Negócios

Com sua grife, escritor da periferia brilha como empreendedor


Celebrizado por mais de uma dezena de obras da chamada literatura marginal, Ferréz dribla a crise e amplia os negócios com a 1dasul, a marca que criou para os "manos" e os "véios"


  Por Fátima Fernandes 09 de Novembro de 2016 às 08:00

  | Editora do site Varejo em Dia


Reginaldo Ferreira da Silva, 40 anos, mais conhecido por Ferréz, é compositor, músico, escritor, consultor, palestrante e empreendedor. Publicou mais de dez livros, traduzidos para mais de 20 países, entre eles Argentina, França, Itália e Alemanha.

Um de seus textos, "O Fluxo", que conta a história de uma menina que curte funk, será publicado em breve em coletâneas de autores nos Estados Unidos e na Croácia, para onde ele deve ir neste final de ano.

Seu primeiro livro, "Capão Pecado", uma história de amor, lançado em 2000, já acumula vendas superiores a 100 mil exemplares e ainda neste ano ganhará uma edição especial.

A vida literária de Ferréz é celebrizada. Foi dele a ideia de contar histórias inspiradas no bairro em que foi criado e viveu até muito recentemente, o Capão Redondo.

Fã de rap, ele acabou tendo a ideia de juntar livros, música e criar, em 1999, uma marca, a 1dasul, capaz de revelar a cultura da periferia, influenciada pelo movimento cultural hip-hop.

1dasul significa todos unidos pela zona Sul de São Paulo, ou, como ele diz: "Ninguém é um ‘zero à esquerda".

Diante de uma história como essa, é possível deduzir que Ferréz, filho de um motorista de ônibus aposentado e de uma dona de casa que já foi empregada doméstica, vive muito bem há anos da venda de livros, de palestras e do comércio de bonés, camisetas, jeans, acessórios e adesivos da marca.

Não é bem assim. No início da 2015, o escritor  tinha uma dívida de R$ 400 mil com um banco, e sem condições de pagá-la, por conta de uma casa adquirida em Itapecerica da Serra.

Por 16 anos, ele teve apenas um ponto de venda, não conseguiu crescer, pois se dedicou mais aos livros do que ao comércio. “Ser escritor não dá dinheiro, não”, afirma.

Na contramão do que aconteceu com muitos empreendedores foi justamente nesta crise que Férrez decidiu dar uma guinada no seu negócio. “Resolvi colocar em prática tudo que tinha ouvido até então sobre boas práticas de gestão”, diz.

Durante quase um ano,  foi orientado pelo Instituto Quintessa, uma ONG que apoia o empreendedorismo com comprometimento socioambiental.

Os profissionais da aceleradora conheceram Ferréz durante uma de suas palestras, que tratam de seus livros e da cultura da periferia, que ele conhece muito bem.

“No começo, fiquei meio desconfiado", conta. "Quem tem interesse em ajudar alguém de graça? Pensei, esses caras querem tomar o meu negócio.”

Depois de um encontro no escritório do instituto, Ferréz se convenceu de que a ONG queria mesmo ajudá-lo. “Eles diziam:  Você tem um negócio milionário nas mãos.” E eles tinham razão.

Em vez de reduzir o tamanho da loja, Férrez decidiu arriscar e aplicar parte do dinheiro que entrava com a venda da loja e do site, lançado em 2011, para expandir o negócio.

Há cinco meses, ele inaugurou um ponto no shopping Mais, em Santo Amaro. Dois meses depois, abriu a primeira franquia da marca em Embu Guaçu.

“A franquia começou em um ponto com 16 metros quadrados. Deu tão certo que hoje está em uma área de 48 metros quadrados, maior até do que a loja do Capão Redondo”, diz.

No shopping Mais, a 1dasul ocupa 22 metros quadrados, também vai crescer.

Ferréz  negocia com a administradora do empreendimento uma extensão de mais 16 metros quadrados, pois o local também vai servir de palco para shows de bandas de rap.

“Tem empreendedor que vai mal quando a economia está normal e tem aquele que vai bem na crise, que consegue identificar  os atores para trabalhar”, afirma ele, querendo dizer que parece ser seu caso.

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Diversificar os negócios, fidelizar o cliente, diversificar com novos produtos, criar novas oportunidades, escutar o público.

“Depois que comecei a fazer tudo isso, até por instinto, li em uma reportagem que essas eram algumas das dicas de especialistas para sair da crise”, afirma.

Com os três pontos e o site, Ferréz consegue faturar agora quase R$ 1 milhão por ano. Ele planeja abrir mais duas lojas em shoppings maiores, como o Aricanduva e o Interlagos, já no próximo ano.

A dívida com o banco caiu para algo perto de R$ 150 mil e já não é mais um problema.

A 1dasul sempre teve uma clientela fiel. A marca nasceu com o objetivo de mostrar a identidade do público do Capão Redondo, bairro da Zona Sul paulistana com cerca de 400 mil habitantes.

“Quando lancei a 1dasul, meus concorrentes produziam cópia de roupas dos Estados Unidos, com estampas do Mickey. Eu, que não tinha dinheiro nem para pegar condução, queria criar uma marca de bairro para o cliente ter orgulho de usá-la. Nunca tive dó de gastar para conquistar isso.”

Vender o sonho dos outros é melhor do que vender o seu. Por acreditar nisso, Ferréz começou a convencer o cliente a usar os bonés da 1dasul, dizendo que a marca pertencia a uma grife que estava nascendo e ia se tornar importante no país.

Ele começou com a produção de cinco bonés. Vendeu quatro e ficou com um. Nas entrevistas e nas palestras que dava para falar de seus livros, lá estava ele com o boné da 1dasul.

De bonés, passou a produzir camisetas, até que um dia decidiu inaugurar uma miniloja, com quatro metros quadrados, na garagem da sua casa, por sugestão de sua mãe.

“Mandei pintar a garagem com temas da periferia -uma pipa, um cara preso-, e escrevi na parede: ‘1dasul movimento cultural da periferia’”.

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Não havia quase produtos para vender, mas na inauguração havia autoridades -o prefeito de Barcelona e a secretária de Finanças de Nova York da época, além de artistas.

O público de fora, diz ele, já estava enxergando o valor da ideia, mas, naquele momento, o consumidor do bairro ainda não entendia.

“Passei quatro anos sem vender quase nada e tive de trabalhar de ajudante de pedreiro para sobreviver. Mas a loja continuava aberta.”

Os amigos mais próximos, de acordo com ele, diziam que seria difícil expandir uma marca de um bairro conhecido pela violência, pela bandidagem.

 “Se alguém do bairro namora uma menina de fora, como vai chegar à casa dela com uma camiseta do Capão Redondo? O pai da moça não vai nem deixar ele entrar.”

Isso era o que Ferréz mais ouvia de amigos e pessoas próximas. Até que, a partir de 2007 e 2008, começou a haver uma procura cada vez maior pelos produtos da marca.

 “O segurança dos shoppings não paravam cliente que vestia a camiseta do Capão Redondo para entrevistar, mas para saber onde ele tinha comprado a camiseta, o boné.”

“Nos últimos anos, mudou o modo das pessoas viverem e pensarem. O capitalismo é uma engrenagem que estava girando de uma forma e passou a girar de outra”, diz ele.

 O público da periferia, de acordo com Ferréz, não está sendo atendido pelas marcas, por isso a 1dasul começou a crescer. E é esse espaço que ele quer ocupar com sua grife.

“O pessoal da periferia adora marca porque tem uma autoestima destruída, já que foi criado do lado de córrego, assassinatos e drogas. Ninguém entende o amor que tem um por um tênis de marca. A marca da periferia tem chance porque o público da periferia adora marca.”

Por conta de sua habilidade e conhecimento desse público, Ferréz é constantemente chamado por empresas para dar consultoria. Johnson & Johnson e Coca-Cola já ouviram o que Férrez tem a dizer sobre alguns de seus produtos.

“Eles me chamam para tentar descobrir porque alguns itens não vendem. No caso do Toblerone (chocolate produzido pela americana Mondelez), eu disse que era um produto muito elitizado, por conta daquela caixa de papelão em formato de triângulo. Pobre nem pega naquilo, pois a aparência é de que o chocolate custa uns R$ 20.”

A Ceras Johnson, que produz a linha de purificadores de Glade, tinha a mesma preocupação. “O cara da periferia não pega em um produto que tem uma orquídea desenhada, onde está escrito embaixo ‘flores do campo’. O produto tem que falar a língua dele”, diz.

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"Um pedreiro entrou na minha loja e viu uma camiseta com a estampa de uma pessoa negra e disse :"até que enfim achei um cara preto na camiseta." 

Isso não quer dizer, diz Ferréz, que o que se vende na periferia tem de ter baixa qualidade. “Foi-se o tempo em que produto para periferia tinha de ser ‘zoado’. Na verdade, nunca acreditei nisso. O mote da minha marca sempre foi qualidade e conteúdo.”

FERRÉZ NA LOJA DO SHOPPING MAIS, EM SANTO AMARO

Os bonés da 1dasul chegam a custar até R$ 150 e, as camisetas, até R$ 120. A marca faz roupas para pessoas de 6 a 60 anos, mas especialmente para a faixa de 15 a 35 anos.

 Na estrutura da marca trabalham 20 pessoas, mas outras cem estão indiretamente ligadas à produção e  itens da marca. Os bonés são feitos em três oficinas, cada uma com cerca de oito costureiras.

As camisetas também são produzidas no Capão Redondo e em bairros da zona Sul. O produto que a 1dasul mais vende é o adesivo com a marca para fixar em carros e em motos.

As marcas da periferia estão ganhando cada vez mais espaço dos consumidores do bairro e até fora dele, de acordo com Férrez.

Tanto que no seu plano de expansão do negócio, ele incluiu a venda de outras marcas. A loja do shopping Mais comercializa as marcas Vida Loka, do Capão, A286 e Eduardo, do Grajaú, Dexter, da Vila Calu, entre outras. Geralmente, as marcas estão vinculadas a cantores de rap e escritores de bairros.

“Todas essas marcas estão indo muito bem. Eles têm 500 ou mil clientes, mas são clientes fiéis. tudo o que as marcas lançam, eles compram. Se há uma noite de autógrafo na loja, eles participam.”

Ao mesmo tempo em que seu negócio deslanchou em meio à crise, Ferréz diz que viu muitos pequenos empreendedores do bairro perder  tudo com a crise. “O capitalismo faz uma provocação: quem quer, vem comigo, quem não quer fica para trás.”

Férrez decidiu aceitar a provocação e levar com ele os empreendedores capazes de dar emprego e divulgar a arte, a música e a cultura da periferia. Não dá para negar que o escritor, palestrante, consultor tem o que um empreendedor precisa: persistência.

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FOTOS: Fátima Fernandes/Diário do Comércio