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Começa o principal evento de moda do Brasil


São Paulo Fashion Week extingue a divisão entre as estações e bate recorde de patrocinadores


  Por Thais Ferreira 26 de Abril de 2016 às 08:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Teve início nesta segunda-feira (25/04) a 41ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW) – considerado o maior evento de moda do hemisfério sul.

Durante os cinco dias de evento, circularão pelas passarelas da Bienal, no Parque do Ibirapuera, as principais criações dos estilistas brasileiros.

O tema dessa edição - que pretende valorizar o trabalho manual dos criadores - é Mãos que Valem Ouro.

"O ouro faz alusão a tudo o que é valioso. E o nosso fazer é precioso”, afirma Paulo Borges, diretor criativo do SPFW. “Estamos num momento único no país, onde há muitas dúvidas. É hora de olhar para o futuro, colocar a mão na massa e fazer acontecer”.

No total serão 39 desfiles, sendo sete marcas estreantes: A.Brand, À La Garçonne, Amabilis, Amir Slama, Cotton Project, Murilo Lomas e Vix.

ESPAÇO DAS PEQUENAS EMPRESAS NO SPFW

RETROSPECTIVA

A primeira edição foi realizada em 1995. Na época, a ideia era organizar o lançamento das coleções das marcas brasileiras.

“No começo da década de 1990, todo o calendário brasileiro de lançamentos era solto. Cada um produzia numa data diferente”, afirma Astrid Façanha, professora do curso Design de Moda do Centro Universitário Senac.

“O evento veio para organizar toda a cadeia produtiva. Além de se tornar um espaço para troca de ideias e para expor novos valores estéticos e comportamentos sociais.”

Desde então, o SPFW foi consolidando sua importância no calendário mundial da moda.

Internamente, o evento é considerado crucial para o setor. É uma vitrine do que estará nas ruas nos próximos meses: seja pelas mãos dos criadores, seja por meio das grandes redes de varejo que levam as tendências para um público mais amplo. 

E não é apenas o mercado da moda. Várias cadeias são impactadas pelo o que acontece nas passarelas.

“A moda é um farol para outros setores porque propõem um estilo de vida. A partir dessas tendências é possível entender o comportamento dos consumidores”, diz Astrid. “Alguns mercados são influenciados de formas mais óbvia, como gastronomia e decoração. Mas até uma empresa de seguros, por exemplo, pode utilizar ideias provenientes da moda”

MUDANÇA NO CALENDÁRIO

A inovação sempre foi uma das características mais marcantes do SPFW. A semana de moda brasileira foi a primeira do mundo a transmitir os desfiles ao vivo pela internet e foi pioneira também na compensação de todo o carbono que é emitido durante o evento.  

Neste ano, o SPFW dá mais um passo a frente. Enquanto as tradicionais capitais da moda –  Nova York, Londres, Paris e Milão –  ainda estudam mudanças no calendário. O evento brasileiro propõe mudanças ousadas.

Pela primeira vez, foram abolidas as divisões entre as coleções primavera-verão e outono-inverno. Além disso, foi anunciado que no próximo ano os desfiles deverão acontecer em fevereiro e junho, e não mais em abril e outubro.

O objetivo é diminuir a distância entre as passarelas e as vendas.

As marcas investem tempo e dinheiro para criar as coleções e os desfiles que chamam a atenção dos consumidores. Mas eles têm que esperar meses para consumirem as peças que apareceram nas passarelas. Com a velocidade do mundo atual, esses lapsos de tempo se tornaram um problema.

“Hoje, com a internet e as redes sociais o modelo tradicional de desfiles começou a se perder. As pessoas querem consumir de forma instantânea”, diz Astrid. “Isso também foi influenciado pelo conceito see now, buy now (veja agora, compre agora, em inglês), em que algumas marcas vendem peças dias ou horas após os desfiles”, afirma Astrid.

Lá fora as grifes Burberry, Tom Ford e Vetements já anunciaram que não participaram de forma tradicional nas semanas de moda. Eles pretendem apostar em coleções não mais divididas por estações. A marca Tommy Hilfiger adotou o conceito “see now, buy now" a partir de 2017.

PAULO BORGES E GUILHERME AFIF DOMINGOS DURANTE O SPFW

CRISE

Apesar da recessão econômica, neste ano o SPFW teve número recorde de patrocinadores, mas isso não significa aumento no faturamento.  De acordo com Paulo Borges, houve uma negociação com as empresas e a queda nos valores foi de 20%, em média.

A redução dos números atinge todo o setor. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o faturamento da cadeia têxtil e de confecção foi US$ 36,2 bilhões em 2015 – queda de 37% em relação ao ano anterior. Os investimentos também caíram foram de US$ 1.091 milhão em 2014 para US$ 749 milhões no ano passado.

Mesmo com essa retração, os pequenos empresários demonstram interesse no setor. Neste ano, o Sebrae trouxe para o SPFW um grupo de 120 pequenos empresários e gestores de todo o Brasil para participar do evento. O objetivo é ajudar essas empresas a se tornarem mais competitivas nesse mercado de alto valor agregado.

 “As empresas que estão aqui começaram bem pequenas e graças ao esforço e criatividade chegaram até o São Paulo Fashion Week”, afirma Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae.  “Temos que dar a oportunidade para que todas as empresas do Brasil cheguem a um evento como esse.”