade para o varejo de vestuário. Levantamento feito pelo IEMI (Instituto de Estudos e Marketing Industrial) revela que o setor vendeu 6,217 bilhões de peças no ano passado, volume inferior até a 2010 (6,291 bilhões de peças).

A boa notícia, é que, apesar da crise, os consumidores brasileiros deverão gastar cerca de R$ 200 bilhões em artigos de vestuário neste ano, de acordo com estimativa de técnicos do IEMI. Cabe aos comerciantes, portanto, encontrar maneiras criativas de atrair a clientela para as lojas.

Um grupo de 50 confeccionistas e lojistas de um dos bairros mais tradicionais do comércio de São Paulo, o Brás, decidiu lançar uma campanha nesta semana para vitaminar os negócios na região.

Os comerciantes que aderiram à Liquida Brás se comprometeram a vender neste mês roupas no atacado e no varejo com descontos de até 80%.

A campanha, que se estende até o dia 30 deste mês, tem como principal objetivo desovar as sobras de mercadorias do Natal e, como consequência, dar um fôlego financeiro para as confecções, que precisam se preparar para a produção da coleção de inverno.

É a primeira vez que os confeccionistas e os lojistas do Brás se unem em torno de uma campanha deste tipo, com banners na frente das lojas e distribuição de camisetas com o slogan da campanha para as vendedoras.

Em outros moldes, mas com os mesmos objetivos, comerciantes dos Jardins conduziram uma campanha cooperativa no ano passado.

A intenção do grupo é criar um calendário de promoções no bairro ao longo do ano e tornar a ação tão importante quanto a Black Friday, evento no qual as grandes redes, especialmente as de eletroeletrônicos, desovam estoques com descontos mais graúdos

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A Show Girls, confecção de roupa feminina localizada na Rua Mendes Jr., no coração do Brás, é uma das 50 lojas que aderiram à Liquida Brás.

Kim Chung, sócio da empresa, diz que possui 30 mil peças em estoque e que os descontos neste mês chegam a 80%. Blusinhas femininas para o verão custam R$ 10 para os lojistas.

“Como é a primeira vez que fazemos um evento deste tipo, não sabemos qual será a repercussão", diz Chung. "A economia está muito instável. Está difícil fazer qualquer previsão.”

Na Vybora Jeans, localizada na mesma rua, oferece descontos de até 50% para os lojistas. Na West Girls, a poucos metros, todos os produtos da loja (que só vende no atacado) estão à venda por R$ 35. Antes da campanha, as peças custavam até R$ 59.

“É preciso se movimentar para estimular as vendas”, afirma Karina Andrade Teixeira, gerente da West Girls. A confecção tem usado também as redes sociais e o aplicativo WhatsApp para chamar a atenção dos 5 mil clientes (lojistas) que possui no país.

A confecção Razon Jeans tem a expectativa de comercializar 20 mil peças durante a campanha, o que equivale à produção de um mês da confecção. Os descontos oferecidos para os lojistas são de 20% para peças que custam, normalmente, de R$ 49 a R$ 65.

Especializada em jeans, a Confecções Dinho’s, localizada na Rua Henrique Dias, decidiu dar descontos de até 45% nos preços de shorts, bermudas e saias.

Fauze Yunes, sócio diretor da empresa, afirma que o ano começou ruim e que as vendas em dezembro do ano passado caíram 10% na comparação com igual mês de 2014.

Os descontos, segundo ele, estão mais concentrados nos produtos que não possuem toda a numeração (do número 38 ao número 54). “Vamos oferecer descontos, mas as vendas serão feitas sempre com algum lucro”, afirma ele.

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Antes de aderir às promoções, os comerciantes precisam fazer conta. Vender com prejuízo, isto é, abaixo do preço de custo, mesmo por curto período, pode quebrar uma empresa, segundo consultores de varejo.

No ano passado, 2 mil pequenas e médias confecções fecharam as portas no país, das quais 400 no Estado de São Paulo, por conta da queda nas vendas, má gestão e dificuldade de conseguir crédito com instituições financeiras, de acordo com o Sindivestuário, sindicato que reúne as confecções.

A produção de roupas caiu 35% em 2015 na comparação com 2014, o que levou à demissão de 60 mil pessoas no país, das quais 25 mil no Estado de São Paulo, de acordo com o sindicato.

Nada indica que, neste ano, a situação será diferente. Ronald Misijah, presidente do Sindivestuário, diz que os associados estimam queda de mais 15% na produção neste ano.

“As vendas para o Natal não foram boas. A expectativa é de uma queda real de 10% no faturamento das empresas em dezembro do ano passado em relação a igual período de 2014. As confecções dependem de vendas para ter capital de giro e o mercado está parado”, afirma Misijah.

Ações do tipo da Liquida Brás são muito bem-vindas neste momento, na avaliação de Marcelo Prado, diretor do IEMI.

Mais otimista do que Misijah, Prado acredita que 2016 deve ser melhor do que 2015 para o setor do vestuário.

Em volumes, as vendas no varejo de roupas caíram 4,2%  em 2015 ante 2014, de acordo com o IEMI. Neste ano, a previsão é de crescimento de 0,8% sobre 2015. “É um crescimento vegetativo, mas positivo”, diz ele.

A produção de roupas, que, pelos cálculos do instituto, caiu 6% em 2015 ante 2014, deve crescer 5,5% neste ano. Essa previsão de crescimento, de acordo com Prado, será reflexo da queda da importação de roupas devido à alta do dólar.

Apesar de ter números mais otimistas do que o do Sindivestuário para este ano, Prado diz que o varejo do vestuário vai ter de se mexer -  e muito - para driblar a crise.

Para uma marca ser lucrativa, diz ele, é preciso que ela tenha diferenciais e seja inovadora. “Neste caso, o limitador não será o preço do concorrente e, sim, a capacidade de pagamento do cliente”.

Eis algumas recomendações de Prado:

* Para encantar um cliente, não basta pensar nele, e preciso pensar como ele

* Você não escolhe o cliente, é o cliente que escolhe você

* Na hora da compra, o que conta é a percepção do cliente, e não a sua

* Se a sua empresa pensa diferente do mercado, mude a sua empresa